Um Corpo que Sobe (por José Geraldo Couto)

Um Corpo que Cai destrona Cidadão Kane como melhor filme de todos os tempos segundo votação da prestigiada revista inglesa Sight and Sound. Abaixo, texto super pertinente do crítico José Geraldo Couto sobre o “caso”. (Fonte: http://blogdoims.uol.com.br/ims/um-corpo-que-sobe/)

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Um corpo que sobe…

…e um Kane que cai.

Causou certo alvoroço entre críticos e cinéfilos a troca de posições no topo do ranking mais prestigioso e representativo do cinema, o da revista Sight and Sound, editada pelo British Film Institute.

A enquete, realizada a cada dez anos desde 1952, destronou Cidadão Kane (Orson Welles, 1941), o campeão absoluto desde 1962, e colocou em seu lugar Um corpo que cai, ou Vertigo (Alfred Hitchcock, 1958). Nesta edição do ranking, que será publicada na Sight and Sound de setembro, foram consultados 846 críticos, programadores, estudiosos e distribuidores de todo o mundo. Veja aqui a lista dos cinquenta mais votados.

A pergunta que todos estão se fazendo – “Por que Kane caiu?” – me parece menos importante do que duas outras: 1. Por que ele ficou meio século no topo? 2. Por que justamente Vertigo o destronou?

Não basta responder, em cada um dos casos: “Porque se trata de uma obra-prima”. Afinal, o cinema produziu uma porção de obras-primas ao longo do seu primeiro século de existência, e só três, até agora, ocuparam o primeiro lugar dessa lista (Ladrões de bicicletas foi o campeão da primeira edição, de 1952).

O longo reinado de Kane se deve, em primeiro lugar, evidentemente, a suas imensas virtudes, em especial a suas muitas inovações narrativas (estrutura descontínua, feita de flashbacks e flashforwards, inserção de falsos documentários, alternância entre longos planos-sequência e montagem vertiginosa de fragmentos), técnicas (o uso reiterado do foco profundo, permitindo que vários planos convivam no mesmo quadro, o recurso à sobreimpressão dentro de um mesmo plano contínuo, os efeitos sonoros) e estilísticas (os abusados plongées contre-plongées, os enquadramentos oblíquos, o uso quase expressionista da contraluz e das sombras).

Por toda essa exuberância criativa, que de algum modo sintetizava, contradizia e superava todo o cinema clássico que veio antes dele, Cidadão Kane foi, nas palavras de Truffaut, o filme que mais inspirou vocações de cineastas pelo mundo afora. Neste clipe, alguns cineastas, atores e críticos louvam as virtudes da obra, entre cenas marcantes.

Mas desconfio que, a par desse motivo, há também um certo fator inercial a justificar a longa permanência do filme no alto do pódio. Durante meio século, foi como se a disputa fosse apenas pelas outras colocações, pois o primeiro lugar era cativo. Há uma certa segurança, um certo conforto, em reforçar o cânone, como se isso nos garantisse que o sol seguirá nascendo todos os dias.

O caráter revolucionário de Kane talvez tenha se diluído ao longo das décadas, na percepção das gerações mais novas de críticos e cinéfilos. A geração que recebeu o maior impacto está acabando. De lá para cá, as drásticas inovações do filme tornaram-se moeda corrente do bom cinema, ao mesmo tempo em que ficaram mais estridentes seus excessos estilísticos.

Desde o início houve quem não gostasse de Cidadão Kane. Ingmar Bergman, por exemplo, nunca tolerou as extravagâncias de Welles, que ele tomava por exibicionismo vazio. E é bom lembrar que, na primeira enquete da Sight and Sound, em 1952, o filme não aparece nem entre os dez mais votados. O consenso favorável se formou um pouco depois.

Jorge Luis Borges, que ainda enxergava bastante bem em 1941, escreveu uma crítica memorável no calor da hora (leia aqui), em que identificava dois argumentos no filme: um, banal, era a biografia excêntrica do protagonista; outro, “muito superior”, era “a investigação da alma secreta de um homem, através das obras que construiu, das palavras que pronunciou, dos destinos que destruiu”. O escritor argentino concluía seu artigo dizendo que Kane “não é inteligente, é genial: no sentido mais noturno e mais alemão dessa má palavra”.

Em suma, a soberania de Cidadão Kane nunca foi propriamente unânime, e ninguém disse que seria eterna.

Passemos então à segunda questão: “Por que Vertigo?”

Como já me estendi demais, serei sucinto: porque é o filme mais apaixonado e visceral de Hitchcock, aliando sua habitual competência técnica e inventividade narrativa a uma riqueza singular de observação/exploração dos desvãos do desejo e do afeto.

Hitchcock é um caso raro de artista altamente refinado no uso criativo de seus meios que, ao mesmo tempo, é capaz de entreter – e ocasionalmente comover – grandes plateias. O senão que muitos críticos – entre eles talvez o maior de todos, André Bazin – costumavam apor ao cinema hitchcockiano era sua pretensa frieza, sua manipulação engenhosa e vazia de sentido humano. O próprio Truffaut, discípulo e admirador do mestre inglês (e também de Bazin, a propósito), disse certa vez: “Jean Renoir ama o cinema e a vida; Hitchock ama só o cinema”.

Pois bem, essa é outra “verdade” que vem sendo contestada cada vez mais nas últimas décadas. Filmes como A sombra de uma dúvidaA tortura do silêncio e O homem errado, para citar alguns, são plenos de humanidade e páthosUm corpo que cai, então, é um mergulho profundo em temas como a paixão, a perda, a loucura, a culpa, o luto.

É também, talvez, o filme mais “orgânico” de Hitchcock, aquele em que tudo – da estrutura do relato aos movimentos de câmera – tem uma qualidade sinuosa, espiral, convergindo para a noção básica de vertigem que unifica e move o conjunto.

Descobri recentemente, graças à indicação da leitora e amiga Kiyoko Kohatsu, um texto interessantíssimo sobre Vertigo, publicado em 1994 na revista Positif pelo cineasta francês Chris Marker, morto no último dia 30. Marker propõe uma leitura ousada do filme de Hitchcock: a de que toda a segunda parte do filme, depois da morte de Madeleine (Kim Novak), seria uma fantasia delirante do protagonista, o detetive aposentado Scottie Ferguson (James Stewart). Aqui, uma cena-chave do filme, a primeira vez que Scottie vê Madeleine. Segundo Marker, é o momento em que ele entra irreversivelmente em pleno vórtice.

Concorde-se ou não com Marker, sua análise é brilhante e merece ser conhecida. Aqui vai o link para o texto em inglês.

Parafraseando Borges, eu diria que Vertigo é genial no sentido latino e luminoso da palavra genius, de acordo com o Houaiss: “divindade tutelar; porção espiritual de cada um; graça; inspiração, talento”. Precisa mais?

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