Crítica: La Dansarina

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por Danilo Bittencourt

La Dansarina é um álbum sobre o contato direto com a morte. E mais ainda, sobre a inevitabilidade da mesma. A morte, no trabalho do roteirista Lillo Parra e do desenhista Jefferson Costa, tem como pretexto a fatal epidemia da gripe espanhola, um golpe violento em uma humanidade recém ferida pela Primeira Guerra Mundial. A doença que varreu o mundo no começo do século XX, ceifando cerca de 40 milhões de vidas, nestas páginas, é representada pela bela, sedutora e mortal forma de uma dançarina hispânica. Mas La Dansarina não é um monstro, não é uma vilã; ela é o fio condutor e o fim implacável da história de vida dos personagens, cada um à sua maneira. E, de certa forma, de todos nós.

Acompanhamos o menino Petro em sua penosa jornada para enterrar a mãe recém falecida de gripe. Seus restos mortais permanecem esquecidos devido à superlotação dos cemitérios. Petro então decide a enterrar em uma capela distante, dado importante, haja visto que é recorrente na história a referência à religiosidade, cristã e afro-brasileira, quase sempre como elemento mediador entre os enfermos, o medo e a aceitação da morte. No caminho, o protagonista encontrará fragmentos linguísticos, bem registrados nos balões, daqueles que dariam forma, hoje, aos falares do povo brasileiro. O portunhol de Petro, filho de mãe espanhola, constitui, somado ao italiano, ao sotaque caipira de outros personagens e ao japonês, a variada paisagem linguística do Brasil de 1918. “Nessas terra tem gente de tudo canto do mundo. Mas se veio pará aqui… é pur que não sobrou mais nenhum lugá no mundo prá ficá”. É o que diz o barqueiro Baltazar, negro que transita entre a vida, a morte e os corpos, e que, como um bom Caronte, conhece as minucias e as motivações de cada viagem.

A construção da narrativa através das páginas se dá de maneira concisa, evitando passagens desnecessárias e fornecendo ao leitor rápidas elipses que cadenciam o ritmo das ações. Tudo parece um estranho flamenco no qual enxergamos as idas e vindas de La Dansarina. Todos perecem, ela, ao contrário, é eterna.  Ao mesmo tempo, as vinhetas proporcionam aquilo que Thierry Groensteen, teórico dos quadrinhos, chama de “entrelaçamento”: a construção de sequencias cujas coincidências gráficas proporcionam sua diferenciação em contraste com as demais. Em La Dansarina, a morte pode ser clara e ensolarada, com predominância do dourado sertanejo, salpicado de urubus famintos; ou, pode ser escura e taciturna, presente no sombrio quarto onde reside mais um cadáver, desejado pelas negras aves, em violeta e preto. La Dansarina é, sem dúvidas, um exemplo, entre outros, de que o mercado brasileiro de quadrinhos vive grande fase.

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