Crítica: Dead to Me

por Enoe Lopes Pontes

A primeira coisa notável em Dead to me, nova série da Netflix, é seu título. É curioso perceber que a cada episódio a frase vai ganhando novos sentidos e direcionando a mente do espectador para a tentativa de ir desvendando os mistérios e as razões das tensões entre certas personagens. O nome em português, Disque Amiga para Matar, está bem relacionado com a obra. No entanto, ele traz menos complexidade para a interpretação da história e entrega muito do que ela será, em alguma medida.

O seriado é um suspense, com pitadas de humor sombrio, que consegue ir revelando cuidadosamente os detalhes sobre as personalidades das personagens e quem elas realmente são. Criado por Liza Feldeman (2 Broke Girls), a produção é estrelada por dois nomes relevantes dentro do universo de narrativas seriadas televisivas: Christina Applegate (Um Amor de Família), que vive Jen, uma mulher que perdeu o seu marido, pois ele foi atropelado e deixado sem socorros; e, Linda Cardellini (Freaks and Geeks) que é Judy, uma moça que possui problemas com seu ex-noivo e tenta se recuperar do luto. Pelo menos, esta é a premissa da narrativa.

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Para a criação de atmosfera, o diretor de fotografia Daniel Moder (Olhos da Justiça), juntamente com as diretoras de arte Amelia Brooke (Stuck in the Middle) e Jaclyn Hauser (Silicon Valley) dividem as cores e as temperaturas impressas na tela. Enquanto no presente há a predominância do marrom, amarelo e branco, nos flashbacks – ou em momentos que remetem ao passado – há um azul esverdeado mais forte. A escolha soa como uma busca da criação de um paralelo entre o outrora em que Jen e Judy não se conheciam e passavam por momentos muito difíceis, tristes e assustadores, com este novo start que tem pinceladas de esperança e expectativas, mas que os conflitos parecem queimar suas vidas, por isso as paletas mais quentes.

Essa criação também aparece estampada nas atuações de Applegate e Cardellini. De maneiras distintas – talvez opostas, devido ao fato de Jen ser mais sisuda e amarga e Judy mais doce – as duas escondem seus sentimentos e possuem momentos de explosão e revelação das emoções que procuram não transparecer. Isto, porque não o podem fazer. Ambas têm segredos e acabam evidenciando lentamente a totalidade de suas personalidades. Há, na interpretação dos papéis e no que está escrito no texto que dizem, uma complexidade presente nelas, ao ponto de elementos que determinam quem é quem estarem, pontualmente, na outra. Assim, a identificação e o entendimento profundo entre a dupla é sentido constantemente.

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O roteiro também é bem sucedido na forma como mostra os homens da trama. Sem maniqueísmos, o enredo vai trazendo a discussão sobre a impunidade que figuras masculinas recebem da sociedade e como eles podem ser algozes “disfarçados” de pessoas cotidianas. Este fator é trazido de forma sutil e muito dos créditos deve-se a atuação de James Marsden (Westworld) que mescla o seu carisma e um ar de galã, com frases pesadas presentes no script.

O equilíbrio do peso durante as sequências também é fruto da utilização da música e de sons. Momentos de raiva, por exemplo, são embalados por heavy metal intenso. Situações irônicas vêm com um jazz, anos 1950/1960, fomentando o clima desejado. As lembranças de momentos assustadores para Judy não possuem canções, somente ruídos e a voz de seu companheiro, que dão destaque para o terror vivido por ela.

Ainda que, no geral, o material seja bom, Dead to Me peca quando traz alguns diálogos expositivos demais. Esta característica aparece, principalmente, nos episódios iniciais. A sensação é a de que Feldman e seus colegas de escrita subestimaram quem iria assistir o conteúdo deles e procuraram explicar demasiadamente, quase didaticamente, o que ocorreu anteriormente nas vidas dos indivíduos em cena. Apesar disso, a qualidade da sua totalidade não é comprometida e tem-se um bom thriller, no final das contas. Daqueles que a maratona acaba sendo feita em um dia apenas!

 

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