Top of the Lake – Primeira Temporada

Indicada a 8 Emmys em 2013, série policial de Jane Campion aborda temas como a pedofilia e o estupro

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Por Wanderley Teixeira [1] 

Na Nova Zelândia, em um lago envolto por montanhas, uma jovem de 12 anos chamada Tui tenta o suicídio após descobrir que está grávida. Depois de ser impedida do ato, a menina desaparece e logo a polícia local começa a empreender esforços para encontrá-la e chegar ao nome do responsável pela tragédia. Assim tem início a então minissérie Top of the Lake, criada pela cineasta Jane Campion (O Piano) e pelo roteirista Gerard Lee (parceiro da mesma em seu segundo longa-metragen Sweetie) no ano de 2013.

Esse retorno de Campion a TV foi assistido pelo grande público através BBC, mas só foi disponibilizado no Brasil esse ano pelo catálogo da Netflix. Ao longo dos seus seis episódios, a trama policial de Top of the Lake apresenta ao espectador um “novelo” a ser desembaraçado pelo mesmo e pela detetive Robin, papel de Elisabeth Moss (de Mad Men), que assume como pessoal a caçada ao estuprador da adolescente. Entre os principais suspeitos está o próprio pai da garota, conhecido na região por seus vários filhos bastardos e pela sua natureza extremamente perigosa.

A descida ao inferno que representa o que está no entorno de temas sérios e caros a série, como a pedofilia e o estupro, confere a Top of the Lake uma atmosfera pesada de cansaço e exaustão, o que, somado ao drama pessoal da policial australiana vivida por Moss, torna a história uma espécie de desencanto com o próprio mundo e com o ser humano. Ainda que aqui e ali tenhamos um vislumbre de esperança depositado no caráter de algumas personagens e no destino que eles vão trilhar após o sexto e último episódio, a perspectiva majoritária deixada por Campion não é das melhores e funciona como crítica.

O espectador é apresentado a um universo misógino que, a todo momento, interpela a detetive Robin no povoado marcado por um histórico severo de crimes desse tipo praticado por grupos de homens asquerosos. Robin também se depara com o machismo no próprio departamento de polícia, afinal, alguns dos seus colegas tratam com desdém casos como os de Tui e não dão muita abertura aos esforços empreendidos pela protagonista. Os personagens centrais da trama são marcados por laços de parentesco que entregam suas origens em relações abusivas, parte desses sujeitos possuem meios-irmãos e alguns deles têm como imprecisa a identidade do pai.

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Assim, em Top of the Lake, figuras como Robin parecem incomodar esse establishment do machismo, cutucam a ferida no âmago da questão. Um grupo de mulheres liderado pela misteriosa GT de Holly Hunter também parece cumprir essa função e é ameaçado verbal e fisicamente pelo principal suspeito da gravidez de Tui,  inconformado pela ocupação empreendida por elas em uma propriedade que sempre fora objeto de sua cobiça.

O intento de Top of the Lake é coerente com a própria trajetória de Campion como cineasta, afinal a diretora sempre apresentou como preocupação a ambiência das suas personagens femininas em espaços marcados por abusos e ações arbitrárias de homens, basta lembrarmos da via crucis percorrida por Isabel Archer, personagem de Nicole Kidman, durante o seu casamento com o vigarista Gilbert Osmond de John Malkovich em Retratos de uma Mulher, ou mesmo da punição da Ada de Holly Hunter em O Piano. Em Top of the Lake, as coisas não são diferentes e tudo ocorre de uma forma que somente as personagens femininas conseguem estar na mesma voltagem de alerta e pavor, seja nos insistentes esforços de investigação de Robin, seja no isolamento do acampamento de GT.

A série é marcada por episódios dirigidos por Campion e pelo novato Garth Davis, que estreou esse ano na direção de um longa-metragem com Lion. Em todos, as ações possuem um  tempo próprio que dão lugar a naturalidade da dinâmica das suas personagens e à contemplação dos silêncios e da beleza das paisagens do lago, algo que, na verdade, destoa de toda a miséria e secura humana presente no local.

Os episódios não possuem reviravoltas barulhentas e ganchos a cada milésimo de segundos. Na verdade, os twists de Top of the Lake são bastante previsíveis. Contudo, fica claro desde o primeiro momento que o enfoque de Campion e seus parceiros não é no desenlace da trama investigativa propriamente dita, o que capta a atenção do espectador são todas as temáticas delicadamente exploradas nos episódios. Também é interessante como o tom da série faz com que a gente consiga ter mais intimidade com Robin, personagem defendida por Elisabeth Moss com delicadeza e integridade irretocáveis.

Em 2017, Top of the Lake ganhará uma nova temporada com o retorno da sua protagonista e a adição de Gwendoline Christie (Game of Thrones) e Nicole Kidman ao elenco principal, o que a transformará em uma série. O desfecho em aberto desses seis episódios de 2013, contudo, são plenamente satisfatórios. Todas as mulheres da história trazem consigo uma cicatriz que lhes dá a fibra e a sensibilidade necessárias para lidar com toda a covardia a sua volta. Difícil saber quais são os novos rumos que Campion pretende dar a história da detetive Robin, a certeza é que essa trama de 2013, apesar de ter um ritmo característico que ocasionalmente depõe contra si, possui muita veemência e dignidade no olhar que lança para as questões que traz à tona.

[1] Doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisador do GRIM.

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