Resenha: “Consumidores e cidadãos”, de Néstor García Canclini

livro_consumidores-cidadaosPor Letícia Moreira, Rafael Carvalho e Amenar Costa

Em “Consumidores e Cidadão”, Néstor García Canclini reúne artigos sobre as relações entre cidadania e consumo em tempos de globalização, com ênfase nos países latino-americanos. Ele vai apresentar e discutir como as mudanças no consumo, a partir do processo da globalização e as alterações culturais decorrentes (entre outras vastas consequências), alteram as possibilidades e as formas de exercer a cidadania e os modos de estabelecer as identidades.

Em uma linguagem simples e direta, o autor nos apresenta as relações entre cidadania-globalização-consumo, com exemplos empíricos de pesquisas que vêm realizando.

Os novos cidadãos da era global estão agora imersos num universo de produtos culturais cada vez mais vasto e provenientes de diversas partes do mundo. A forte referência e influência do nacional, do “típico”, vão se enfraquecendo. Há agora uma mudança nos termos e nos referenciais. A “universalização das coisas”, digamos assim, acarreta mudanças não só na forma de consumir cultura, mas também, e principalmente, no imaginário dos cidadãos, na forma como eles se reconhecem enquanto pertencentes a uma nação, a uma cultura, a uma dada realidade, uma vez que os conteúdos midiáticos influem na construção da identidade. Esse é um dado importante, pois se percebe aí que a forma de exercício da cidadania perpassa por essas transformações e construções simbólicas.

As referências se tornam cada vez menos ligadas à Nação e mais pensadas pela perspectiva da cidade, do espaço urbano. Essa reorganização da vida urbana propicia um reordenamento dos atores políticos tradicionais. Canclini destaca que é por meio do consumo que se cria um sentimento de pertencimento. Fica visível, então, como o consumo, influindo sobre nossas referências de pertencimento, afeta não somente a nossa identificação com determinados hábitos culturais. Mas ele vai além e influi também como atuamos enquanto cidadãos no(s) local(is) de que os indivíduos sentem-se parte.

A principal via de contato com essa diversidade de conteúdos e referências é, sem dúvida, os meios de comunicação de massa, com ênfase para os meios audiovisuais (cinema e TV). O acesso a esses meios foi-se alastrando, por diversos motivos, em praticamente todo o mundo. Passa-se a consumir ainda mais imagens e referências que não fazem parte do universo simbólico do “meu” território, ou da “minha nação”. Surge então, a necessidade de se reorganizar os hábitos culturais, cada vez mais dedicados às mensagens audiovisuais, que têm códigos internacionais de elaboração simbólica. Os conteúdos passam a ser cada vez mais “universais”, no sentindo de buscar agregar o maior número de público possível.

O livro explora como as visões de cidadania e de consumo podem mudar se estudadas em conjunto e também tomadas como processos culturais. Canclini vai mostrar que, ao contrário do que muitos vinham defendendo, a globalização não tende a uma homogeneização absoluta, mas há também a preservação de determinadas diferenças. Fala-se então de “direito à diferença”, num mundo em que é difícil saber o que é o “próprio”.

Nesse sentido, o autor pensa também que a globalização não necessariamente homogeneizou os gostos e costumes, pois o local e o global imbricam-se nas experiências cotidianas da vida urbana. Ele traz o termo “glocalize” para traduzir uma forma em que cultura, informação, crenças e rituais articulam características procedentes do local, do nacional e do internacional. A customização de produtos mundiais passa também por adaptações aos gostos regionais, o que reflete não só padrões globais como locais.

No entanto, Canclini observa que os consumidores passaram a pensar de forma cada vez mais transnacional, pois se há algo de simbólico no ato de consumir, é a partir disso que se constroem os signos de status. Entendendo o mercado enquanto espaço de interações socioculturas complexas, o ato de consumir significa participar de um cenário de disputas por aquilo que a sociedade produz e pelos modos de usá-lo. É assim que se formata parte da racionalidade integrativa e comunicativa de uma sociedade.

Ao refletir sobre os espaços urbanos, especialmente as grandes cidades da América Latina, Canclini percebe uma “polifonia caótica” marcada por um multiculturalismo que torna as megalópoles de difícil apreensão. O autor pensa a cidade como um cenário onde se imagina e se narra, uma vez que o passeio pelo espaço urbano é também uma operação de consumo simbólico. Mas ele questiona: como é possível narrar o multiculturalismo num ambiente desordenado como esse? À medida que cresce o consumo dos meios de comunicação dentro dos lares, há uma perda significativa do uso público de lugares urbanos emblemáticos como praças, bares e igrejas. A cidade não existe mais para os cidadãos.

Por isso, o pesquisador propõe algumas políticas culturais possíveis que deveriam ser ponderadas nesse novo contexto: a) pensar a heterogeneidade das cidades (adaptadas a cada zona, estrato econômico, grau de escolaridade, faixa etária) como algo democrático; b) levar em conta a variedade de necessidades da população já que a mesma cidade que massifica os comportamentos, oferece uma variada oferta de bens simbólicos; e c) promover a cultura tradicional vinculada às novas condições de internacionalização.

Canclini finaliza essa obra perpassando por todos os conceitos que trabalhou durante os capítulos anteriores, sempre atentando para as necessidades locais em meio a uma globalização que vem se mostrando cada vez mais heterogênea, ao ponto que são revitalizados nacionalismos, regionalismos e etnicismos.

O autor ainda admite uma modernidade que se pauta em tradições, ainda que essas tradições também se mostrem mais flexíveis ao configurar-se numa vida cotidiana que é regida por princípios capitalistas, num ordenamento negociado de estrutura de sociedade.

Referência bibliográfica: CANCLINI, Néstor García. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2006.

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2 respostas em “Resenha: “Consumidores e cidadãos”, de Néstor García Canclini

  1. Gostei da Resenha, parabéns! Estou pesquisando sobre Produção Cultural, ou seja, os desafios da cultura numa certa Comunidade do Amazonas. Engraçado que nos meus estudos há referência sobre Néstor Garcia Canclini que antes não me interessei tanto. Sobre as imbricações da globalização Canclini poderá aprimorar meus conhecimentos em seus livros…Eis um grande mestre! Obrigada pela matéria e ao mesmo tempo peço licença para partilhar.

  2. A resenha despertou em cheio o meu interesse para leitura do livro. Todos nós somos cidadãos e consumidores do século XXI: esse livro é para todos nós!

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