Crítica: BABYMETAL

 

BABYMETAL-at-HEAVY-MONTREAL

Por Danilo Bittencourt

Mesmo com tantas e divertidas repetições, a poderosa máquina chamada cultura pop japonesa ainda é capaz de oferecer grandes surpresas. Para mim, a última delas não se deu nas séries animadas (animês) nem nos quadrinhos (mangás), meios que costumo acompanhar com maior atenção, mas na música, em uma algorítmica descoberta no youtube. Os japoneses conseguiram convergir rock pesado com música pop, e, para meu sobressalto, transformaram em algo palatável. De um estranho encontro entre o heavy metal e o j-pop, temos o Babymetal.

No mundo do pop japonês, também conhecido como J-pop, que abarca uma infinidade de produções, destacam-se, dentro e fora do Japão, os chamados grupos idol. Formados por agências de talentos – a Amuse gerencia o Babymetal – estes grupos de jovens, fazem apresentações musicais, participam de programas de TV e promovem todo tipo de produto, relacionado ao grupo ou não. Algo recorrente em grupos como o AKB48 é a estética kawaii, termo em japonês para “fofo”, “bonitinho” e que já virou gíria popular no fandom de cultura pop japonesa. O kawaii é expresso nas músicas, nas coreografias e até mesmo no modo de agir dos ídolos. As apresentações são ricas em elementos infantis, graciosos, algumas vezes sensuais, mas quase sempre acompanhados de temas otimistas e românticos. A relação do kawaii com o competitivo mercado que os envolve aparece com tons de ironia na provocante música do Babymetal Onedari Daisakusen, algo como “estratégia de implorar”.

O trio formado por Sumetal, Yuimetal e Moametal faz uso de boa parte dos padrões idol enumerados acima, porém busca, como demonstram os nomes artísticos, uma interação com o rock pesado. O eficiente grupo Kami-band, que acompanha as garotas, acrescenta ao espetáculo um tipo de som familiar ao amantes do metal, com guitarras distorcidas, bateria nervosa, baixo bem marcado e virtuosos solos. Em trechos dos shows, a kami-band costuma fazer apresentações instrumentais que reforçam a genética metaleira do grupo pop. O resultado na platéia é uma inesperada mescla de bastões luminosos – recorrentes em shows pop japoneses – com as tradicionais rodas de headbangers, como são chamados os fãs de metal. Os vocais também apontam para os dois estilos. Yuimetal e Moametal fazem mais o modelo idol, sempre sorrindo e utilizando timbres infantis. Sumetal, ao contrário, canta em tons mais graves enquanto assume postura decidida, tipicamente roqueira. Nas gravações, são pontualmente acompanhadas por vocais guturais, mais uma referência ao metal.

As músicas do grupo tratam de temas que variam desde o ingenuo consumo de chocolate (Gimme Chocolate!) à conscientização quanto ao bullying (Ijime, Dame, Zettai). Fazem referência à cultura metaleira de “bater cabeça” (Head Bangya!) e também ao uso do “fator kawaii” para se obter dinheiro e doces (Onedari Daisakusen). A música Megitsune, “mulher raposa”, faz uma breve reflexão sobre o universo feminino, associando-o à figura da kitsune, a raposa, personagem recorrente no folclore japonês. Parte da melodia de Megitsune faz citação à música tradicional Sakura (“flor de cerejeira”). Babymetal conta ainda com uma chamativa identidade visual, facilmente reconhecível e sedutora para muitos.

Os recorrentes uniformes de “maid” e as coreografias aguçam a atenção do público j-pop, enquanto a marca com o nome da banda, amplamente reproduzida em telas e bandeiras, somadas às mãos chifradas – ainda que de maneira “kawaii” – seduzem o publico roqueiro. O vermelho e o negro são recorrentes e indexam uma paleta de cores sombria, porém vibrante. Boa parte do sucesso de Babymetal talvez esteja relacionado ao que teóricos como Hans Robert Jauss chamariam de distância estética, o contraste entre aquilo que se espera e aquilo que se recebe. O meu horizonte de expectativas, sistema de referências que carrego, onde quer que eu vá, inclusive em um breve passeio pelo youtube, nem sequer imaginava o que encontraria adiante. Tinha acabado de acompanhar um vídeo do Iron Maiden e fui parar em Road of Resistance do Babymetal. Foi uma grande surpresa. Para mim e para muitos outros, bastante agradável.

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