Crítica: Minha Vida de Abobrinha

por Amanda Maria Dultra

Você já se perguntou o que de imaterial herdamos de nossa criação? O que está escondido sob a nossa pele, esquecido entre camadas de traumas que ultrapassamos? Uma vez adultos, nós perdoamos as circunstâncias pois sobrevivemos. Tudo está no passado e não temos que pensar de novo até a consulta da semana que vem com o psiquiatra. Mas quando somos crianças e não entendemos essa herança?

Courgette sentado sozinho no quarto (Crédito: Gébéka Films)

Ma vie de Courgette (Minha Vida de Abobrinha em Português, 2016) joga luz na percepção infantil sobre o abuso parental e como esse afeta nosso discernimento do mundo. Baseado no romance “Autobiographie d’une Courgette” de Gilles Paris, o filme franco-helvético conta a história do menino de nove anos Icare – ou Courgette, como ele prefere ser chamado, o qual, após um acidente com sua mãe, é relocado ao orfanato Les Fontaines.

Cartaz brasileiro do filme

Courgette é retraído, vulnerável, e inseguro, resultado de sabe-se-lá-quanto-tempo de agressões. Seu mundo descolorido é composto por latas de cervejas, promessas de dias melhores, e uma janela pequena para o exterior. Quando ele é retirado desse lugar precário para um ambiente onde ele teria o acompanhamento necessário para prosperar, a melhoria não é imediata. É um processo lento e tortuoso que envolve também o resto do elenco.

O filme, realizado inteiramente por animação em stop-motion, é marcado pelo contraste entre os jovens personagens e as situações desconfortáveis e adultas pelas quais eles passam. Todos têm uma história para contar, e a direção de Claude Barras acentua os detalhes mais pungentes com maestria pela composição colorida das crianças em objeção às vozes francas que mencionam com confusão os abusos sofridos no passado.

Todas as crianças de Les Fontaines (Crédito: Gébéka Films)

A trilha sonora acompanha com sutileza a narrativa, complementando a carga emocional sem atingir a pieguice. Os diálogos são muito verossímeis, aproximando-se bastante a como uma criança se expressa, além de serem realizados por excelentes intérpretes, com destaque ao ator principal, Gaspard Schlatter, por sua representação muitíssimo convincente. A narrativa não precisa explicar seus acontecimentos, provendo uma construção de mundo convincente bem-estabelecida por trechos de conversas e pelo arranjo competente das cenas.

Minha Vida de Abobrinha é uma observação sincera dos diferentes tipos de criações e que efeitos se desdobram nas constituições das crianças. Terminando numa nota positiva, porém, a obra nos lembra que não precisamos nos prender a essas ausências passadas, pois, afinal, podemos continuar crescendo.

Ficha Técnica:

Diretores: Claude Barras

Roteiro: Claude Barras/Gilles Paris (autor do livro)

Adaptação: Autobiographie d’une Courgette

Produção: Rita Productions, Blue Spirit Productions, Gébéka Films, KNM

Duração:1h05m

Países: França e Suíça

Ano: 2016 

Intérpretes principais: Gaspard Schlatter, Sixtine Murat, Paulin Jaccound, e Michel Vuillermoz

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Crítica: Anomalisa

por Amanda Maria Dultra

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Encontramos conforto em achar um rosto conhecido em meio à multidão, como se pudéssemos dar fim à solidão que é própria de um espaço preenchido por desconhecidos. Michael Stone (representado por David Thewlis na versão original e interpretado por Armando Tiraboschi na brasileira) é incapaz de sentir esse alívio e, pelo olhos dele, o espectador também se torna.

Poster brasileiro do filme

Anomalisa (2015) é uma obra de animação stop-motion que se constrói no desconforto, na insegurança de viver na própria pele. Acompanhamos a viagem de negócios a Cincinatti de Michael Stone, o qual sofre da real Síndrome de Fregoli – um raro distúrbio que provoca ilusões no paciente as quais o fazem acreditar que as outras pessoa ao redor são a mesma em vários disfarces. Não à toa, os diretores Charlie Kaufman e Duke Johnson modelaram quase todos os personagens a partir da mesma face e utilizaram a voz de Tom Noonan (Wendel Bezerra aqui) para para todos os “figurantes”.

Aeroporto de Cincinatti, Ohio (Crédito: Paramount Animation)

Pelo ponto de vista de Michael, a existência é solitária e somente ele é real. Nem sua família próxima escapa dessa condição de alienígena, completos estranhos em seu mundo interno. É uma agonia recheada de silêncios desconfortáveis e de desassociação, sem esperança de algum fim. Contudo, quase que como um milagre, outro alguém surge na sua dimensão: Lisa Hesselman (Jennifer Jason Leigh no original, Angélica Santos na versão nacional), primeira voz que ele ouve em não se sabe quanto tempo. Como se as engrenagens da vida funcionassem direito finalmente, Michael então se esgota, extravasa na pura existência da anomalia de seu distúrbio, sua Anomalisa.

Michael à procura de Lisa após ouvir sua voz (Crédito: Paramount Animation)

O roteiro, também desenvolvido por Charlie Kaufman, havia originalmente sido uma áudio-peça lançada em 2005 (ano que o filme se passa) e realizada pelos mesmos intérpretes. No início, Kaufman opôs-se à ideia de adaptar o script para o cinema, não visualizando a narrativa em outros moldes. Segundo ele, o roteiro foi reinventado quando adaptado para as telas, porém, de acordo com o The Guardian, é praticamente a mesma coisa.

Anomalisa é uma obra de arte sensível, com diálogos críveis e deveras reais. É notável na película uma sensação de propósito, tudo – desde cenários até cores e sons – tem uma razão de ser para construir um indivíduo frágil e cansado e levantar temas referentes à natureza humana. Sua atmosfera melancólica e entorpecida (e, em dados momentos, eufórica) acompanha com maestria o estado mental de seu protagonista perturbado. Mais do que isso, embora retrate com empatia a personalidade complexa de Michael, não desculpa os atos errados que ele comete. Como nós, espectadores, ele só está lidando com o que conhece. E se só você existisse no seu mundo?

Ficha Técnica:

Diretores: Charlie Kaufman e Duke Johnson

Roteiro: Charlie Kaufman

Distribuição: Paramount

Duração: 1h30m

País: EUA

Ano: 2015

Atores: David Thewlis, Jennifer Jason Leigh, e Tom Noonan

Dubladores: Armando Tiraboschi (Michael Stone); Angélica Santos (Lisa Hesselman); Wendel Bezerra (Todo mundo)