Crítica: Assunto de Família

Por Murilo Nogueira dos Anjos

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Na primeira cena de Assunto de Família, do diretor Hirokazu Koreeda, observamos uma ação controversa. Osamu (Lily Franky) e Shota (Jyo Kairi), pai e filho, realizam um furto em um supermercado de forma muito eficaz. Ao chegarem em casa com os produtos extraviados, os outros entes familiares mexem e perguntam sobre os objetos roubados, com uma certa naturalidade, em que percebe-se, o quão comum esse ato é para eles.

Cada membro da família subsiste de uma forma diferente. Hatsue (Kiki Kirin), a matriarca, vive da pensão e de auxílios regulares do filho que vive em outra casa. Osamu, para além dos pequenos delitos, trabalha na construção civil e é casado com Nobuyo (Sakura Andô), funcionária de uma lavanderia. Já Aki (Mayu Matsuoka), a irmã mais nova, se apresenta regularmente de forma erótica em uma cabine.

Algo muito perceptível no seio familiar desta família é a convivência afetuosa e fraterna entre eles, que nos apela à uma compaixão por esses personagens, ao mesmo tempo em que nos coloca em uma situação de ambiguidade moral, pois esses sentimentos se contrapõem às falhas morais demonstradas por eles ao longo da obra. Essa ambivalência ganha força quando Osamu e Shota se deparam com Yuri, uma pequena criança desamparada em uma casa abandonada na vizinhança. Após um tempo com a criança, a família decide ficar com a jovem, percebendo o ambiente hostil em que ela vive. Tal ato se configura como um rapto, porém, a afeição da garota pela acolhida deles não gera dúvida na família de que a permanência dela na casa seja a melhor decisão a se tomar.

 

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O refúgio da menina junto a família vai reafirmar a existência de uma afetividade vívida, sendo possível enxergar, nessa relação, as duas acepções que a palavra familiar tem. Por um lado, há algo íntimo, essencial, reforçado pelo uso de planos com enquadramentos próximos, que amplificam as interpretações singulares do elenco, gerando uma identificação com aqueles personagens. De outro modo, os percebemos, aparentemente, como uma família consonante, algo que o roteiro, também realizado por Koreeda, vai tratar de revelar sob uma imprevista ótica.

A obra traz a pequena Yuri como detentora de uma inocência pueril que encanta a todos. Como contraste a esse bem-estar causado por essa chegada, não demora muito tempo para que ela seja utilizada, assim como Shota, nos pequenos delitos em que este participa, o que eleva o nosso desconforto frente a precariedade moral dos membros do clã, no qual destaca-se, como ponto importante para o desfecho do filme, as tensões entre as virtudes da menina e o ciclo vicioso presente no meio em que ela vive atualmente.

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Assim, o vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2018, consegue ao mesmo tempo tratar sobre questões econômicas que atravessam os sujeitos e suas relações, onde estes acabam se unindo por conveniência ou apoio mútuo, bem como mostra, de forma minuciosa, os detalhes dos laços afetivos de um âmbito familiar. Uma cena que exemplifica bem essa preocupação com o outro surge quando Hatsue, a avó da família, reconhece o estado de espírito da neta ao tocar os pés desta. São nuances como esta que potencializam a obra de Koreeda, com sua narrativa humanista, de forte cunho social, e com sutilezas que progridem pouco a pouco para uma parte final surpreendente.

Ficha Técnica:

Diretor: Hirokazu Koreeda

Roteiro: Hirokazu Koreeda

Duração: 02h01m

País: Japão

Ano de lançamento: 2018

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