Exibição de Jonas e o Circo sem Lona levanta debate sobre os rumos do documentário

O Grupo GRIM realizou na última seta-feira, 14, o terceiro encontro do projeto Roteiros de Recepção. Foi a primeira vez que se exibiu um filme para discussão, e o escolhido foi o longa-metragem baiano Jonas e o Circo sem Lona, da diretora Paula Gomes, produzido pela Plano 3. Além da presença da diretora, de parte da equipe do filme e de uma das personagens, o evento contou com a participação dos debatedores Bruno Saphira e Amanda Aouad para discutir e lançar questões sobre a obra.

 

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Terceira edição do Roteiros de Recepção leva ‘Jonas e o Circo sem Lona’ para a Facom

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Acontece no auditório da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, sexta-feira, dia 14 de julho, às 14 horas, a terceira edição do evento Roteiros de Recepção, que será marcada pela exibição do longa-metragem baiano Jonas e o Circo sem Lona com a presença da diretora Paula Gomes e outros membros da equipe. A sessão será seguida de uma mesa de debate sobre a obra com a participação da diretora, do pesquisador Bruno Saphira e da crítica de cinema Amanda Aouad com o objetivo de discutir a obra e seus temas, estabelecendo uma troca de pontos de vista entre o público presente, a realizadora e a academia. A entrada é franca e não é necessária inscrição, basta comparecer (no entanto, está sujeita à capacidade do auditório).

Sobre o filme:

O filme é um documentário que narra a trajetória de Jonas, garoto de 13 anos que vem de uma família circense. Por iniciativa própria, Jonas cria seu próprio circo com uma lona improvisada no quintal de sua casa na periferia de Salvador. Entre os temas que o longa procura discutir está a situação da educação no país já que o seu protagonista vive um intenso conflito entre a dedicação a sua vida no circo e a necessidade dos estudos, mesmo diante da precariedade da escola pública.

Jonas e o Circo sem Lona entrou em cartaz no circuito comercial brasileiro em março desse ano e foi premiado nos diversos festivais dos quais integrou a programação. O filme esteve no Festival de Documentário de Amsterdã , sendo a única produção latino-americana na seleção. Além disso, venceu o Austin International Film Festival of the Americas como melhor documentário e o MiradasDoc International Documentary Film Festival. O documentário também foi escolhido como melhor longa pelo júri especial do Panorama Coisa de Cinema de 2016 e recebeu uma menção honrosa do júri no CachoeiraDoc do mesmo ano.

Assista ao trailer do filme:

ENTRANDO NO “PORÃO” DA WEB

Em Reading the comments, Joseph Reagle explora o ignorado e polêmico mundo dos comentários on-line

André Bomfim

Amanda Brennan, blogueira responsável pelo site Know Your Meme, uma importante fonte para entender a genealogia dos memes, ostenta em seu pescoço uma corrente com a mensagem “Never read the comments” (“Nunca leia os comentários”). Para ela, os comentários terminam sempre revelando como as pessoas podem usar a web para os fins mais obscuros, como bullying e assédio moral. O jovem professor estadunidense Joseph Reagle resolveu investir seus esforços de pesquisa exatamente nessa porção da web comumente ignorada, polêmica e mal vista. Reading the comments (ainda sem tradução e disponível na Amazon) é um passeio pelos aspectos sociais, culturais e tecnológicos do mundo dos comentários, apelidado pelo autor de “o porão da web” (livre tradução de “the bottom of the web”). “Este livro é sobre aquilo que está nas margens, o que pessoas comuns encontram no cotidiano”, avisa Reagle (p. 16).

comments2.jpgA principal característica da web 2.0, a internet das plataformas sociais, é o seu caráter interativo e reativo. Fomentado em grande parte pelos espaços de conversação, incluindo os fóruns, chats e sistemas de comentários. Desde que ganhamos visibilidade e “voz” nessas plataformas, revelamos o que temos de melhor, mas também de pior. Reagle define um comentário como mensagens reativas, curtas, assíncronas e contextualizadas. Seu conteúdo pode ser um texto, um like ou um voto, por exemplo. Um comentário pode nos ajudar de várias formas, como numa decisão de compra. Mas também é capaz de desencadear dramas pessoais e até crises políticas, a depender do seu teor e contexto.Entre o bem e o mal, o autor desenha as principais funções dos comentários: informar, manipular, aprimorar, depreciar, moldar e confundir (um capítulo reservado para cada uma delas).

De modo irônico, Reagle destaca o fato de que a maioria de nossas decisões hoje em dia dependem dos comentários dos outros. E produzir comentários é também uma das principais atividades de qualquer usuário da web. A Amazon e outros sites de comércio eletrônico, por exemplo, têm nos comentários um importante sistema classificador de produtos. No Goodreads, Rotten Tomatoes e Metacritic avaliamos filmes e livros de acordo com comentários dos outros usuários. Dessa forma, o comentário se tornou uma poderosa ferramenta econômica, capaz de alavancar ou prejudicar produtos e ideias. Nas redes sociais, os comentários e atualizações de status são uma importante ferramenta para moldarmos nossas identidades. Porém, não podemos ignorar o crescente uso desse poderoso recurso para fins de depreciação do próximo, como nas ondas de ataques racistas, xenófobos e misóginos. Haters, trolls e lolz são alguns dos comportamentos listados por Reagle em casos dramáticos como o do jovem Jamey Rodemeyer, que se suicidou aos 14 anos em 2011, após ser vitimado pelo cyberbullying homofóbico.

Diante da inépcia de organizações, veículos de comunicação, celebridades e pessoas comuns em lidar com os comentários, Reagle lembra que a web é simplesmente um espelho da raça humana (o que é “tão Black Mirror”). Ignorar os comentários pode ser o caminho mais simples para se livrar de um problema. Mas asua compreensão pode ser um próspero campo de pesquisa e desenvolvimento de novos negócios. E, sem dúvidas, um valioso caminho para compreender as dinâmicas sociais e culturais dos ambientes digitais.

 

ALGUMAS NOTAS IMPORTANTES

– VALOR ECONÔMICO: Amazon, Goodreads, Expedia e Trip Advisor são exemplos de alguns modelos de negócios milionários baseados no imenso valor dos comentários on-line, incluindo reviews e ratings (p. 43).

-NICHOS: ratings e reviews são particularmente importantes para produtos de nicho ou desconhecidos (p. 46).

CONCRIT: contração de constructive criticism, termo usado nas comunidades de fanfiction para o feedback endereçado ao autor, com sugestões específicas de aprimoramento da obra (p. 79).

FLAMING: comentário nocivo e não producente (p. 79).

– ANONIMATO:  o anonimato está positivamente relacionado à incidência de comportamento hostil. “On-line, as pessoas exibem um comportamento mais informal e igualitário (como entre aluno e professor) e uma desinibição (em forma de flaming, por exemplo)” (p. 94).

TROLL: a linguista Susan Herring define o troll como o sujeito que envia mensagens aparentemente sinceras, criadas para gerar determinadas respostas ou rompantes, capazes de perder tempo somente para provocar discussões fúteis (p. 96).

– ÓDIO: troll, hater ou bully são termos comumente usados para classificar as pessoas que discordam das nossas próprias opiniões. O discurso de ódio pode se alastrar também por imagens, vídeos e gifs perturbadores (p. 99-100).

BASHTAGS: apropriações subversivas da hashtag de um oponente. Reagle cita o exemplo da briga entre machistas e feministas através da apropriação de hashtags como #INeedMasculismBecause e #tellafeministThankyou (p. 116).

– GERAÇÃO Y, NADA!: a pesquisadora Siva Vaidhyanathan contesta a noção de que os jovens são experts digitais. Basta observar que a maioria não é capaz de criar uma página HTML. Além disso, a prática de multitarefas midiáticas está minando a capacidade de concentração e foco das novas gerações (p. 134). Em uma experiência com seus alunos, Reagle adotou um exercício em que os estudantes definiam um objetivo antes de acessar a internet. Após 20 minutos, o professor perguntava aos alunos o que estavam fazendo. Muitos perambulavam como sonâmbulos on-line, sem lembrar-se do objetivo inicial (p. 185).

– LÓGICA DA QUANTIFICAÇÃO: compradores e vendedores são avaliados e classificados (Mercado Livre), motoristas e passageiros também (Uber). Estas medidas de classificação são sujeitas à manipulação e podem reforçar preconceitos sociais (p. 141).

– RUSH AND SLASH EFFECT: os comentários mais imediatos após uma publicação tendem a atrair um maior número de respostas e votos. Além disso, influenciam os comentários seguintes. Um estudo de 2013 mostrou que  entre comentários avaliados positivamente, negativamente ou neutros, os que receberam votos iniciais positivos se tornaram em média 32% mais bem avaliados. O que explica em parte a dinâmica de TRENDING.

 

Crítica: Elle

                                                         O jogo da perversão

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Por Rafael Carvalho*

Paul Verhoeven resistiu a Hollywood, com seu cinema atroz, aguerrido, irônico, desestabilizador. Para quem acreditava que ele tivesse aplacado os ânimos criativos, eis que retorna com mais uma pedrada em forma de filme: ninguém parece sair incólume de uma sessão de Elle, produção francesa que chegou recentemente aos cinemas comerciais brasileiros, depois de ter competido no último Festival de Cannes.

É justo dizer que a força do filme seja Isabelle Huppert e sua arrebatadora personagem – para dizer o mínimo dela sem entregar muito, também pela dificuldade de adjetivá-la –, essa mulher ímpar na sua relação com o mundo – e por isso seja tão forte seu “embate” com o espectador. Isso porque nada nos prepara para descobrirmos a mulher fria e arredia logo após ela ser violentada sexualmente em sua própria casa no exato início do filme.

A personagem poderia se abalar tremendamente, sentir medo, raiva, nojo, desespero. Não, ela quer ser maior que isso. Sua reação é de frieza e certa apatia. Ela é Michèle Leblanc, a diretora de uma empresa de desenvolvimento de jogos para videogames. Tem personalidade forte, dona de si e independente, rica e não deve nada a ninguém. Aos poucos vai revelando atitudes rudes e impositivas, dura como uma rocha.

O que se segue é a continuidade de sua rotina ao lidar, sempre com imposição, com pessoas próximas: sua viúva mãe apaixonada por um jovem garoto de programa, o filho ingênuo que vai se casar com a namorada grávida e controladora, o ex-marido carente, os amigos mais próximos do trabalho, alguns desafetos ali no ambiente profissional, os novos vizinhos. Num misto de prepotência e autocontrole, Michèle não demonstra compaixão alguma por qualquer um dessas pessoas que perfazem seu círculo íntimo e, nesse processo, abdica mesmo de certo amor-próprio.

As mulheres dos filmes de Verhoeven nunca se sujeitaram e sempre enlouqueceram os homens, desde a psicopata de Sharon Stone em Instinto Selvagem, passando pelas dançarinas irascíveis de Showgirls, até a misteriosa protagonista de O Quarto Homem que já enviuvou três vezes. Verhoeven parece dominar muito bem esse universo de fêmeas senhoras de si, com todos os perigos reais que elas representam. Porém aqui vai um pouco além: Michèle não se contrapõe ao seu algoz por ele ser um homem, mas simplesmente um sujeito que arrisca lhe tirar certa autonomia.

Se há alguma inquietação que a personagem sofre após ter sido estuprada, esta não advém da sua condição de mulher, mas sim da majestade que ela criou sobre si mesma – e esse é um bom passo para se entender que Elle não é um filme machista, muito menos misógino, nem sobre a cultura do estupro, quiçá sobre emponderamento feminino, apesar de essas questões estarem ali de algum modo (podemos mesmo dizer que certas atitudes de Michèle são brutalmente machistas, como na sua relação com a própria mãe). Elle abstém-se de julgamentos dessa ordem pelo simples fato de que essas questões não são questões para o filme e muito menos para sua protagonista – eis aí o maior fator de choque para o espectador: como uma mulher é capaz de lidar de tal modo indiferente com algo tão grave e devastador quanto um estupro? A inquietação surge em Michèle por ela ser controladora e possessiva a ponto de se sentir senhora dos destinos daqueles que estão à sua volta. A partir do momento em que esse sujeito penetra sua vida e intimidade, as rédeas que ela segura ameaçam cair de sua mão.

elleÉ a partir de uma perturbação muito particular e íntima que Michèle decide participar do jogo perverso para atrair e desmascarar a identidadedo seu algoz, esse homem desconhecido que continua a assediá-la com ameaças – e não é à toa que ela trabalhe desenvolvendo games. Michèle não está assustada, muito menos teme pela sua integridade física. Quer antes manter a majestade soberana de ter o domínio de sua própria vida, e a dos outros também. Sua atitude lembra outra personagem icônica que ela mesma protagonizou em A Professora de Piano, de Michael Haneke. O mesmo espírito doentio e (sado)masoquista repete-se aqui, numa personagem talvez mais elegante, sarcástica, mas não menos ameaçadora. O que nos faz indagar se há, de fato, indiferença na postura de Michèle diante da violência que sofreu ou se tudo não passa de um desejo mórbido de dor e violência, o que eleva o filme a uma discussão moral mais intensa ainda.

O corpo aparentemente frágil da francesa – e o cinema de Verhoeven é sobretudo um estudo sobre as potências (e violências) do/sobre o corpo – esconde a mulher que não quer ser vítima, que se nega a assumir a postura de quem se sujeita à violência ou se afeta estruturalmente por ela, apesar da violência rondar por ali, presente a todo instante. E em se negar a ser vítima (mesmo sendo), Michèle acaba se tornando também algoz, violadora, no entanto a partir de uma outra lógica, mais íntima e psicológica, e certamente não por consequência da violação que ela sofreu. Faz parte de sua natureza, e o filme ainda revela um episódio traumático de sua infância que dá pistas do porquê dela ter se tornado o que é. “A mais perigosa ainda é você”, atesta o ex-marido em uma conversa.

É incrível que, com personagem tão dura em situação de tal violência, Verhoeven consiga mesmo extrair humor de várias situações, especialmente na maneira da protagonista brincar com a dor dos outros personagens, sendo eles tão próximos dela. Cenas como as da revelação do bebê na maternidade ou a risada histérica à mesa de jantar, na noite de Natal, após a mãe fazer um anúncio, seguida de palavras tão duras de Michèle, expõem o absurdo que compõem aquele núcleo familiar.

Bom ver também como o diretor holandês ainda é capazde manter em alta o interesse pelo filme a todo instante, com ritmo não tão pungente quanto ele costuma imprimir em seus melhores trabalhos, mas ainda assim sustentando o ritmo. Algo está sempre prestes a acontecer de modo a levar a narrativa adiante, mudando mesmo a percepção que temos sobre os personagens, ou apenas reforçando seu caráter.  É com essa força de encenação, ao mesmo tempo sem precisar chamar atençãopara si, e tramando uma complexa rede de atitudes e comportamentos provocadores de sua protagonista, que Elle salta aos olhos como cinema de energia e inquietação.

Elle (Idem, França/Alemanha/Bélgica, 2016)
Direção: Paul Verhoeven
Roteiro: David Birke, baseado em romance de Philippe Djian

* Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas (PósCom/UFBA) e pesquisador membro do GRIM.

Supermax (2016)

Apesar de problemas em sua estrutura, Supermax é um avanço da Rede Globo em séries do gênero. supermax2

por Amanda Aouad *

A Rede Globo está investindo cada vez mais no formato de série. Parece que ainda não há coragem para ousar pensar em temporadas, mas não deixa de ser um avanço ver obras como Justiça e a série de terror Supermax. A própria estratégia de divulgação dessa última chama a atenção.

Quase todos os episódios estão disponíveis para assinantes da Globo no GloboPlay. Digo quase porque eles seguraram o último episódio para ser visto apenas em dezembro, quando for ao ar na televisão. Com isso, criaram uma espécie de vlog dentro do aplicativo para discutir teorias sobre os mistérios da trama em uma tentativa de manter os assinantes entretidos.

Essa quase estratégia “Netflix” (que sempre lança toda a temporada de suas séries de uma só vez) parece fundamental para a obra que só começa a esquentar mesmo a partir do terceiro episódio, tendo, talvez, um dos piores pilotos de série já vistos. Mas quando o reality show deixa de ser um reality, tudo começa a ficar interessante.

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O formato do primeiro episódio tenta simular um reality show, a direção não usa apenas câmeras escondidas, mas nos apresenta as personagens em vídeos, tem vinheta e até a apresentação de Pedro Bial. Esse é um dos grandes erros de escalação, já que o jornalista e apresentador não é ator e fica artificial em cena.

Os atores também não parecem muito à vontade em seus papéis. Os diálogos não são naturais, a estrutura não parece crível e mesmo as disputas que começam a surgir soam falsas. Tem inclusive um estranho erro de escalação, já que nas cenas abertas do grupo, vemos o ator Harildo Deda no lugar do ator Mário César Camargo, que interpreta o médico Timóteo.

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Ou seja, nada parece funcionar em Supermax. Pode ser que seja um clima proposital para o que está por vir, mas o fato é que o episódio piloto não fisga o espectador. Não nos deixa curiosos para continuar a investir na obra. E o pior, não faz jus ao que será desenvolvido adiante.

Um piloto é uma carta de apresentação, precisa trazer o tom da série e demonstrar aquilo que o espectador irá acompanhar por toda a jornada. Tudo deve ser implantado ali, ainda que melhor desenvolvido adiante. Ao se basear apenas pelo piloto, diríamos que Supermax é uma série sobre um reality show. O que não é verdade.

Então, por que continuar?

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Aos que persistem, há, no entanto, algumas recompensas. Como já foi dito, a série começa a esquentar no terceiro episódio. O gancho cria uma reviravolta que nos deixa intrigados e faz embarcar naquela aventura, apesar de ainda algum estranhamento.

Aos poucos, as personagens vão se tornando mais críveis, sendo aprofundadas e algumas revelações são bem conduzidas, como a cena em que Luisão e Janette ficam presos na área de alimentação. Os mistérios também vão sendo mais bem trabalhados e as explicações apresentadas são coerentes.

Talvez o mais intrigante em Supermax seja a possibilidade real dos acontecimentos. Nada é fantasioso em excesso, em determinado momento tudo fica palpável, o que ajuda no efeito do horror. E mesmo quando alguns elementos fantásticos são introduzidos, é possível comprar a verossimilhança aquele universo. A própria construção de efeitos é conduzida com poucos recursos, um som, um movimento de câmera, penumbras. Há efeitos especiais, mas a série não se baseia neles.

Há uma verdadeira mistura de referências. A começar pela série inglesa Dead Set, talvez a referência mais forte, com pitadas do filme espanhol REC. Mas é possível pincelar referências de formatos e temáticas de obras como Lost, OZ, Supernatural, Heroes e até algo de The Walking Dead.

Ainda que não tenhamos visto o episódio final, já é possível ver um avanço na Rede Globo no gênero. A série, de fato, funciona, pelo menos até o episódio 11. Só nos resta agora aguardar o episódio final para ver se a boa sensação se confirma. Afinal, tudo pode cair por terra com uma resolução mal planejada. Vamos torcer.

 

* Doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Póscom/UFBA) e integrante do GRIM

Orphan Black – Quarta Temporada

Vencedora do Emmy (2016) de Melhor Atriz em série dramática, para Tatiana Maslany, Orphan Black chegou à quarta e penúltima temporada com uma trama mais madura e envolvente.

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Por: Letícia Moreira*

O Clone Club está de volta com mais suspense, revelações e desafios na quarta temporada de Orphan Black, a mais instigante e bem elaborada até então. E os fãs mais fiéis com certeza não se decepcionaram com a sequência, que conseguiu desenvolver bem a trama, trazendo um equilíbrio, à sua maneira, ao enredo, logrando prender o espectador sem a necessidade de saturá-lo com informações e referências, hábito típico das temporadas anteriores.

Agora, a ânsia de acompanhar o desenrolar da história (que envolve clones humanos e experiências biológicas) vem com uma viagem ao passado, o surgimento de uma nova personagem chave e com a volta do mundo dos mortos de figuras centrais, fazendo desta uma temporada que resgata elementos fundamentais das anteriores, renascendo e resolvendo arcos que até então clamavam por esclarecimentos.

A quarta temporada já inicia ressuscitando Beth Childs (Tatiana Maslany), que vinha sendo apresentada através de flashbacks e memórias de outros. Voltamos para os momentos pré-morte de Beth, pela ótica daquela que foi a clone líder nas investigações antes do aparecimento de Sarah Manning, que vem assumir o papel central da série.

Esse retorno temporal foi uma estratégia inteligente que funcionou muito bem para a narrativa, tanto para um resgate do público, que consegue entender o porquê do suicídio (o gatilho inicial no piloto), bem como para reaver e esclarecer conceitos indispensáveis, como a Neolution, organização que comanda os experimentos com genoma humano, como dos Projetos LEDA e Castor (clones femininos e masculinos, respectivamente), que se torna central tanto na retomada ao passado, quanto nos acontecimentos presentes.

As ações do passado e do presente são trazidas intercaladas, gerando um bom aproveitamento das personagens, em especial da nova clone, MK, uma hacker desconhecida por Sarah, mas que foi figura importante no passado do clube, ajudando Beth a conseguir informações sobre Neolution, DYAD e a rede de pessoas envolvidas nessa teia, como a doutora Duncan, que aparece mais intensamente agora. O público é convidado a permanecer fiel a série pelo modo como esses elementos vão sendo trazidos e interligados nessa temporada.

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Além de MK, a ingênua clone Krystal volta como uma figura mais constante, criando no público expectativas de se e como ela vai descobrir a história que a envolve e se tornar uma sestra. E os roteiristas não a trouxeram como refúgio cômico (como na temporada anterior), colocando-a aqui como fonte e testemunha mais importante sobre o desfecho de Delphine (Evelyne Brochu), trazendo uma luz de esperança para o público cativo.

As outras sestras, Alison Hendrix e Cosima Niehaus, são bem construídas e mais bem aproveitadas. O relacionamento de Alison e Donnie (Kristian Brunn), que vem se desenvolvendo e recebendo destaque ao longo das temporadas, consegue aqui atingir um momento interessante, com um desenrolar mais maduro e sensível, sendo um dos pontos de destaque na temporada.

A atuação incansável de Tatiana Maslany se mantém como um dos trunfos da série, sendo, talvez, a mais sensível e bem desempenhada até então. Ela conseguiu, com muita destreza e sensibilidade, criar uma identidade forte e particular para cada clone, chegado agora ao ponto de que é totalmente dispensável a presença de elementos outros para o espectador identificar qual sestra está em cena, bastando a captura do olhar da atriz.

Os elementos mitológicos se mantém na narrativa, de uma maneira forte, exigindo (para uma leitura mais profunda) uma bagagem informativa daquele que assiste. A série adquire um tom que mescla o surreal, mitológico com um futurismo real, é como se quase parecesse ser de uma dimensão mítica, mas com bases que são totalmente possíveis no nosso amável mundo real e atual.

A quarta temporada não peca em praticamente nenhum ponto com a construção do enredo, cumprindo o que promete, em especial aos fãs mais fiéis. Pouco ou talvez não muito claro foi o surgimento da irmã biológica de Félix, que aparece sem muitas contextualizações. Esperemos o desenrolar dessa história na próxima (e última) temporada.

Sobre a série:

Orphan Black é uma série canadense de ficção científica que conseguiu atrair um público não tão cativo ao gênero. A trama é centrada na personagem Sarah Manning (Tatiana Maslany) que se descobre resultado de uma experiência de clonagem humana após deparar-se com o suicídio da sua clone Beth Childs. Sarah e suas irmãs Alison Hendrix, Cosima Niehaus e Helena, unidas na busca de descobrir suas origens, lidam com uma série de grupos e institutos que se revezam entre destruir, capturar e proteger as clones, e daí todo enredo vai se desenrolando. A série foi renovada para sua quinta e última temporada!

*Graduanda em Comunicação Social com habilitação em Produção em Comunicação e Cultura, na Universidade Federal da Bahia. É pesquisadora do GRIM.

Top of the Lake – Primeira Temporada

Indicada a 8 Emmys em 2013, série policial de Jane Campion aborda temas como a pedofilia e o estupro

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Por Wanderley Teixeira [1] 

Na Nova Zelândia, em um lago envolto por montanhas, uma jovem de 12 anos chamada Tui tenta o suicídio após descobrir que está grávida. Depois de ser impedida do ato, a menina desaparece e logo a polícia local começa a empreender esforços para encontrá-la e chegar ao nome do responsável pela tragédia. Assim tem início a então minissérie Top of the Lake, criada pela cineasta Jane Campion (O Piano) e pelo roteirista Gerard Lee (parceiro da mesma em seu segundo longa-metragen Sweetie) no ano de 2013.

Esse retorno de Campion a TV foi assistido pelo grande público através BBC, mas só foi disponibilizado no Brasil esse ano pelo catálogo da Netflix. Ao longo dos seus seis episódios, a trama policial de Top of the Lake apresenta ao espectador um “novelo” a ser desembaraçado pelo mesmo e pela detetive Robin, papel de Elisabeth Moss (de Mad Men), que assume como pessoal a caçada ao estuprador da adolescente. Entre os principais suspeitos está o próprio pai da garota, conhecido na região por seus vários filhos bastardos e pela sua natureza extremamente perigosa.

A descida ao inferno que representa o que está no entorno de temas sérios e caros a série, como a pedofilia e o estupro, confere a Top of the Lake uma atmosfera pesada de cansaço e exaustão, o que, somado ao drama pessoal da policial australiana vivida por Moss, torna a história uma espécie de desencanto com o próprio mundo e com o ser humano. Ainda que aqui e ali tenhamos um vislumbre de esperança depositado no caráter de algumas personagens e no destino que eles vão trilhar após o sexto e último episódio, a perspectiva majoritária deixada por Campion não é das melhores e funciona como crítica.

O espectador é apresentado a um universo misógino que, a todo momento, interpela a detetive Robin no povoado marcado por um histórico severo de crimes desse tipo praticado por grupos de homens asquerosos. Robin também se depara com o machismo no próprio departamento de polícia, afinal, alguns dos seus colegas tratam com desdém casos como os de Tui e não dão muita abertura aos esforços empreendidos pela protagonista. Os personagens centrais da trama são marcados por laços de parentesco que entregam suas origens em relações abusivas, parte desses sujeitos possuem meios-irmãos e alguns deles têm como imprecisa a identidade do pai.

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Assim, em Top of the Lake, figuras como Robin parecem incomodar esse establishment do machismo, cutucam a ferida no âmago da questão. Um grupo de mulheres liderado pela misteriosa GT de Holly Hunter também parece cumprir essa função e é ameaçado verbal e fisicamente pelo principal suspeito da gravidez de Tui,  inconformado pela ocupação empreendida por elas em uma propriedade que sempre fora objeto de sua cobiça.

O intento de Top of the Lake é coerente com a própria trajetória de Campion como cineasta, afinal a diretora sempre apresentou como preocupação a ambiência das suas personagens femininas em espaços marcados por abusos e ações arbitrárias de homens, basta lembrarmos da via crucis percorrida por Isabel Archer, personagem de Nicole Kidman, durante o seu casamento com o vigarista Gilbert Osmond de John Malkovich em Retratos de uma Mulher, ou mesmo da punição da Ada de Holly Hunter em O Piano. Em Top of the Lake, as coisas não são diferentes e tudo ocorre de uma forma que somente as personagens femininas conseguem estar na mesma voltagem de alerta e pavor, seja nos insistentes esforços de investigação de Robin, seja no isolamento do acampamento de GT.

A série é marcada por episódios dirigidos por Campion e pelo novato Garth Davis, que estreou esse ano na direção de um longa-metragem com Lion. Em todos, as ações possuem um  tempo próprio que dão lugar a naturalidade da dinâmica das suas personagens e à contemplação dos silêncios e da beleza das paisagens do lago, algo que, na verdade, destoa de toda a miséria e secura humana presente no local.

Os episódios não possuem reviravoltas barulhentas e ganchos a cada milésimo de segundos. Na verdade, os twists de Top of the Lake são bastante previsíveis. Contudo, fica claro desde o primeiro momento que o enfoque de Campion e seus parceiros não é no desenlace da trama investigativa propriamente dita, o que capta a atenção do espectador são todas as temáticas delicadamente exploradas nos episódios. Também é interessante como o tom da série faz com que a gente consiga ter mais intimidade com Robin, personagem defendida por Elisabeth Moss com delicadeza e integridade irretocáveis.

Em 2017, Top of the Lake ganhará uma nova temporada com o retorno da sua protagonista e a adição de Gwendoline Christie (Game of Thrones) e Nicole Kidman ao elenco principal, o que a transformará em uma série. O desfecho em aberto desses seis episódios de 2013, contudo, são plenamente satisfatórios. Todas as mulheres da história trazem consigo uma cicatriz que lhes dá a fibra e a sensibilidade necessárias para lidar com toda a covardia a sua volta. Difícil saber quais são os novos rumos que Campion pretende dar a história da detetive Robin, a certeza é que essa trama de 2013, apesar de ter um ritmo característico que ocasionalmente depõe contra si, possui muita veemência e dignidade no olhar que lança para as questões que traz à tona.

[1] Doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisador do GRIM.

Visita de Tunico Amâncio (UFF)

A visita e bate-papo com do professor Tunico Amancio foi estimulante, refinada e divertida. Tunico em um longo trabalho de pesquisa sobre Representação da identidade cultural brasileira no cinema estrangeiro de ficção. Tunico discutiu também sobre alguns filmes estrangeiros de ficção que se passam na Bahia. Participação dos alunos dos grupos Grim, Pepa, Nanook e Atvê. img_1004-1gimg_1006