“Cléo das 5 às 7” e o cinema vanguardista de Agnès Varda

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Corinne Marchand (dir.) e Agnès Varda no set de Cléo das 5 às 7

Por: Letícia Moreira

No cerne das diversas irrupções feministas nos estudos de cinema, está a reforma de matrizes teóricas e metodológicas, aplicáveis a todas as áreas de reflexão, e que transcendem a questão básica da(s) mulher(res) na sétima arte. Entre críticas e denúncias aos paradigmas epistemologicamente dominantes, um movimento interessante merece destaque. A propósito de fixar na história do cinema as mulheres profissionais cujos nomes estejam cobertos sob os mantos masculinistas, muitas pesquisadoras, críticas e ativistas, por meio de um “resgate arqueológico”*, encontram formas de recuperar suas obras e contribuições para devolver-lhes os holofotes. Assim aconteceu com Alice Guy Blaché, pioneira no cinema ficcional (dos primeiros tempos), Adélia Sampaio, no Brasil e, mais recentemente também, com Agnès Varda.

Uma das maiores vozes do cinema moderno/vanguardista francês, a diretora Agnès Varda completou 90 primaveras em maio de 2018. Com mais de 60 anos de carreira, esteve por muitos esquecida em meio aos nomes ovacionados dos colegas diretores (no masculino), ainda que tenha sido precursora do movimento da Nouvelle Vague. Sempre ligada ao feminismo e às experimentações, Varda transparece em seus filmes uma sensibilidade à realidade moderna, com seus dramas existencialistas, o ritmo das grandes cidades, tendências documentaristas para referir-se ao real. Em 2017, recebeu um Oscar honorário pelo conjunto da sua obra.

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O que mais, além da iminência da morte, (re)colocaria o sujeito em sua existência? A espera do fim, confrontada com um tempo que resta, remodela os sentidos mais escondidos. O(a) espectador(a) está à espera daquilo que lhe reserva o espetáculo. Em Cléo das 5 às 7, Varda combina a “espera espectatorial” à espera dos resultados do exame que definirá o destino da protagonista, brincando com as potências fruitivas do dispositivo cinematográfico.

Estética e narrativamente, o filme é um convite íntimo a testemunhar duas horas de drama na vida de Cléo Victoire (ou Florence, seu nome verdadeiro). Lançado em 1962, é nitidamente uma obra fundamental para compreender o espírito radical do cinema da época. Com inovações que transcendem à forma, a ficção é contada praticamente em tempo real e convoca temas como solidão, vaidade, amor e a voz potente do feminismo em seus diálogos, em uma narrativa sensível e rica.

Somos convidados à história através de um jogo de tarô. A câmera posiciona o olhar perpendicularmente à mesa de cartas, na única sequência em cores do filme, como um deus que tudo vê e tudo sabe, mas que em nada interfere na sorte da personagem. Eis aqui a revelação do enredo: a moça carrega “a” doença, com grande risco de morte. Cléo (Corinne Marchand), uma famosa cantora de rádio, rodeada de mimos e boa vida, vê então a angústia da espera pelos resultados da biópsia transformada pela certeza da revelação. Mergulhada no medo da morte, a jovem regressa ao cotidiano com um novo olhar sobre o que a cerca e um impulso de questionar sua existência.

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Em suas caminhadas pelas ruas de uma Paris moderna, tudo é audível. Dos passos mais distantes às conversas íntimas vizinhas, nada parece, na maior parte da película, escapar à protagonista. É como se tudo sempre estivesse ali, ao alcance e à espera. É no tratamento do som que o cotidiano ganha força. Em certas sequências, o silêncio total que acompanha as imagens em movimento convida à contemplação (visual) dos entornos, mas, principalmente, à consciência e sensações da personagem, por vezes acompanhado da voz de seus próprios pensamentos.

A câmera-testemunha guia as ações do cotidiano, que acontecem em tempo real. Nos caminhos de carro ou a pé, detalhes comuns da cidade entram em cena, descobertas iminentes que se tornam também protagonistas. A cada encontro com as pessoas próximas, questiona os sentimentos e intenções. “Todos os homens são egoístas”. A personagem parece dar-se conta de que as ausências de seu amante em sua rotina são indícios da ausência de amor. A curta aparição do romance no filme já sugere que a exclusiva relação com o outro não é um tema central aqui, mas parte da viagem interna da protagonista. Ela com ela.

A presença feminina (e feminista) é substancial. Desde figurantes nas ruas, são muitas mulheres na tela. Um momento ímpar é a sequência em que Cléo e Àngele (sua assistente pessoal) tomam um táxi cuja motorista é uma mulher. Três mulheres no carro e mais de três minutos de conversas sobre músicas, perigos, cidade etc, sem recorrer ao tema “homens” (o que já garante aprovação no Teste de Bechedel**). A situação se repete em outro momento, quando na carona com uma amiga, o foco do diálogo é suas vidas e a possível doença.

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O drama da mulher moderna encontra aqui uma expressão cuidadosa: a busca pela admiração e independência profissional (em um contexto de revoluções sociais) junto à preocupação em sentir-se amada, em não estar só. A recorrência de espelhos e superfícies refletoras expõem não somente a beleza física da personagem ou a sua auto análise, mas aponta uma visão geral das mulheres sobre elas mesmas.

Vivemos o drama (bastante humano) de Cléo não somente porque o roteiro nos coloca ali (com a escolha, inclusive, de indicar a hora exata na tela), mas especialmente porque o próprio dispositivo nos insere em seu íntimo. Ao ser o foco de olhares pelas pessoas nas ruas, Cléo sente a sua intimidade roubada. As pessoas, com os olhos fixos à câmera (em uma usual quebra da quarta parede), têm suas intimidades acessadas por nós (os olhares ausentes). Em sua relação com a câmera, porém, a protagonista parece consentir-nos a vigiá-la e, mais além, contar com nosso compromisso em segui-la. Essa interpelação colabora com o sentimento de aproximação e piedade.

Chegando a tempo para um curta – Há espaço para a problematização metalinguística das lentes e mediações que recorremos em nossas leituras de mundo, sabiamente metaforizada nos óculos pretos de Godard em um curta mudo que Cléo acompanha com a amiga.

Com referências ao contexto (empírico) que a conforma, como a guerra de independência da Argélia, a obra representa um espírito vanguardista histórico, como já explicitado. Ainda que seja essencialmente feminista, a questão de gênero não é definidor único para a experiência que o filme oferece. Com uma protagonista cuja história é, de fato, cercada em si mesma (e não em função de algum outro personagem), temos um retrato humano atemporal, com suas narrativas sobre vida e morte, ser e estar no mundo.

 

*STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. Campinas, SP: Papirus, 2003

** Teste de Bechdel – Criado em 1985 pela quadrinista Alison Bechdel, com ajuda de sua amiga Liz Wallace, o teste consiste, basicamente, na observação de três critérios básicos em um filme: (1) tem que ter pelo menos duas mulheres nele, que (2) conversam entre si 3) algo além de um homem. Ele consegue fornecer dados interessantes ao ilustrar a representação das personagens femininas nos filmes a partir da aprovação ou não desses filmes segundo seus critérios. Para mais, ver http://bechdeltest.com/
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