Crítica: Grey Gardens (1975)

ENSAIO SOBRE UM AMARGO CREPÚSCULO

No documentário Grey Gardens (1975), os irmãos Maysles desnudam sem concessões a dor do abandono e do esquecimento

André Bomfim

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 Em 1972, um escândalo irrompia nas colunas sociais da imprensa estadunidense: a tia e a prima da então primeira-dama Jacqueline Kennedy foram encontradas por inspetores da vigilância sanitária, vivendo em condições sub-humanas, numa decadente mansão na cidade de veraneio de East Hampton, NY. A outrora majestosa residência, batizada nos seus tempos áureos de Grey Gardens, estava infestada de roedores, cercada pela floresta e sem água encanada. Tão por acaso quanto os inspetores, os irmãos documentaristas Albert e David Maysles, que procuravam material para um projeto sobre a família Kennedy, também encontraram as mulheres de Grey Gardens. Só que além de um escândalo, viram ali um material humano ímpar.

Edith Ewing Bouvier Beale e Edith Bouvier Beale, mãe e filha, conhecidas respectivamente como Big Eddie e Little Eddie, gozavam de todo o prestígio de serem mulheres belíssimas e de pertencer a uma família rica e tradicional, incluindo o pleno acesso ao jet set americano da época. O que teria levado essas mulheres àquele estado de degradação moral, física e mental? A pergunta que move o espectador numa mórbida jornada exploratória é respondida nas entrelinhas das falas entre as duas Eddies e nas brechas da lúgubre mansão escrutinada pela câmera dos Maysles. Através dos diálogos crivados de farpas entre as duas, suas histórias de vida vão se delineando. Abandonada pelo marido e pelos dois filhos, a mãe encontrou na jovem Eddie seu único amparo. Esta última abriu mão de promissoras oportunidades artísticas em Nova York, assim como de promissores pretendentes, em prol dos cuidados com a mãe. Após 30 anos juntas, vivendo de uma pensão insuficiente, as duas se isolaram do mundo, fazendo da mansão seu universo particular. E ali viveram entre os escombros da velha casa e de suas próprias desilusões, acumulando mágoas e ressentimentos mútuos.

A chegada dos irmãos Maysles representou o último sopro de glória em suas trajetórias rumo ao esquecimento. Acometida por uma alopecia, Little Eddie disfarçava a falta de pelos pelo corpo com sobrancelhas desenhadas a lápis e exóticos arranjos com lenços. Com toda a sede de quem teve a glória e o esplendor usurpados no auge de sua vida, ela sorve cada minuto de filmagem em performances arrebatadoras pelo que têm de decadente e delirante. Na mais emblemática delas, vemos a mulher de meia-idade (que em uma passagem pelo espelho revela se enxergar como uma garotinha), executar passos de parada cívica, empunhando a bandeira dos Estados Unidos, tendo ao fundo a soturna escadaria do velho casarão. A velha Eddie, apesar de toda dificuldade de locomoção, disputa a atenção da câmera com a filha, num duelo que revela os esquemas de dominação de uma mãe dominadora e possessiva.

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As duas mulheres deixam suas imagens gravadas de forma indelével em nossas memórias. E nos arrebatam como anti-heroínas de um mundo onde o poder e a estirpe social falavam mais alto. Certamente, não era esse o plano das duas. Mas foi o papel que lhes coube entre o elenco estelar da família Kennedy. Com seu universo particular repleto de decadence avec elegance, as mulheres de Grey Gardens terminaram por se tornar também referência entre o público gay contemporâneo (citadas inclusive na comédia The New Normal, da NBC). Espécies de divas histriônicas, deslocadas e estranhas terminam por criar de fato, certa atmosfera queer.

Grey Gardens se tornou um documentário icônico por diversas razões. Destacamos primeiramente o estilo “cinema direto” dos irmãos Maysles, cujo aparato se resumia quase sempre a uma câmera e um gravador de som. As suas intervenções são mínimas e sua tarefa básica é ligar os equipamentos e deixar que suas excêntricas personagens se manifestem. Em segundo lugar, o jogo cruel entre realidade e ficção. Ao mesmo tempo em que a lente dos Maysles representa para as Eddies uma nova ribalta (ainda que incipiente e improvisada), desnuda sem concessões seu avançado estágio de perturbação mental e degradação física.

Para o teórico Bill Nichols, enquanto a ficção tenta suspender a incredulidade, o documentário tenta instilar a crença. Se fosse uma ficção, o transe louco das mulheres de Grey Gardens pareceria um delírio extravagante saído da mente de algum cineasta outsider. Enquanto documentário, no entanto, escancara algumas verdades que nos atingem como um soco no estômago. Entre elas, a dor do abandono e da decrepitude, a fragilidade dos nossos sonhos e uma mórbida sensação de que a vida real às vezes pode se tornar a mais triste de todas as ficções.

O filme completo e legendado está disponível no YouTube:
http://www.youtube.com/watch?v=QxsUHFTx–c

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Uma resposta em “Crítica: Grey Gardens (1975)

  1. Me deu uma angustia só de ler a sua critica. Agora vamos para o filme! Prevejo semanas de reflexões!!! lololol

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