Crítica Collateral

Sutileza e discurso potente marcam nova minissérie britânica policial

por Enoe Lopes Pontes  

Créditos iniciais. Uma música bem animada e não diegética é tocada. Aos poucos, o espectador vê um veículo em movimento e a canção entra na diegese. Assim, começa cada um dos quatro episódios da minissérie Collateral. Escrita e criada por David Hare (As Horas), a produção se enquadra no gênero policial e é uma parceria da BBC com a Netflix. O seu enredo ganha força por trazer questões políticas e sociais importantes para o Reino Unido e para a Europa com sutileza e clima de tensão.

O start da história é o assassinato de um entregador de pizza sírio. Devido ao fato do rapaz ser um refugiado, paira no ar a dúvida se aquele foi ou não um crime de ódio e xenofobia. Através deste plot, Hare coloca na voz das personagens inquietações sobre os privilégios dos britânicos e como estes lidam com a vinda dos estrangeiros árabes. Além disso, o roteirista traz uma sensibilidade para com as relações e emoções femininas.  Juntamente com o olhar da diretora S.J. Clarkson (Jessica Jones), eles constroem uma boa dinâmica sobre a luta e os sofrimentos cotidianos do gênero.

Desde meados dos anos 1980, com Sombras do Passado, David Hare traz em seus trabalhos uma visão um tanto acertada sobre como as mulheres pensam e interagem. Collateral é o ápice desta característica do artista. As conversas entre as moças da série fluem diferentemente quando estão sozinhas. Elas se olham com um entendimento profundo, como se conversassem desta maneira.

Nestas horas, a direção e a fotografia trabalham em favor  deste diálogo silencioso, que parece ser muito relevante para Hare. Algo que mostra este cuidado da direção são as escolhas de enquadramento. Quando estas conversas mudas ocorrem, o quadro fica mais fechado – num close ou primeiríssimo plano que revela apenas a metade do rosto das intérpretes. É como se o público visse a cena por uma fresta – em um momento, o cabelo de uma das atrizes funciona como uma cortina que faz com que o foco vá diretamente para o rosto da investigadora do caso.

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Ainda nesta lógica de planos, há uma estratégia da minissérie para dar dinâmicas diferentes entre os momentos mais intimistas e os focados no crime. Enquanto no primeiro a câmera fica parada, com cortes mais curtos e com planos médios, na segunda há quadros mais longos ou sequenciais, nos quais o espectador acompanha as personagens, dando fluidez as ações narradas e deixando que assiste com a sensação de que está desvendando o mistério do crime junto com os detetives.

O movimento contínuo da câmera quase sempre está associado a detetive, Kip Glaspie (Carey Mulligan). Protagonista da história, ela é quem comada a investigação. Ela é também quem mais demonstra o sentimento de empatia e entendimento com as pessoas do mesmo gênero que o seu. Mulligan consegue passar esta sensação de entendimento da outra suavemente, com poucos gestos e olhares. Inclusive, toda sua atuação é sutil. Contudo, deixando detalhes perceptíveis que trazem complexidade para a sua Kip. Um exemplo é o sorrisinho de canto de boca que ela faz quando alguém lembra seu passado como atleta olímpica ou a sua postura corporal retilínea, com passos firmes e base plantada no chão, traços de seus dias de esportista e de seu presente como policial.

A minúcia da minissérie também aparece em detalhes de figurino que revelam transformações das personagens ou traços de suas emoções. Um bom exemplo disso é a árabe Fatima Assif (Ahd) que, aos poucos, vai deixando de lado pequenos elementos de sua cultura e ficando mais “britânica”. Essas modificações não são feitas de maneira gritante, são suaves e gradativas, deixando as figuras dramáticas ainda mais interessantes. Esta caraterística da indumentária pode fazer com que o espectador vá descobrindo estes discretos componentes impressos em Collateral, enquanto “investiga” o mistério mais evidente no enredo.

Apesar de muitas qualidades dentro da obra, ela peca em alguns momentos quando exibe diálogos expositivos e até mesmo redundantes. Algumas situações são inteligíveis de pronto, mas o texto reforça as ações com explicações repetitivas. Este recurso enfraquece algumas sutilezas – ponto forte do seriado. Quando esta profusão acontece, a qualidade da produção cai, mas nada que comprometa a sua totalidade. Collateral vale suas quatro horas de duração. Ela tem elementos técnicos bem realizados – tanto individualmente falando, como na convergência de seu conjunto – e um discurso claro, forte, que é transmitido de forma equilibrada com o tom investigativo.

 

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