O videoclipe de Black Magic e o retrocesso de Little Mix

Por Katarina Castro

No dia 29 de maio foi lançado o vídeo da música Black Magic, atual single do grupo britânico Little Mix. O girlgroup foi formado no programa The X Factor UK (2011), quando Jade Thirlwall, Jesy Nelson, Leigh-Anne Pinnock e Perrie Edwards foram postas juntas para que pudessem seguir na competição. Vencedoras da edição, as garotas foram assinadas pela Columbia Records, com o selo Syco Music

Em tempos de intensas discussões feministas Little Mix, assim como outros girlgroups formados nas últimas décadas, surge como um representante do chamado girlpower, uma forma de incentivar o empoderamento feminino.

Foi criado um cenário de grande expectativa em torno de Black Magic e seu videoclipe. A atual música de trabalho traz uma divertida melodia cujas batidas nos remetem ao mesmo tempo a Girls Just Wanna Have Fun da Cyndi Lauper (1985) e ao que era feito pelas Spice Girls na década de 1990. A letra em questão fala sobre garotas apaixonadas e não correspondidas, que passariam a ter seu valor e afeto reconhecidos pelo garoto ao se utilizarem de mágica. Simples, teen, com refrão “chiclete”: embala!

Dirigido pelo canadense Director X (Julien Christian Lutz), o vídeo traz uma narrativa linear, com personagens adolescentes. Há não muito tempo, o diretor em questão já havia trabalhado com a construção do universo colegial no videoclipe de Fancy (Iggy Azalea – 2014), no qual a partir da utilização de figurinos idênticos aos das protagonistas e reprodução/releituras de cenas, temos uma cativante referência direta ao filme As Patricinhas de Beverly Hills. Entretanto, na realização audiovisual de Black Magic podemos dizer que o diretor pesou a mão na infantilização do universo e da narrativa, que traz personagens bastante caricaturadas. Um desavisado ao ver algumas cenas do videoclipe poderia até ser convencido de estar assistindo a um seriado infantojuvenil da Disney – como Zack and Cody, Hanna Montana etc. – que apesar de ter seu público cativo e enorme sucesso, destoa completamente da trajetória que vinha sendo construída por e para Little Mix.

O que nos surpreende ainda, é que esse não foi o primeiro trabalho que o Director X executou com o Little Mix: em 2013 ele dirigiu o vídeo de Little Me, cuja construção se dá pela alternância entre imagens de crianças falando sobre seus sonhos para o futuro, das quatro cantoras e de mulheres desconhecidas falando de duras experiências pessoais. Tudo isso em preto e branco, estética que contribuiu para uma impressão de sobriedade e intensidade, coerentes com a música, que fala sobre se dar voz, enquanto mulher, sobre correr atrás de objetivos e se valorizar. O vídeo apela para o sentimentalismo, mas a questão do empoderamento se faz claramente presente.

Quando observamos ainda o vídeo do single anterior de Little Mix, é que temos a irritante certeza de que a infantilização do videoclipe de Black Magic é injustificada. O vídeo de Salute (2014), apesar de ter sido realizado por outro grande nome da área, o diretor Colin Tilley, traz ainda assim elementos comuns percebidos no trabalho do Director X de 2013: a sobriedade e intensidade referidas; uma estética que, apesar de trazer cores, mantém sua paleta e luz em tons escuros, preto em sua maior parte. Essa produção funciona perfeitamente com a letra da música cujo plot é um convite para que as mulheres se unam à luta pelo empoderamento. E ao assistir o vídeo, é bem essa a vontade que temos: de sair marchando em busca do fortalecimento do nosso espaço enquanto figuras femininas. Militância à parte, é interessante visualmente e com letra e música bastante instigantes.

É confuso tentar entender essa quebra na identidade audiovisual. Não podemos atribuir a culpa disso exclusivamente ao Director X, vide seu trabalho anterior com as garotas, nem tampouco à letra da música, pois que apesar de ser claramente mais leve e rasa do que as composições realizadas anteriormente para o Little Mix, não necessariamente precisaria trazer aspectos infantis, como o clichê da garota que só se torna bonita depois de perder seu visual nerd – tirou os óculos e ajeitou o cabelo, tal qual comédia romântica – e contraditórios ao que vinha sendo pregado pelo grupo, como na cena em que vemos as protagonistas renovadas pela mágica ridicularizando uma outra garota apenas por ser um obstáculo ao seu objetivo sentimental – construção que claramente coloca por terra o estímulo à sororidade, que prega a irmandade, ao companheirismo entre as mulheres como um todo.

Se levarmos em conta que o grupo e sua gravadora possam ter tido voz criativa, podemos tirar um pouco a culpa do Director X e dos compositores ao considerarmos que talvez tenha sido um interesse das próprias garotas diminuir um pouco do peso dessa representação dita feminista e empoderadora, recuando estrategicamente de modo a se voltar propositalmente para um público mais jovem visto que, com as músicas e vídeos lançados até então não conseguiram hitar nas rádios e charts musicais fora do Reino Unido.

O videoclipe de Black Magic tem na maior parte do tempo uma bela fotografia e até certo ponto tem uma atmosfera divertida, mas por tudo já comentado podemos enxergá-lo como um passo para trás. O que poderia ter sido mais uma ferramenta para incentivar entre os espectadores o respeito pela mulher e a aderência à ideia do girlpower, acabou pecando por estimular a rivalidade entre garotas.

Atitude proposital ou não, no que se refere ao recuo estético e ideológico, o que fica é o lamento pois que, apesar de quatro talentosíssimas cantoras, o Little Mix a partir desse vídeo talvez esteja começando uma jornada que o fará perder mais a simpatia de fãs, do que conquistar novos, visto que mesmo entre os mais jovens se percebe atualmente uma grande procura por ídolos que não apenas sejam bons no que fazem, mas que de algum modo também os inspirem a se amar mais e a lutar por sua voz..

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