Crítica: Lazzaro

por Murilo Nogueira dos Anjos

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Lazzaro é um jovem morador de uma comunidade rural, localizada no interior da Itália, de nome Inviolata. Prestativo com todos e com um desempenho notável nas tarefas ligadas à plantação de tabaco, ele expressa as condições de exploração humana e do trabalhador, como observa a marquesa Alfonsina de Luna, personagem de Nicoletta Braschi (a Dora, de A vida é Bela): “Eu tiro proveito deles e eles tiram proveito daquele pobre coitado”. Assim, o roteiro da diretora Alice Rohrwacher, vencedor no festival de Cannes, retrata a subserviência ligada às relações humanas e ao trabalho. A história em que a diretora se baseou para escrever o roteiro aconteceu nos anos 1990, onde em uma pequena propriedade, uma fazendeira aproveitava-se do isolamento da região para explorar seus moradores, em regime de semiescravidão. O fato chamou a atenção de Alice, que se empreendeu em escrever uma trama com correlações históricas e atuais.

Dificilmente reconheceríamos a modernidade do primeiro momento do filme, a não ser pelo uso de alguns elementos, como o celular usado por alguns personagens, pois Lazzaro Felice se caracteriza por uma temporalidade incerta em seu início, que posteriormente se transfigura, demonstrando como é estreito o vínculo entre as primeiras situações vivenciadas, que se assemelham àquelas presentes nos sistemas feudais e, as condições atuais de uma lógica do capital, encontradas na segunda parte, onde os moradores descobrem sua situação e se mudam para a cidade, vivendo à margem nesse ambiente.

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A narrativa acaba possuindo uma dimensão maior ao investir no caráter do seu protagonista, sendo essa temática da bondade um outro ponto de destaque do filme. Lazzaro é puro, bondoso e generoso, como pode ser visto através do seu olhar ou da sua forma angelical, destacado pelos enquadramentos e pela caracterização do personagem, assim como pela cativante interpretação de Adriano Tardiolo. Seu olhar é inocente e se choca com a realidade à sua volta. O protagonista é ao mesmo tempo frágil pela sua ingenuidade e condescendência e forte por sua natureza, algo que parece existir dentro de cada um. Essa dualidade adiciona a empatia e compaixão para com o personagem frente à todas as circunstâncias, ora mais afetivas ora mais dolorosas.

O nome do protagonista faz referência ao personagem bíblico que é ressuscitado por Jesus, sendo este signo relembrado como uma forma de renascimento de Lazzaro em um segundo momento do filme, criando um salto temporal na narrativa, em que o passado se aproxima do futuro, já parecendo que este o era em potencial, pois a partir daí percebemos inúmeras semelhanças entre o espaço rural e urbano em suas conjunturas, de onde saem percepções sobre como as condições passadas se reproduzem em novas configurações.

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As alusões religiosas e sobrenaturais adentram a trama, por vezes com um olhar crítico, onde é possível ver a educação religiosa como instrumento de controle ou quando os moradores são negligenciados pelos representantes da Igreja, que passam por ali, mas nada o fazem diante do conhecimento da situação. Lazzaro, no passado e no presente, é equivalente a um santo, que busca tão somente praticar o bem e a generosidade, porém sua personalidade benévola parece não pertencer a nenhuma ordem, sendo assim mais existencialista do que divina.

Flertando com o transcendental ao se utilizar do realismo fantástico em vários momentos, a obra, por meio dessa junção entre realidade e fantasia, passado e presente e do nítido contraste entre bondade e exploração, consegue ser uma interessante parábola sobre o ser e estar no mundo em conjunto, com suas dinâmicas moldadas pelo meio e por suas estruturas, onde um único ser que não pertence a esse modelo e que busca tão somente a existência e a bondade, expõe a difícil vivência humana com suas imanentes e condicionais falhas.

Ficha Técnica

Diretora: Alice Rohrwacher

Roteiro: Alice Rohrwacher

Duração: 02h08m

País: Itália

Ano de lançamento: 2018

Elenco: Adriano Tardiolo, Alba Rohrwacher , Luca Chikovani , Tommaso Ragno , Sergi López e Nicoletta Braschi.

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