Crítica: Assunto de Família

Por Murilo Nogueira dos Anjos

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Na primeira cena de Assunto de Família, do diretor Hirokazu Koreeda, observamos uma ação controversa. Osamu (Lily Franky) e Shota (Jyo Kairi), pai e filho, realizam um furto em um supermercado de forma muito eficaz. Ao chegarem em casa com os produtos extraviados, os outros entes familiares mexem e perguntam sobre os objetos roubados, com uma certa naturalidade, em que percebe-se, o quão comum esse ato é para eles.

Cada membro da família subsiste de uma forma diferente. Hatsue (Kiki Kirin), a matriarca, vive da pensão e de auxílios regulares do filho que vive em outra casa. Osamu, para além dos pequenos delitos, trabalha na construção civil e é casado com Nobuyo (Sakura Andô), funcionária de uma lavanderia. Já Aki (Mayu Matsuoka), a irmã mais nova, se apresenta regularmente de forma erótica em uma cabine.

Algo muito perceptível no seio familiar desta família é a convivência afetuosa e fraterna entre eles, que nos apela à uma compaixão por esses personagens, ao mesmo tempo em que nos coloca em uma situação de ambiguidade moral, pois esses sentimentos se contrapõem às falhas morais demonstradas por eles ao longo da obra. Essa ambivalência ganha força quando Osamu e Shota se deparam com Yuri, uma pequena criança desamparada em uma casa abandonada na vizinhança. Após um tempo com a criança, a família decide ficar com a jovem, percebendo o ambiente hostil em que ela vive. Tal ato se configura como um rapto, porém, a afeição da garota pela acolhida deles não gera dúvida na família de que a permanência dela na casa seja a melhor decisão a se tomar.

 

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O refúgio da menina junto a família vai reafirmar a existência de uma afetividade vívida, sendo possível enxergar, nessa relação, as duas acepções que a palavra familiar tem. Por um lado, há algo íntimo, essencial, reforçado pelo uso de planos com enquadramentos próximos, que amplificam as interpretações singulares do elenco, gerando uma identificação com aqueles personagens. De outro modo, os percebemos, aparentemente, como uma família consonante, algo que o roteiro, também realizado por Koreeda, vai tratar de revelar sob uma imprevista ótica.

A obra traz a pequena Yuri como detentora de uma inocência pueril que encanta a todos. Como contraste a esse bem-estar causado por essa chegada, não demora muito tempo para que ela seja utilizada, assim como Shota, nos pequenos delitos em que este participa, o que eleva o nosso desconforto frente a precariedade moral dos membros do clã, no qual destaca-se, como ponto importante para o desfecho do filme, as tensões entre as virtudes da menina e o ciclo vicioso presente no meio em que ela vive atualmente.

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Assim, o vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2018, consegue ao mesmo tempo tratar sobre questões econômicas que atravessam os sujeitos e suas relações, onde estes acabam se unindo por conveniência ou apoio mútuo, bem como mostra, de forma minuciosa, os detalhes dos laços afetivos de um âmbito familiar. Uma cena que exemplifica bem essa preocupação com o outro surge quando Hatsue, a avó da família, reconhece o estado de espírito da neta ao tocar os pés desta. São nuances como esta que potencializam a obra de Koreeda, com sua narrativa humanista, de forte cunho social, e com sutilezas que progridem pouco a pouco para uma parte final surpreendente.

Ficha Técnica:

Diretor: Hirokazu Koreeda

Roteiro: Hirokazu Koreeda

Duração: 02h01m

País: Japão

Ano de lançamento: 2018

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Crítica: Fedora

por Wanderley Teixeira [1]

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Lançado no final da década de 1970, Fedora tem ecos de um dos mais importantes filmes da carreira do diretor e roteirista Billy Wilder, Crepúsculo dos Deuses. Ambos são protagonizados por estrelas decadentes de Hollywood que a todo custo tentam sustentar seus respectivos estrelatos em momentos específicos de transição do próprio cinema que a tomam como “obsoletas”. Norma Desmond (Crepúsculo dos Deuses) é a atriz do cinema mudo na era do som e Fedora (Fedora) é cria do star system numa década cujas estrelas são os diretores. Em Fedora, Wilder resgata uma antiga temática numa época diferente da sua carreira

Penúltimo longa de Wilder, Fedora traz a história de um produtor e roteirista de Hollywood (William Holden, que vivera o roteirista de Crepúsculo dos Deuses) que viaja até a Grécia para convidar uma reclusa estrela de cinema (a alemã Marthe Keller) para ser a protagonista do seu mais recente filme, uma versão contemporânea de Anna Karenina. Com um estado mental abalado, a atriz é cuidada por um staff que inclui uma secretária pessoal, um médico e uma condessa que a recomendam a recusar a proposta.

O projeto fora recusado pela Paramount, antiga casa de Wilder, por ser considerado old fashioned demais para sua época. Na ocasião, o cineasta foi pra a Europa em busca de financiamento e encontrou nos estúdios Bavaria um lugar para acolher Fedora. O Bavaria tinha sido a casa de diretores como Ingmar Bergman e agora dava um “empurrãozinho” num realizador acostumado com o esquema hollywoodiano dos grandes estúdios.

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Fedora tem, de fato, uma execução deslocada para os anos de 1970. Lançado em 1978, o filme de Wilder seguia uma cartilha de um storytelling que ia na contramão da nova Hollywood de diretores como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e Brian de Palma. Através dos seus inteligentíssimos diálogos, no seu melhor estilo, Billy Wilder dava sua resposta ao novo regime de produção cinematográfica nos EUA que colocava o improviso do diretor acima da execução no roteiro. Wilder sempre apreciou a escrita e detestava improviso dos seus atores, sempre recomendando que dissessem exatamente aquilo que estava nas páginas dos seus scripts. E, assim, Fedora é um filme de poquíssima intervenção do seu diretor, valorizando sua trama repleta de reviravoltas e segredos a serem desmascarados.

Assumidamente antiquado, Fedora tinha como norte o melodrama da sua trama soap opera plasticamente requintada com uma fotografia que se inspirava na beleza natural das ilhas gregas, trazendo um Wilder rejeitada pelos estúdios americanos e operando sob o regime da produção independente europeia, tentando se adequar nesse esquema enquanto preservava sua assinatura. Assim, Fedora surge como um material deslocado no tempo e parece funcionar sob esses termos, dialogando com o próprio estado da produção cinematográfica do seu tempo que dava adeus a uma forma específica de se fazer filmes e acenava para outra. Da mesma maneira, Wilder se despedia da sua própria audiência já que estava deixando o cinema (desiludido talvez?).

Em Fedora, o star system olha para trás, tentando sobreviver às custas de sacrifícios melancólicos da própria imagem (a protagonista se submete a um procedimento cirúrgico que dá errado), cedendo espaço para uma era comandada por “barbudos” desalinhados como diz o personagem de William Holden em dado momento. Talvez não seja o Billy Wilder de comédias como Quanto mais Quente Melhor ou Se Meu Apartamento Falasse, nem possua o vigor e o caráter de obra-prima de Crepúsculo dos Deuses, mas Fedora possui um valor histórico e uma segurança no domínio dramático que o realizador possuía como nenhum outro do seu e de qualquer outro tempo.

[1] Wanderley Teixeira é doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisador do GRIM.

 

“Cléo das 5 às 7” e o cinema vanguardista de Agnès Varda

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Corinne Marchand (dir.) e Agnès Varda no set de Cléo das 5 às 7

Por: Letícia Moreira

No cerne das diversas irrupções feministas nos estudos de cinema, está a reforma de matrizes teóricas e metodológicas, aplicáveis a todas as áreas de reflexão, e que transcendem a questão básica da(s) mulher(res) na sétima arte. Entre críticas e denúncias aos paradigmas epistemologicamente dominantes, um movimento interessante merece destaque. A propósito de fixar na história do cinema as mulheres profissionais cujos nomes estejam cobertos sob os mantos masculinistas, muitas pesquisadoras, críticas e ativistas, por meio de um “resgate arqueológico”*, encontram formas de recuperar suas obras e contribuições para devolver-lhes os holofotes. Assim aconteceu com Alice Guy Blaché, pioneira no cinema ficcional (dos primeiros tempos), Adélia Sampaio, no Brasil e, mais recentemente também, com Agnès Varda.

Uma das maiores vozes do cinema moderno/vanguardista francês, a diretora Agnès Varda completou 90 primaveras em maio de 2018. Com mais de 60 anos de carreira, esteve por muitos esquecida em meio aos nomes ovacionados dos colegas diretores (no masculino), ainda que tenha sido precursora do movimento da Nouvelle Vague. Sempre ligada ao feminismo e às experimentações, Varda transparece em seus filmes uma sensibilidade à realidade moderna, com seus dramas existencialistas, o ritmo das grandes cidades, tendências documentaristas para referir-se ao real. Em 2017, recebeu um Oscar honorário pelo conjunto da sua obra.

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O que mais, além da iminência da morte, (re)colocaria o sujeito em sua existência? A espera do fim, confrontada com um tempo que resta, remodela os sentidos mais escondidos. O(a) espectador(a) está à espera daquilo que lhe reserva o espetáculo. Em Cléo das 5 às 7, Varda combina a “espera espectatorial” à espera dos resultados do exame que definirá o destino da protagonista, brincando com as potências fruitivas do dispositivo cinematográfico.

Estética e narrativamente, o filme é um convite íntimo a testemunhar duas horas de drama na vida de Cléo Victoire (ou Florence, seu nome verdadeiro). Lançado em 1962, é nitidamente uma obra fundamental para compreender o espírito radical do cinema da época. Com inovações que transcendem à forma, a ficção é contada praticamente em tempo real e convoca temas como solidão, vaidade, amor e a voz potente do feminismo em seus diálogos, em uma narrativa sensível e rica.

Somos convidados à história através de um jogo de tarô. A câmera posiciona o olhar perpendicularmente à mesa de cartas, na única sequência em cores do filme, como um deus que tudo vê e tudo sabe, mas que em nada interfere na sorte da personagem. Eis aqui a revelação do enredo: a moça carrega “a” doença, com grande risco de morte. Cléo (Corinne Marchand), uma famosa cantora de rádio, rodeada de mimos e boa vida, vê então a angústia da espera pelos resultados da biópsia transformada pela certeza da revelação. Mergulhada no medo da morte, a jovem regressa ao cotidiano com um novo olhar sobre o que a cerca e um impulso de questionar sua existência.

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Em suas caminhadas pelas ruas de uma Paris moderna, tudo é audível. Dos passos mais distantes às conversas íntimas vizinhas, nada parece, na maior parte da película, escapar à protagonista. É como se tudo sempre estivesse ali, ao alcance e à espera. É no tratamento do som que o cotidiano ganha força. Em certas sequências, o silêncio total que acompanha as imagens em movimento convida à contemplação (visual) dos entornos, mas, principalmente, à consciência e sensações da personagem, por vezes acompanhado da voz de seus próprios pensamentos.

A câmera-testemunha guia as ações do cotidiano, que acontecem em tempo real. Nos caminhos de carro ou a pé, detalhes comuns da cidade entram em cena, descobertas iminentes que se tornam também protagonistas. A cada encontro com as pessoas próximas, questiona os sentimentos e intenções. “Todos os homens são egoístas”. A personagem parece dar-se conta de que as ausências de seu amante em sua rotina são indícios da ausência de amor. A curta aparição do romance no filme já sugere que a exclusiva relação com o outro não é um tema central aqui, mas parte da viagem interna da protagonista. Ela com ela.

A presença feminina (e feminista) é substancial. Desde figurantes nas ruas, são muitas mulheres na tela. Um momento ímpar é a sequência em que Cléo e Àngele (sua assistente pessoal) tomam um táxi cuja motorista é uma mulher. Três mulheres no carro e mais de três minutos de conversas sobre músicas, perigos, cidade etc, sem recorrer ao tema “homens” (o que já garante aprovação no Teste de Bechedel**). A situação se repete em outro momento, quando na carona com uma amiga, o foco do diálogo é suas vidas e a possível doença.

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O drama da mulher moderna encontra aqui uma expressão cuidadosa: a busca pela admiração e independência profissional (em um contexto de revoluções sociais) junto à preocupação em sentir-se amada, em não estar só. A recorrência de espelhos e superfícies refletoras expõem não somente a beleza física da personagem ou a sua auto análise, mas aponta uma visão geral das mulheres sobre elas mesmas.

Vivemos o drama (bastante humano) de Cléo não somente porque o roteiro nos coloca ali (com a escolha, inclusive, de indicar a hora exata na tela), mas especialmente porque o próprio dispositivo nos insere em seu íntimo. Ao ser o foco de olhares pelas pessoas nas ruas, Cléo sente a sua intimidade roubada. As pessoas, com os olhos fixos à câmera (em uma usual quebra da quarta parede), têm suas intimidades acessadas por nós (os olhares ausentes). Em sua relação com a câmera, porém, a protagonista parece consentir-nos a vigiá-la e, mais além, contar com nosso compromisso em segui-la. Essa interpelação colabora com o sentimento de aproximação e piedade.

Chegando a tempo para um curta – Há espaço para a problematização metalinguística das lentes e mediações que recorremos em nossas leituras de mundo, sabiamente metaforizada nos óculos pretos de Godard em um curta mudo que Cléo acompanha com a amiga.

Com referências ao contexto (empírico) que a conforma, como a guerra de independência da Argélia, a obra representa um espírito vanguardista histórico, como já explicitado. Ainda que seja essencialmente feminista, a questão de gênero não é definidor único para a experiência que o filme oferece. Com uma protagonista cuja história é, de fato, cercada em si mesma (e não em função de algum outro personagem), temos um retrato humano atemporal, com suas narrativas sobre vida e morte, ser e estar no mundo.

 

*STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. Campinas, SP: Papirus, 2003

** Teste de Bechdel – Criado em 1985 pela quadrinista Alison Bechdel, com ajuda de sua amiga Liz Wallace, o teste consiste, basicamente, na observação de três critérios básicos em um filme: (1) tem que ter pelo menos duas mulheres nele, que (2) conversam entre si 3) algo além de um homem. Ele consegue fornecer dados interessantes ao ilustrar a representação das personagens femininas nos filmes a partir da aprovação ou não desses filmes segundo seus critérios. Para mais, ver http://bechdeltest.com/

Supermax (2016)

Apesar de problemas em sua estrutura, Supermax é um avanço da Rede Globo em séries do gênero. supermax2

por Amanda Aouad *

A Rede Globo está investindo cada vez mais no formato de série. Parece que ainda não há coragem para ousar pensar em temporadas, mas não deixa de ser um avanço ver obras como Justiça e a série de terror Supermax. A própria estratégia de divulgação dessa última chama a atenção.

Quase todos os episódios estão disponíveis para assinantes da Globo no GloboPlay. Digo quase porque eles seguraram o último episódio para ser visto apenas em dezembro, quando for ao ar na televisão. Com isso, criaram uma espécie de vlog dentro do aplicativo para discutir teorias sobre os mistérios da trama em uma tentativa de manter os assinantes entretidos.

Essa quase estratégia “Netflix” (que sempre lança toda a temporada de suas séries de uma só vez) parece fundamental para a obra que só começa a esquentar mesmo a partir do terceiro episódio, tendo, talvez, um dos piores pilotos de série já vistos. Mas quando o reality show deixa de ser um reality, tudo começa a ficar interessante.

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O formato do primeiro episódio tenta simular um reality show, a direção não usa apenas câmeras escondidas, mas nos apresenta as personagens em vídeos, tem vinheta e até a apresentação de Pedro Bial. Esse é um dos grandes erros de escalação, já que o jornalista e apresentador não é ator e fica artificial em cena.

Os atores também não parecem muito à vontade em seus papéis. Os diálogos não são naturais, a estrutura não parece crível e mesmo as disputas que começam a surgir soam falsas. Tem inclusive um estranho erro de escalação, já que nas cenas abertas do grupo, vemos o ator Harildo Deda no lugar do ator Mário César Camargo, que interpreta o médico Timóteo.

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Ou seja, nada parece funcionar em Supermax. Pode ser que seja um clima proposital para o que está por vir, mas o fato é que o episódio piloto não fisga o espectador. Não nos deixa curiosos para continuar a investir na obra. E o pior, não faz jus ao que será desenvolvido adiante.

Um piloto é uma carta de apresentação, precisa trazer o tom da série e demonstrar aquilo que o espectador irá acompanhar por toda a jornada. Tudo deve ser implantado ali, ainda que melhor desenvolvido adiante. Ao se basear apenas pelo piloto, diríamos que Supermax é uma série sobre um reality show. O que não é verdade.

Então, por que continuar?

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Aos que persistem, há, no entanto, algumas recompensas. Como já foi dito, a série começa a esquentar no terceiro episódio. O gancho cria uma reviravolta que nos deixa intrigados e faz embarcar naquela aventura, apesar de ainda algum estranhamento.

Aos poucos, as personagens vão se tornando mais críveis, sendo aprofundadas e algumas revelações são bem conduzidas, como a cena em que Luisão e Janette ficam presos na área de alimentação. Os mistérios também vão sendo mais bem trabalhados e as explicações apresentadas são coerentes.

Talvez o mais intrigante em Supermax seja a possibilidade real dos acontecimentos. Nada é fantasioso em excesso, em determinado momento tudo fica palpável, o que ajuda no efeito do horror. E mesmo quando alguns elementos fantásticos são introduzidos, é possível comprar a verossimilhança aquele universo. A própria construção de efeitos é conduzida com poucos recursos, um som, um movimento de câmera, penumbras. Há efeitos especiais, mas a série não se baseia neles.

Há uma verdadeira mistura de referências. A começar pela série inglesa Dead Set, talvez a referência mais forte, com pitadas do filme espanhol REC. Mas é possível pincelar referências de formatos e temáticas de obras como Lost, OZ, Supernatural, Heroes e até algo de The Walking Dead.

Ainda que não tenhamos visto o episódio final, já é possível ver um avanço na Rede Globo no gênero. A série, de fato, funciona, pelo menos até o episódio 11. Só nos resta agora aguardar o episódio final para ver se a boa sensação se confirma. Afinal, tudo pode cair por terra com uma resolução mal planejada. Vamos torcer.

 

* Doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Póscom/UFBA) e integrante do GRIM

Dead of Summer – Primeira Temporada

Emissora Freeform aposta no estilo slasher adolescente no novo seriado da dupla criadora de Once Upon a Time

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Por Enoe Lopes Pontes [1]

1980: o Acampamento Stillwater é reaberto e com ele várias mortes começam a acontecer. Esta é a história de Dead of Summer (DOS), nova série da emissora Freeform e uam criação de Adam Horowitz e Edward Kitsis, roteiristas e produtores executivos das famosas Lost (2004-2010) e Once Upon a Time (2011-). Além dos dois artistas já conhecidos pelo público de televisão, Ian Goldeberg (Once Upon a Time) se juntou como showrunner neste projeto.

Numa atmosfera slasher movies à la Sexta-feira 13, durante dez episódios semanais, o espectador já sabe que existe a possibilidade de uma nova personagem ser assassinada. Apesar de possuir a premissa um tanto óbvia, Dead of Summer se segura em dois quesitos. O primeiro é a boa dinâmica do elenco, que constrói de forma segura as relações entre as si até mais do que com os próprios acontecimentos. Além disso, o grande triunfo do programa são os plots twists da trama que são assustadores, bem explicados e não gratuitos.

A narrativa segue um padrão parecido ao de Lost e Once Upon a Time. Com flashbacks sobre o passado dos monitores do acampamento mesclados aos acontecimentos do presente, o público vai montando as peças do quebra-cabeça para entender quem está matando os colegas, fazendo os rituais satânicos e ameaçando a tranquilidade de uma pacata cidade no meio oeste dos Estados Unidos.

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Caminhando na direção inversa do seriado Scream (MTV: 2014-), terror similar a DOS por ser um slasher adolescente, o programa consegue ir crescendo conforme a temporada vai avançando e deixando as personagens cada vez mais complexas. Os destaques na interpretação estão com Elizabeth Mitchell (Lost) e Elizabeth Lail (Once Upon a Time). Sem entregar spoilers sobre a série, pode-se dizer que as intérpretes conseguem demonstrar múltiplas emoções e estilos de personalidade em poucos episódios, intrigando e surpreendendo o espectador.

Outro destaque, que parece ser intencional na série, é forma como os criadores escolheram assustar o público. Existem figuras sobrenaturais na história. Demônios e fantasmas habitam Stillwater e isto vai ficando cada vez mais claro. Porém, o que incomoda e assusta de maneira mais intensa são os vilões vivos, estes que carregam machados, correm atrás da mocinha e (SPOILER ALERT) podem ser possuídos por livre e espontânea vontade.

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Por fim, existe mais um elemento positivo em DOS que merece ser destacado. Em produções anteriores, Horowitz e Kitsis foram cobrados por representatividade, principalmente em Once Upon a Time. Agora, em 2016, em Dead of Summer, parece que os dois procuraram se redimir. A trama traz a diversidade de forma bem planejada e realizada. Mulheres fortes, personagens negros importantes e fundamentais para o desenvolvimento da narrativa, casal homoafetivo, um rapaz transexual e uma garota com mais corpo, fugindo do padrão hollywoodiano de magreza demonstram que os produtores estão ficando mais conscientes de que todo o público merece ser representado nas telas.

Não há nenhuma novidade em Dead of Summer e ela poderia ser mais uma história de terror adolescente passada em um acampamento, mas existem coisas que conseguem salvá-la. A forma como o enredo é desenvolvido, as justificativas pelas quais as personagens resolveram ir trabalhar no acampamento, o entrosamento do elenco que faz a cena crescer quando está completo numa cena, a atmosfera de tensão causada pelas descobertas de vilania no programa, o carisma dos protagonistas e a diversidade fazem com que a segunda temporada seja desejada e esperada com uma certa ansiedade.

 

[1] Mestranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisador do GRIM.

CHÁ COM VERDADES

O documentário chileno La Once ou Tea Time (disponível na Netflix) transforma uma mesa de chá em lição sobre o que temos de mais humano

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Por André Bomfim [1]

A cineasta chilena Maite Alberdi documentou durante 5 anos os encontros mensais de sua avó com um grupo de amigas, que assim o faziam há mais de 60 anos seguidos, desde que saíram do colégio. “La once” é como os chilenos chamam o lanche do fim de tarde, semelhante ao costume londrino. Batizado de Tea Time em inglês, o documentário de Alberdi é uma lição de como do mais simples cotidiano, pode-se extrair profundas revelações sobre amor, amizade, regras sociais, vida, morte e tudo o que temos de mais humano. À mesa alegre das senhoras são servidos afetos, memórias e generosas porções de verdade.

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Alberdi conta em entrevistas que, durante os encontros, o equipamento de filmagem era ligado e a partir daí não havia nenhum contato da equipe com as personagens. Foi preciso mais de um ano para que elas começassem a ignorar as câmeras e expor as revelações mais íntimas. Alegres e dotadas de certo requinte aristocrático, as nove senhoras (apenas 4, após cinco anos), são carismáticas o suficiente para ganhar o espectador já nos primeiros takes. Em que pese também o apuro estético da diretora na captação caprichosa de detalhes, em particular os culinários. Aos poucos nos tornamos um décimo elemento da mesa, degustando imaginariamente guloseimas e divertidas memórias, como fazíamos com nossas próprias avós. Num dos saborosos diálogos, María Teresa (a avó de Alberdi) conta que encontrou um admirador secreto em suas sessões de hemodiálise e este lhe disse que era uma moça muito formosa. “Ele deve ter catarata”, retruca rapidamente Ximena, a mais divertida do grupo, levando a mesa aos risos.

Mas que ninguém se engane que o olhar lançado por Maite sobre o grupo de senhoras tem apenas a candura da neta. Em sua maioria viúvas de militares, as avós de Tea Time deixam, por instantes, vir à tona uma visão de mundo conservadora o bastante para azedar o patê. O grupo é capaz de atribuir a depressão de uma das amigas ao fato desta nunca ter se casado, quando esse seria o destino natural de toda mulher. Ou o aumento do número de lésbicas e gays à queda da instituição matrimonial. A única com posicionamento político de esquerda, María Teresa evita a todo custo tocar em assuntos polêmicos à mesa, com receio da dura repreensão das amigas. Lances que o bom espectador compreende como um reflexo da formação social dos países latinos, forjada em sua maioria, em extensos períodos de domínio militar.

Talheres, tortas, risos, ironias, desabafos… Tudo é captado pela olhar sensível de Maite. A cineasta fortalece com louvor o time dos adeptos do cinema direto, estilo de documentário que preza pelo menor grau de interferência na performance das personas, e que foi consagrado nos anos 70 pelos irmãos Mayles, autores de Grey Gardens (crítica aqui), outra pérola do gênero. Mas, ao contrário dos antecessores, Maite Alberdi não abre mão de um apuro estético singular, com destaque para a fotografia requintada e expressiva. Não por acaso, o preparo do chá em plano detalhe é o leitmotif que pontua toda a narrativa. As flores mergulham na água, que logo fica escura, densa e amarelada. “Não viva de fotos amarelas”, alerta uma das amigas a María Teresa, referindo-se à dor que pode vir à tona junto com as memórias e o passar dos anos.

Entre goles e garfadas, chistes e risos, surgem também os fantasmas da vida em sua fase crepuscular. O mais impactante é a morte, que solapa a cada ano o tamanho do grupo. E o mais cruel, o Alzheimer, que se manifesta de forma sorrateira, a cada reunião, em Inés. Mas nada que as doces senhoras não possam encarar com um alegre desembaraço. Juntas, elas provam que a amizade sincera ainda é o melhor remédio, e talvez o único, contra os efeitos colaterais dos males físicos, mentais e espirituais. Mais um gole dessa saborosa lição, por favor.

[1] Doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisador do GRIM.

Marias, elas não vão com as outras (2015 – )

Por Amanda Aouad *

“Maria vai com as outras” é uma expressão popular carregada de estereótipos e preconceitos que a marca de absorvente Intimus resolveu desconstruir em uma série que buscar falar diretamente ao seu público-alvo.

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“Marias, elas não vão com as outras” teve uma primeira temporada tímida em termos dramatúrgicos, mas já demonstrava extrema força e posicionamento. Tanto que contou com uma campanha de divulgação massiva com direito à mídia exterior em todo o país.

A série exibida na Rede Telecine e no canal do Youtube da marca tinha, como recorte, um dia na vida de seis Marias, cada uma com um segundo nome e uma personalidade própria. Maria Eduarda é cantora e está prestes a realizar seu primeiro show. Maria Luiza acaba de criar atrito com um rapaz na academia. Maria Carol descobriu que está grávida de um namorado de apenas quatro meses. Maria Fernanda é uma produtora que tem que encontrar um novo talento musical. Maria Laura está com problemas com a chefa e sua irmã Maria Paula está com uma nova paquera, mas não quer nada sério.

Cada episódio trazia um ponto de vista de uma das Marias, sempre com três minutos de duração e sempre terminando no show de Maria Eduarda. Era interessante a mudança de percepção do todo a cada nova informação com a aproximação de uma das personagens.

A direção de Vera Egito casava com a proposta da série, até mesmo por retratar tão bem o universo feminino em seus curtas. Percebia-se o cuidado estético com os detalhes de cena, planos que não se repetem, iluminação, ritmo da montagem. Tudo é bem cuidado. E a marca Intimus surge de maneira natural em cena.

Mas, talvez pelo recorte de um dia e a convergência de todas ali naquela boate, a trama acaba sendo superficial, não dá para conhecer muito da personalidade de cada uma ainda. A primeira temporada funciona quase como um teaser, um primeiro contato. E agora, com a segunda temporada, podemos perceber um pouco mais da proposta e desenvolvimento dos temas, o que eleva a série a um case muito mais instigante e envolvente.

Segunda Temporada: Agora sim, Marias.

No dia 22 de março, a Intimus lançou, agora em parceira com a Sony, a segunda temporada da série Marias. Não há mais o recorte de um dia, sem a visão múltipla de um mesmo acontecimento. Os episódios possuem cinco minutos cada e são exibidos na Sony na segunda-feira à noite, antes da série Grey´s Anatomy, indo para o canal do Youtube no dia seguinte.

Cada Maria, agora, tem um arco próprio desenvolvido em quatro episódios podendo tocar em assuntos do universo feminino com um aprofundamento maior, assim como desenvolver melhor as personagens. Elas continuam se mesclando, participando do mesmo universo, mas valorizando o protagonismo de cada uma há seu tempo.

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Os quatro primeiros episódios foram focados em Maria Luiza. O rapaz que ela conheceu (e brigou) na academia na primeira temporada, agora é seu namorado, como já insinuava o final do dia na boate. Mas o foco é no seu perfil na rede social e na exibição de sua vida saudável e repleta de exercícios. O problema é que, sem que ela perceba, acaba postando um vídeo fazendo exercícios menstruada, com o short sujo de sangue, virando piada na internet.

O drama pela vergonha, associada à raiva pelo namorado, que gravou o vídeo, não ter percebido o incidente, tornam Maria Luiza obcecada. É interessante a maneira como o roteiro toca em assuntos como ditadura da aparência, relação com as redes sociais e valores pessoais nesses quatro primeiros episódios. A questão da valorização da vida online em detrimento da vida off-line também tem espaço na trama e é desenvolvida de maneira sensível.

A direção geral continua sendo de Vera Egito, apesar dos episódios já trazerem uma equipe de diretoras. Nessa temporada, já percebemos uma estrutura de série mais tradicional, com abertura e créditos das diretoras ao contrário da primeira temporada onde não havia indicação de autoria, apenas o lettering “Intimus apresenta”, que continua agora.

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A direção de arte e atmosfera da série continua também valorizando esse universo feminino plural com pontos de vista diversos. E o posicionamento dessas diferenças também continua no texto. Em uma cena de café da manhã, por exemplo, Maria Luiza come frutas e granola, criticando Maria Carol por estar comendo “farinha branca”, ao vê-la cortando um pão francês. Mas a amiga não se importa com o comentário e continua seu desjejum tranquilamente.

A marca Intimus também continua surgindo de maneira discreta, no dia a dia das personagens em trocas de absorvente, sem precisar chamar a atenção para eles ou mesmo citar o nome. Isso faz com que o produto esteja ali inserido naturalmente, fazendo parte da rotina, sem quebrar a ilusão dramática.

O que chama a atenção na série são mesmo os temas e o tratamento do universo feminino. Além do cuidado com direção, fotografia, trilha e atuações, conseguindo um bom resultado enquanto produto audiovisual. A temporada está agora no meio da trama de Maria Laura, falando sobre assédio e posicionamento diante de desrespeitos diários que uma mulher pode passar, dando pistas de que ainda há muito a ser explorado. Só nos resta acompanhar.

* Doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Póscom/UFBA) e integrante do GRIM

Crítica: Boa Noite, Mamãe

Por Enoe Lopes Pontes

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Tenso, profundo e perturbador. Essas três palavras descrevem bem o terror austríaco Boa noite, Mamãe (Ich seh Ich seh, 2015), que surpreende o espectador com sua narrativa intrigante e cuidadosa. O plot central do filme é aparentemente bem simples. Dois irmãos gêmeos recebem a mãe de volta em casa, após uma cirurgia que a deixou com um comportamento diferente do que a dupla estava acostumada. Além disso, ela retorna com o rosto coberto por ataduras, aumentando o pavor para com aquela figura que a mulher se tornou.

A partir disso, o clima de medo e terror é instalado. Lukas (Lukas Schwars) e Elias (Elias Schwarz) passam a temer sua progenitora, com direito à pesadelos macabros e brigas intensas com a mesma. Durante a projeção algumas dúvidas começam a surgir. Estariam as crianças imaginando algo que não existe ou a figura materna presente na residência passou por alguma experiência que a modificou a ponto dela se tornar outra pessoa?

O clima de conflito vai aumentando e Elias e Lukas passam a traçar juntos planos de combate para solucionar o mistério que envolve a mãe dos garotos. Enquanto isso, a moça apresenta mudanças radicais de humor, faz ameaças aos filhos, passa a ter ações violentas e exige uma modificação da rotina dos meninos, deixando o cotidiano mais pesado.

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No trailer do longa é prometido uma reflexão sobre a relação de mãe e filho, porém Boa noite, Mamãe vai além disso. Ele traz uma discussão complexa sobre a relação de irmãos gêmeos, algo que nem sempre é bem explorado pela indústria cinematográfica. No terceiro ato a questão fica ainda mais clara e a trama passa a demonstrar o poder do relacionamento de mabaços, como a união fraterna é singular e até mesmo perigosa.

A película constrói meticulosamente os momentos entre a dupla, mostrando como, principalmente, durante o período da infância a conexão entre gêmeos é fortíssima e talvez inabalável. São muitos elementos que ajudam na dinâmica dos dois. As brincadeiras cotidianas, o altruísmo de um com o outro, os olhares, os pensamentos parecidos, o companheirismo e uma amizade única e especial.

Entre uma pista e outra, o espectador acaba juntando as peças até ser apresentado para o cruel desfecho da história. Dirigido e escrito por Veronika Franz e Severin Fiala, o roteiro do filme demonstra um zelo dos autores, pois não há pressa em revelar os fatos. Ele instala uma ambientação que assusta o público sem ser óbvio e preenche a narrativa de momentos de desconfiança, tanto entre as personagens dentro da ficção, como na plateia. Sem sustos gratuitos ou estratégias mais trashs, o longa pode ser considerado um terror psicológico dos bons, justamente por escapar das estratégias mais comuns do gênero.

Boa Noite, Mamãe também conta com um elenco afiado, tanto os dois garotos quanto Susanne Wuest (a mãe). Na maior parte do tempo, tem-se os três atores em cena, que trabalharam juntos com muita organicidade, com o realismo na medida, sem afetações comuns de filmes de terror ou exagero nos gestos e nas falas. O trio equilibra bem as sensações que precisam ser passadas, trazendo na ambientação da história uma atmosfera de tensão e relaxamento constantes.

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Para a porcentagem do público que possui irmão gêmeo ainda existem questionamentos intrigantes, como: Até onde pode ir uma ligação entre gêmeos? Um consegue sobreviver sem o outro? Quais podem ser as consequências de uma separação? Será que ser gêmeo é tão esquisito assim? Como eu reagiria se fosse eu no lugar de Elias? Essas perguntas grudam na cabeça e não saem facilmente (Eu tenho uma irmã gêmea univitelina).

Outro destaque do filme é a paisagem bucólica que passa uma ideia sufocante de isolamento e provoca um certo desespero nos momentos mais intensos de combate entre mãe e filhos. O lugar, as personagens, a pouca música de fundo, todos estes elementos contribuem para a boa execução do terror em Boa Noite, Mamãe.

Parágrafo extra com Spoilers: Para quem viu o longa, um dado curioso é tradução do título original: Ich seh ich seh, Eu vejo eu vejo, em português. Essa frase dá uma ideia de repetição, devido aos protagonistas gêmeos e traz uma dica sobre seu desfecho.

Direção: Veronika Franz e Severin Fiala. Roteiro: Veronika Franz e Severin Fiala. Elenco: Elias Schwarz, Lukas Schwarz, Susanne Wuest.

Crítica: BABYMETAL

 

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Por Danilo Bittencourt

Mesmo com tantas e divertidas repetições, a poderosa máquina chamada cultura pop japonesa ainda é capaz de oferecer grandes surpresas. Para mim, a última delas não se deu nas séries animadas (animês) nem nos quadrinhos (mangás), meios que costumo acompanhar com maior atenção, mas na música, em uma algorítmica descoberta no youtube. Os japoneses conseguiram convergir rock pesado com música pop, e, para meu sobressalto, transformaram em algo palatável. De um estranho encontro entre o heavy metal e o j-pop, temos o Babymetal.

No mundo do pop japonês, também conhecido como J-pop, que abarca uma infinidade de produções, destacam-se, dentro e fora do Japão, os chamados grupos idol. Formados por agências de talentos – a Amuse gerencia o Babymetal – estes grupos de jovens, fazem apresentações musicais, participam de programas de TV e promovem todo tipo de produto, relacionado ao grupo ou não. Algo recorrente em grupos como o AKB48 é a estética kawaii, termo em japonês para “fofo”, “bonitinho” e que já virou gíria popular no fandom de cultura pop japonesa. O kawaii é expresso nas músicas, nas coreografias e até mesmo no modo de agir dos ídolos. As apresentações são ricas em elementos infantis, graciosos, algumas vezes sensuais, mas quase sempre acompanhados de temas otimistas e românticos. A relação do kawaii com o competitivo mercado que os envolve aparece com tons de ironia na provocante música do Babymetal Onedari Daisakusen, algo como “estratégia de implorar”.

O trio formado por Sumetal, Yuimetal e Moametal faz uso de boa parte dos padrões idol enumerados acima, porém busca, como demonstram os nomes artísticos, uma interação com o rock pesado. O eficiente grupo Kami-band, que acompanha as garotas, acrescenta ao espetáculo um tipo de som familiar ao amantes do metal, com guitarras distorcidas, bateria nervosa, baixo bem marcado e virtuosos solos. Em trechos dos shows, a kami-band costuma fazer apresentações instrumentais que reforçam a genética metaleira do grupo pop. O resultado na platéia é uma inesperada mescla de bastões luminosos – recorrentes em shows pop japoneses – com as tradicionais rodas de headbangers, como são chamados os fãs de metal. Os vocais também apontam para os dois estilos. Yuimetal e Moametal fazem mais o modelo idol, sempre sorrindo e utilizando timbres infantis. Sumetal, ao contrário, canta em tons mais graves enquanto assume postura decidida, tipicamente roqueira. Nas gravações, são pontualmente acompanhadas por vocais guturais, mais uma referência ao metal.

As músicas do grupo tratam de temas que variam desde o ingenuo consumo de chocolate (Gimme Chocolate!) à conscientização quanto ao bullying (Ijime, Dame, Zettai). Fazem referência à cultura metaleira de “bater cabeça” (Head Bangya!) e também ao uso do “fator kawaii” para se obter dinheiro e doces (Onedari Daisakusen). A música Megitsune, “mulher raposa”, faz uma breve reflexão sobre o universo feminino, associando-o à figura da kitsune, a raposa, personagem recorrente no folclore japonês. Parte da melodia de Megitsune faz citação à música tradicional Sakura (“flor de cerejeira”). Babymetal conta ainda com uma chamativa identidade visual, facilmente reconhecível e sedutora para muitos.

Os recorrentes uniformes de “maid” e as coreografias aguçam a atenção do público j-pop, enquanto a marca com o nome da banda, amplamente reproduzida em telas e bandeiras, somadas às mãos chifradas – ainda que de maneira “kawaii” – seduzem o publico roqueiro. O vermelho e o negro são recorrentes e indexam uma paleta de cores sombria, porém vibrante. Boa parte do sucesso de Babymetal talvez esteja relacionado ao que teóricos como Hans Robert Jauss chamariam de distância estética, o contraste entre aquilo que se espera e aquilo que se recebe. O meu horizonte de expectativas, sistema de referências que carrego, onde quer que eu vá, inclusive em um breve passeio pelo youtube, nem sequer imaginava o que encontraria adiante. Tinha acabado de acompanhar um vídeo do Iron Maiden e fui parar em Road of Resistance do Babymetal. Foi uma grande surpresa. Para mim e para muitos outros, bastante agradável.

Crítica: Sense 8 (Netflix, 2015 – )

Por Amanda Aouad

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Oito pessoas, em oito países diferentes, mas uma ligação psíquica que as fazem compartilhar sentimentos, sensações, habilidades e pensamentos. Assim é Sense 8, a nova série da Netflix, produzida pelos irmãos Wachowski e J. Michael Straczynski.

A primeira temporada, composta por doze episódios, foi disponibilizada na íntegra no início do mês de junho, como tem acontecido com a maioria das produções próprias no Canal VOD. Isso torna a própria experiência da série diferente daquela narrativa em que precisávamos esperar uma semana para o próximo episódio, o que também se reflete na mesma. Não que Sense 8 seja feito para ser vista em uma maratona insana de quase doze horas, mas é preciso contar com essa possibilidade também. E nisso há problemas e acertos na obra que traz boas reflexões sobre as relações humanas no mundo em que vivemos.

A trama mistura realidade e fantasia em um mundo onde existem pessoas sensitivas capazes de se conectar em grupos. Componentes de grupos distintos, no entanto, podem se conectar também, caso haja um contato visual entre eles. Assim, um policial em Chicago, uma DJ em Londres, a filha de um poderoso empresário em Seul, um motorista de ônibus em Nairobi, um ator no México, uma farmacêutica em Dubai, uma hacker em São Francisco e um ladrão em Berlim começam a compartilhar suas vidas, enquanto três componentes de outros grupos se ligam a eles de alguma maneira. Angélica, que uniu os oito, dando-os à luz. Jonas, seu amante, que parece querer ajudá-los. E Sussuros, um ser misterioso que se demonstra o vilão da trama.

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A construção narrativa nos leva a perceber que Sense8, apesar de ter aventura, suspense, comédia e fantasia, é um melodrama sobre pessoas comuns. Personagens espalhados pelo mundo em estereótipos aparentes que vão se desnudando para nós à medida que os episódios vão sendo apresentados. E aí, a forma como você escolhe assistir aos episódios pode trazer diferenças na experiência. Vendo os episódios na sequência, pode-se ter uma sensação de reforço exagerado de algumas informações, assim como um excesso de clipes musicais que mostra o grupo interligado. Porém, também há a possibilidade de aprofundar os personagens mais rapidamente, o que a apreciação com intervalos dilatados, pode dar a sensação de que está demorando muito para acontecer.

Não que, em algum momento, a obra chegue a ficar cansativa. A montagem mesclando os oito mundos dos protagonistas dá dinâmica à série e algumas inserções musicais chegam ao primor artístico, como a inteligente inserção da música What’s up, de 4 Non Blondes, que traduz de maneira bastante eficaz tudo o que aqueles personagens sentem. Ou ainda um concerto musical inusitado que traz uma revelação profunda não apenas da ligação daqueles seres como o momento mais importante de suas existências em um raccord visual que vai cadenciadamente nos levando ao clímax da temporada. A diferença da apreciação é apenas na compreensão do sentido principal da série, que é nos envolver e emocionar com aquelas pessoas para que nos importemos com elas.

A mitologia dos sensitivos criada pelos Wachowski e Straczynski, então, é apenas o elemento diferenciador da narrativa que possibilita que acompanhemos todos juntos e atiça a nossa curiosidade para irmos aprofundando o tema. É impossível entender os pormenores dela em apenas uma temporada. E nem a série se presta a isso, já que foi pensada para uma jornada mais longa que essa. Ainda assim, é possível tirar aqui alguns simbolismos com o nosso mundo, já que os criadores de Matrix sempre estão em busca de uma crítica social em suas obras.

A conexão dos sensitivos pode ser uma metáfora das próprias comunicações humanas, que interligaram o mundo após o advento da internet. Comunicamo-nos em grupos, seja em comunidades virtuais, fóruns onlines ou redes sociais. Essa parece uma comparação óbvia. Mas, quando observamos que essas pessoas comuns representam a diversidade de uma sociedade que ainda está aprendendo a lidar com as diferenças, a comparação ganha força, principalmente, porque eles estão sendo perseguidos.

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Há homossexuais, transexuais, mulheres reprimidas em sociedades machistas, homens ricos e pobres, negros, brancos, amarelos. Seres humanos em busca de seu lugar no mundo. Mas, que começam a ser ameaçados por um inimigo em comum que quer encontrá-los e operar os seus cérebros para dominá-los. Assim, podemos supor que Sussuros, o vilão, seja uma representação do lado ruim da sociedade, sempre tentando controlar a vida alheia a partir de seus preconceitos e jogos de interesse.

De qualquer maneira, esses são apenas detalhes que enriquecem a experiência. Como já foi dito, o que importa são essas pessoas e suas vidas extraordinariamente comuns. Para quem está em busca de uma nova série de ficção científica isso não deixa de ser uma decepção. Mas, para quem gosta e embarca na vida destas oito pessoas, a mágica acontece. Começamos a nos prender a eles, como se fizéssemos parte também daquele grupo e isso torna a experiência ainda mais bela nos dando vontade de, junto com eles, gritar “hey” e perguntar “o que está acontecendo” enquanto rezamos por esta “revolução” da diversidade.