Crítica: Anomalisa

por Amanda Maria Dultra

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Encontramos conforto em achar um rosto conhecido em meio à multidão, como se pudéssemos dar fim à solidão que é própria de um espaço preenchido por desconhecidos. Michael Stone (representado por David Thewlis na versão original e interpretado por Armando Tiraboschi na brasileira) é incapaz de sentir esse alívio e, pelo olhos dele, o espectador também se torna.

Poster brasileiro do filme

Anomalisa (2015) é uma obra de animação stop-motion que se constrói no desconforto, na insegurança de viver na própria pele. Acompanhamos a viagem de negócios a Cincinatti de Michael Stone, o qual sofre da real Síndrome de Fregoli – um raro distúrbio que provoca ilusões no paciente as quais o fazem acreditar que as outras pessoa ao redor são a mesma em vários disfarces. Não à toa, os diretores Charlie Kaufman e Duke Johnson modelaram quase todos os personagens a partir da mesma face e utilizaram a voz de Tom Noonan (Wendel Bezerra aqui) para para todos os “figurantes”.

Aeroporto de Cincinatti, Ohio (Crédito: Paramount Animation)

Pelo ponto de vista de Michael, a existência é solitária e somente ele é real. Nem sua família próxima escapa dessa condição de alienígena, completos estranhos em seu mundo interno. É uma agonia recheada de silêncios desconfortáveis e de desassociação, sem esperança de algum fim. Contudo, quase que como um milagre, outro alguém surge na sua dimensão: Lisa Hesselman (Jennifer Jason Leigh no original, Angélica Santos na versão nacional), primeira voz que ele ouve em não se sabe quanto tempo. Como se as engrenagens da vida funcionassem direito finalmente, Michael então se esgota, extravasa na pura existência da anomalia de seu distúrbio, sua Anomalisa.

Michael à procura de Lisa após ouvir sua voz (Crédito: Paramount Animation)

O roteiro, também desenvolvido por Charlie Kaufman, havia originalmente sido uma áudio-peça lançada em 2005 (ano que o filme se passa) e realizada pelos mesmos intérpretes. No início, Kaufman opôs-se à ideia de adaptar o script para o cinema, não visualizando a narrativa em outros moldes. Segundo ele, o roteiro foi reinventado quando adaptado para as telas, porém, de acordo com o The Guardian, é praticamente a mesma coisa.

Anomalisa é uma obra de arte sensível, com diálogos críveis e deveras reais. É notável na película uma sensação de propósito, tudo – desde cenários até cores e sons – tem uma razão de ser para construir um indivíduo frágil e cansado e levantar temas referentes à natureza humana. Sua atmosfera melancólica e entorpecida (e, em dados momentos, eufórica) acompanha com maestria o estado mental de seu protagonista perturbado. Mais do que isso, embora retrate com empatia a personalidade complexa de Michael, não desculpa os atos errados que ele comete. Como nós, espectadores, ele só está lidando com o que conhece. E se só você existisse no seu mundo?

Ficha Técnica:

Diretores: Charlie Kaufman e Duke Johnson

Roteiro: Charlie Kaufman

Distribuição: Paramount

Duração: 1h30m

País: EUA

Ano: 2015

Atores: David Thewlis, Jennifer Jason Leigh, e Tom Noonan

Dubladores: Armando Tiraboschi (Michael Stone); Angélica Santos (Lisa Hesselman); Wendel Bezerra (Todo mundo)

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