Crítica Little Fires Everywhere

Por Enoe Lopes Pontes [1]

Little Fires Everywhere, com Reese Witherspoon e Kerry Washington ...

Procurando estabelecer um clima de mistério e se aprofundar nas relações humanas, Little Fires Everywhere é uma adaptação da obra homônima de Celeste Ng. Criada e produzida por Liz Tigellar (Nashville), a série estreou no Brasil em 22 de maio, pelo canal streaming Prime Video. Com algumas modificações em relação ao livro, a produção investe em discussões raciais e sociais. Ambientada no final dos anos 1990, há uma busca por expor a visão deturpada dos privilegiados, ao passo que as personagens consideradas como minorias sociais são claras, diretas e expressivas. Este é o ponto alto do seriado, que não floreia o encaminhamento das tensões e expõe dores e lutas cotidianas de quem convive com típicos opressores.

Além de um roteiro preenchido de diálogos certeiros, uma das chaves para o bom desenvolvimento desta parte da narrativa é a construção da protagonista, interpretada por Kerry Washington (Scandal). É possível perceber, desde os detalhes até os aspectos mais gerais, como a atriz utiliza a tonicidade ao seu favor e jamais demonstra um corpo que descansa. É como se a sua Mia Warren estivesse sempre em alerta! Outro fator que chama atenção são as quebras repentinas que ela traz ao seu papel, principalmente quando deseja esconder seus sentimentos e externalizar uma aparente realidade falseada. Um exemplo são suas sequências ao lado de Elena Richardson (Reese Witherspoon). Sempre que a mesma se despede, realiza inúmeras expressões faciais, mescladas com tons de voz, que fazem o público se questionar incessantemente até onde Mia vai.

Amazon Prime divulga data de 'Little Fires Everywhere'

Contudo, apesar do texto ser afiado e pontual quando se tratam de assuntos mais políticos, os desdobramentos da trama relacionados ao mistério central e ao cruzamento das narrativas vão perdendo a força gradualmente. É como se o fogo que mora no título fosse se apagando. Desta maneira, o foco do enredo passa a se distribuir pelas histórias dos coadjuvantes, deixando de lado a chance de explorar mais extensamente a rivalidade entre Elena e Mia. Este direcionamento não seria necessariamente negativo, a contribuição dos plots do elenco secundário poderia apenas favorecer e fomentar a premissa principal. Mas, o oposto acaba acontecendo.

Algo que colabora para esta queda é a constante planificação de Elena. A sensação é de que a qualquer momento uma camada nova ou diferente surgirá. No entanto, nos primeiros minutos de exibição já é possível ter certeza de quem é aquela figura e como ela irá agir. Talvez, por esta razão, Witherspoon não vá muito além do óbvio em seu trabalho. No começo da temporada fica uma esperança de que ocorrerá um crescimento gradativo, porém o que surge como uma surpresa positiva, com uma atuação preenchida de minúcia, vai se transformando em tédio e previsibilidade, porque o amadurecimento ou a virada dela não chega jamais.

LITTLE FIRES EVERYWHERE EPISODE 4 CLIPS: Mia Warren Battles Elena ...

Esta dinâmica esperável também habita elementos mais técnicos da obra. As repetidas temperaturas azuladas e avermelhadas anunciam melancolia e lembranças, juntamente com embates e discussões, respectivamente. Os símbolos não são dos mais incomuns. Contudo, no princípio, guardam consigo certo valor, pois instauram a atmosfera que será apresentada no enredo. Depois, estes significados vão morrendo e se dispersando, passando um quê de incerteza de suas presenças. Isto se confirma quando as angulações e movimentos de câmera são notados, pois estes são mais diversos em seu start mas, em seguida, vão se transformando em menos criativos.

As escolhas que mais trazem as emoções necessárias para cada momento são as da diretora Lynn Shelton (New Girl). Com travellings e panôramicas, por exemplo, a dimensão dos acontecimentos ganham um novo tom e significado. A iminência de um perigo, que ainda não se sabe o que é, permeia as cenas com maior intensidade. Dentro dessas irregularidades, o mais incômodo é o desperdício do clímax próximo da finale. Todos os esforços de Mia, os 14 anos de mudanças e um segredo escondido tão profundamente têm uma resolução simplista, algo desconexo com a progressão das personagens. Nos dois últimos episódios, o sofrimento, a angústia e as lutas vistas anteriormente, soam como irrisórias ali. Ainda assim, vale a pena acompanhar a minissérie em sua totalidade, principalmente pelo o que ela diz e como o faz discursivamente.

[1] Doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisadora do GRIM.

 

   Crítica The Politician

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Por Enoe Lopes Pontes [1] 

Criada por Ryan Murphy (American Horror Story), a serie The Politician é uma produção da Netflix, que narra a vida de um jovem estudante que sonha em ser presidente dos Estados Unidos. A própria premissa já pode preocupar os espectadores um pouco mais focados em questões sociais. Contudo, ao ver o nome de Murphy como showrunner a sensação de encontrar mais uma trama batida se desfaz e fica certa esperança de que a abordagem dos conteúdos políticos sejam vistos sob um olhar mais crítico.

Contudo, por mais que Ryan Murphy insista em proclamar a sua sensibilidade diante das chamadas minorias sociais, lhe falta alguns traços de lucidez em relação a esta sua vontade.  Com a rara exceção do seriado Pose, o artista peca em seus trabalhos por imprimir estereótipos um tanto machistas, fazendo, por exemplo, figuras femininas acima tom, que se enervam de maneira “aguda”, revelando a visão misógina em relação às mulheres. Outro fator é como ele joga para escanteio personagens negras que são constantemente subaproveitadas no enredo e, em alguns casos, como em The Politician, “esquecidas” na história.

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Estes elementos podem ser vistos não apenas no discurso da obra, mas em elementos técnicos como em enquadramentos, temperaturas e movimentos de câmera. O foco está na maior parte do tempo no menino branco no qual a história é centrada e seu tempo de tela em maior, ainda que em sequências de contracena. Resta, assim, somente uma sensação de que nada mais importa além do protagonista Payton Hobart (Bem Platt) e que, assim como ele mesmo pensa, tudo gira ao seu redor. A noção de egoísmo e individualismo de um homem branco privilegiado poderia ter entrado apenas com uma visão crítica e isto justificaria, talvez, o enviesamento. Porque ao mesmo tempo que o olhar vai para o rapaz, lampejos de força e nó estão em outras pessoas, que ficam à margem. Além disso, Murphy parece reforçar padrões normativos da sociedade.

Quando importa mesmo, Hobart procura se afiliar em um relacionamento heteronormativo, com a Alice (Julia Schlaefer) e fazer alianças com uma jovem branca heterossexual, a Infinity Jackson (Zoey Deutsch). Inclusive, estas duas personagens são extremamente inconstantes na narrativa. Ambas parecem ser o ponto de equilíbrio e desconforto de Payton, mas os conflitos que elas trazem e possuem somem e desvanecem recorrentemente. Os micro plots desviam o olhar da história principal, que também não tem muito para onde ir e poderia ser um filme de 70 minutos. A grande complicação parece ser a de Payton Hobart vencer a disputa eleitoral de seu colégio. Como isto não se sustenta, outras problemáticas são postas, mas elas não fomentam a discussão principal e não movem o protagonista.

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Este fator se confirma quando um pouco antes da temporada terminar, os roteiristas eliminam a importância das peripécias e dores vividas durante a produção e criam uma nova problemática, numa espécie de reset. Esta ausência de vigor da escrita faz com que o ritmo não se estabeleça e nem pode-se dizer que este é fraco, porque a questão aqui é que o fio condutor se quebra, antes que uma dinâmica fluida possa ser elaborada de maneira rítmica.

Para além das questões políticas, alguns elementos provocam incômodo, no geral. O fato do candy color ser utilizado para transmitir um ar de juventude e falhar, pois é difícil de acreditar que os atores na tela estão no ensino médio ou que há leveza juvenil, seja pelos diálogos ou posturas corporais. Além disto, as vontades e motivações das personagens criam um distanciamento com espectador e isto é reforçado nas escolhas da equipe, como um desgaste na utilização de foco/desfoco, que cansa, pois não está ali para ajudar a criar nada para o conteúdo em si, os zoom in/zoom out recorrentes e as pontas soltas do roteiro que procuram criar tensão, mas são negadas insistentemente.

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Um dos destaques positivos, porém, é a presença de Gwyneth Paltrow (Glee), que traz para suas cenas uma tonalidade que quebra a artificialidade da atuação dos outros intérpretes. Paltrow consegue performar o tom sarcástico necessário para o que a obra busca, mas faz isso com delicadeza, trazendo sonoridades e tempos múltiplos, sem entrar numa espécie de “música” ou sendo monocórdica, como acontece com todos os atores com os quais ela contracena. Já Jessica Lange fica apagada diante de toda a quantidade de reviravoltas e situações que fogem do fio narrativo principal. Além disso, ela parece performar uma caricatura de seus outros papeis com Murphy, em American Horror Story. É como se fosse uma Constance Langdon, menos esperta e mais sulista.

O que estas decisões transmitem é uma oportunidade de testar uma estética e estilos, mas que acabam tornando a experiência enfadonha. Desta maneira, The Politician procura evocar cores, jogos cênicos, quadros e sequências intensas, mas causam cansaço e distração.

 

 

[1] Doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisadora do GRIM.

Crítica: Dead to Me

por Enoe Lopes Pontes [1]

A primeira coisa notável em Dead to me, nova série da Netflix, é seu título. É curioso perceber que a cada episódio a frase vai ganhando novos sentidos e direcionando a mente do espectador para a tentativa de ir desvendando os mistérios e as razões das tensões entre certas personagens. O nome em português, Disque Amiga para Matar, está bem relacionado com a obra. No entanto, ele traz menos complexidade para a interpretação da história e entrega muito do que ela será, em alguma medida.

O seriado é um suspense, com pitadas de humor sombrio, que consegue ir revelando cuidadosamente os detalhes sobre as personalidades das personagens e quem elas realmente são. Criado por Liz Feldman (2 Broke Girls), a produção é estrelada por dois nomes relevantes dentro do universo de narrativas seriadas televisivas: Christina Applegate (Um Amor de Família), que vive Jen, uma mulher que perdeu o seu marido, pois ele foi atropelado e deixado sem socorros; e, Linda Cardellini (Freaks and Geeks) que é Judy, uma moça que possui problemas com seu ex-noivo e tenta se recuperar do luto. Pelo menos, esta é a premissa da narrativa.

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Para a criação de atmosfera, o diretor de fotografia Daniel Moder (Olhos da Justiça), juntamente com as diretoras de arte Amelia Brooke (Stuck in the Middle) e Jaclyn Hauser (Silicon Valley) dividem as cores e as temperaturas impressas na tela. Enquanto no presente há a predominância do marrom, amarelo e branco, nos flashbacks – ou em momentos que remetem ao passado – há um azul esverdeado mais forte. A escolha soa como uma busca da criação de um paralelo entre o outrora em que Jen e Judy não se conheciam e passavam por momentos muito difíceis, tristes e assustadores, com este novo start que tem pinceladas de esperança e expectativas, mas que os conflitos parecem queimar suas vidas, por isso as paletas mais quentes.

Essa criação também aparece estampada nas atuações de Applegate e Cardellini. De maneiras distintas – talvez opostas, devido ao fato de Jen ser mais sisuda e amarga e Judy mais doce – as duas escondem seus sentimentos e possuem momentos de explosão e revelação das emoções que procuram não transparecer. Isto, porque não o podem fazer. Ambas têm segredos e acabam evidenciando lentamente a totalidade de suas personalidades. Há, na interpretação dos papéis e no que está escrito no texto que dizem, uma complexidade presente nelas, ao ponto de elementos que determinam quem é quem estarem, pontualmente, na outra. Assim, a identificação e o entendimento profundo entre a dupla é sentido constantemente.

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O roteiro também é bem sucedido na forma como mostra os homens da trama. Sem maniqueísmos, o enredo vai trazendo a discussão sobre a impunidade que figuras masculinas recebem da sociedade e como eles podem ser algozes “disfarçados” de pessoas cotidianas. Este fator é trazido de forma sutil e muito dos créditos deve-se a atuação de James Marsden (Westworld) que mescla o seu carisma e um ar de galã, com frases pesadas presentes no script.

O equilíbrio do peso durante as sequências também é fruto da utilização da música e de sons. Momentos de raiva, por exemplo, são embalados por heavy metal intenso. Situações irônicas vêm com um jazz, anos 1950/1960, fomentando o clima desejado. As lembranças de momentos assustadores para Judy não possuem canções, somente ruídos e a voz de seu companheiro, que dão destaque para o terror vivido por ela.

Ainda que, no geral, o material seja bom, Dead to Me peca quando traz alguns diálogos expositivos demais. Esta característica aparece, principalmente, nos episódios iniciais. A sensação é a de que Feldman e seus colegas de escrita subestimaram quem iria assistir o conteúdo deles e procuraram explicar demasiadamente, quase didaticamente, o que ocorreu anteriormente nas vidas dos indivíduos em cena. Apesar disso, a qualidade da sua totalidade não é comprometida e tem-se um bom thriller, no final das contas. Daqueles que a maratona acaba sendo feita em um dia apenas!

 

 

[1] Doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisadora do GRIM.

Crítica Dancing Queen

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Por Enoe Lopes Pontes [1]

Coreografias elaboradas, cores, luzes, figurinos de todos os tipos, música e muito drama! Estas palavras poderiam resumir perfeitamente o clima e o visual de Dancing Queen, novo reality show da Netflix. Estrelado por Alyssa Edwards, a série mostra a vida dupla da artista, que se divide em treinar um grupo de jovens dançarinas de dia e fazer seus shows performáticos à noite.

Alyssa ficou conhecida mundialmente após as suas participações na quinta temporada do seriado Rupaul’s Drag Race e na terceira de seu spin-off All Stars. Apesar de não ter vencido as competições, a fama da drag se alastrou e ela começou a fazer apresentações pelo mundo inteiro. Contudo, além da vida corrida de shows, Alyssa Edwards comanda uma escola de dança, chamada Beyond Belief (BBDC), onde trabalha como o super requisitado professor de dança Justin Johnson. Estas duas carreiras e sua conturbada relação com a família são os focos centrais do seriado.

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O que se observa, a partir da proposta de múltiplos núcleos, é a tentativa de equilibrar o tempo entre os depoimentos e os acontecimentos da rotina de Justin e da de Alyssa. Este objetivo é alcançado e cada parte da vida da protagonista sempre é mostrada. Dentro da correria que é o cotidiano da artista, a equipe de criação consegue imprimir ritmo em cada episódio. Quando o espectador está ansioso por conta das brigas entre Justin e as mães das dançarinas mirins da BBDC, o foco passa para algo mais sentimental do passado de Alyssa/Justin, com detalhes sobre sua infância ou a de sua amizade com as irmãs. Mas, se as lágrimas e os assuntos entre eles ficam pesados demais, o público é levado para as noites de performances de Alyssa, com muita música e dança.

Inclusive, este é um dos pontos altos do seriado: os inserts musicais colocados para narrar as vitórias e celebrações da vida de Justin como Alyssa Edwards, seja quando ela casa os dois amigos ou na primeira vez que ela joga boliche. São nestes clipes que as cores das luzes e figurinos são mais fortes e cintilantes. Eles são os respiros mais óbvios do reality, quando a mente de quem assiste pode relaxar e focar apenas nos passos dançantes, na dublagem de Alyssa e na música alegre. Este momento de canção é melancólico apenas no 1×03, quando a artista conta como duas irmãs já foram viciadas em drogas e a saudade que sentia do tempo em que conseguia se relacionar bem com elas.

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Outro destaque positivo é como a produção consegue criar empatia com todas as personagens. Mostrando qualidades e defeitos intensos, não existem vilões, são figuras palpáveis. Tanto nas discussões, no trabalho ou nos instantes de felicidade, partidos não são tomados. Os vários lado de uma situação são mostrados e fica possível compreender as motivações, tristezas e forças daqueles indivíduos. Contudo, apesar de todos serem bem retratados e o tempo para cada parte da vida de Alyssa ser justo, é a relação de Justin com as mães das dançarinas o ponto alto de Dancing Queen. Os plot twists, os maiores dramas e as cenas mais engraçadas são as que estas mulheres entram em embate com Justin, ajudam ele ou compartilham um momento alegre.

Ainda que a série seja sobre arte, com muita música e danças, Dancing Queen consegue extrair o traço mais forte da personalidade de Alyssa e transformar isto no tema central do reality show: sua capacidade de formar uma família onde quer que vá. Ela lidera diversas linhagens, sejam seus parentes biológicos, os amigos da carreira como drag ou as mães e dançarinas da BBDC, Alyssa une as pessoas. A série captura isto com destreza, pois tem ritmo, diverte e traz discussões relevantes como aceitação da sexualidade, superação e reconciliação com entes queridos em todos os aspectos possíveis dentro da trajetória de Alyssa Edwards.

 

[1] Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisadora do GRIM.

Crítica Collateral

Sutileza e discurso potente marcam nova minissérie britânica policial

por Enoe Lopes Pontes [1] 

Créditos iniciais. Uma música bem animada e não diegética é tocada. Aos poucos, o espectador vê um veículo em movimento e a canção entra na diegese. Assim, começa cada um dos quatro episódios da minissérie Collateral. Escrita e criada por David Hare (As Horas), a produção se enquadra no gênero policial e é uma parceria da BBC com a Netflix. O seu enredo ganha força por trazer questões políticas e sociais importantes para o Reino Unido e para a Europa com sutileza e clima de tensão.

O start da história é o assassinato de um entregador de pizza sírio. Devido ao fato do rapaz ser um refugiado, paira no ar a dúvida se aquele foi ou não um crime de ódio e xenofobia. Através deste plot, Hare coloca na voz das personagens inquietações sobre os privilégios dos britânicos e como estes lidam com a vinda dos estrangeiros árabes. Além disso, o roteirista traz uma sensibilidade para com as relações e emoções femininas.  Juntamente com o olhar da diretora S.J. Clarkson (Jessica Jones), eles constroem uma boa dinâmica sobre a luta e os sofrimentos cotidianos do gênero.

Desde meados dos anos 1980, com Sombras do Passado, David Hare traz em seus trabalhos uma visão um tanto acertada sobre como as mulheres pensam e interagem. Collateral é o ápice desta característica do artista. As conversas entre as moças da série fluem diferentemente quando estão sozinhas. Elas se olham com um entendimento profundo, como se conversassem desta maneira.

Nestas horas, a direção e a fotografia trabalham em favor  deste diálogo silencioso, que parece ser muito relevante para Hare. Algo que mostra este cuidado da direção são as escolhas de enquadramento. Quando estas conversas mudas ocorrem, o quadro fica mais fechado – num close ou primeiríssimo plano que revela apenas a metade do rosto das intérpretes. É como se o público visse a cena por uma fresta – em um momento, o cabelo de uma das atrizes funciona como uma cortina que faz com que o foco vá diretamente para o rosto da investigadora do caso.

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Ainda nesta lógica de planos, há uma estratégia da minissérie para dar dinâmicas diferentes entre os momentos mais intimistas e os focados no crime. Enquanto no primeiro a câmera fica parada, com cortes mais curtos e com planos médios, na segunda há quadros mais longos ou sequenciais, nos quais o espectador acompanha as personagens, dando fluidez as ações narradas e deixando que assiste com a sensação de que está desvendando o mistério do crime junto com os detetives.

O movimento contínuo da câmera quase sempre está associado a detetive, Kip Glaspie (Carey Mulligan). Protagonista da história, ela é quem comada a investigação. Ela é também quem mais demonstra o sentimento de empatia e entendimento com as pessoas do mesmo gênero que o seu. Mulligan consegue passar esta sensação de entendimento da outra suavemente, com poucos gestos e olhares. Inclusive, toda sua atuação é sutil. Contudo, deixando detalhes perceptíveis que trazem complexidade para a sua Kip. Um exemplo é o sorrisinho de canto de boca que ela faz quando alguém lembra seu passado como atleta olímpica ou a sua postura corporal retilínea, com passos firmes e base plantada no chão, traços de seus dias de esportista e de seu presente como policial.

A minúcia da minissérie também aparece em detalhes de figurino que revelam transformações das personagens ou traços de suas emoções. Um bom exemplo disso é a árabe Fatima Assif (Ahd) que, aos poucos, vai deixando de lado pequenos elementos de sua cultura e ficando mais “britânica”. Essas modificações não são feitas de maneira gritante, são suaves e gradativas, deixando as figuras dramáticas ainda mais interessantes. Esta caraterística da indumentária pode fazer com que o espectador vá descobrindo estes discretos componentes impressos em Collateral, enquanto “investiga” o mistério mais evidente no enredo.

Apesar de muitas qualidades dentro da obra, ela peca em alguns momentos quando exibe diálogos expositivos e até mesmo redundantes. Algumas situações são inteligíveis de pronto, mas o texto reforça as ações com explicações repetitivas. Este recurso enfraquece algumas sutilezas – ponto forte do seriado. Quando esta profusão acontece, a qualidade da produção cai, mas nada que comprometa a sua totalidade. Collateral vale suas quatro horas de duração. Ela tem elementos técnicos bem realizados – tanto individualmente falando, como na convergência de seu conjunto – e um discurso claro, forte, que é transmitido de forma equilibrada com o tom investigativo.

 

 

[1] Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisadora do GRIM.

Dead of Summer – Primeira Temporada

Emissora Freeform aposta no estilo slasher adolescente no novo seriado da dupla criadora de Once Upon a Time

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Por Enoe Lopes Pontes [1]

1980: o Acampamento Stillwater é reaberto e com ele várias mortes começam a acontecer. Esta é a história de Dead of Summer (DOS), nova série da emissora Freeform e uma criação de Adam Horowitz e Edward Kitsis, roteiristas e produtores executivos das famosas Lost (2004-2010) e Once Upon a Time (2011-). Além dos dois artistas já conhecidos pelo público de televisão, Ian Goldeberg (Once Upon a Time) se juntou como showrunner neste projeto.

Numa atmosfera slasher movies à la Sexta-feira 13, durante dez episódios semanais, o espectador já sabe que existe a possibilidade de uma nova personagem ser assassinada. Apesar de possuir a premissa um tanto óbvia, Dead of Summer se segura em dois quesitos. O primeiro é a boa dinâmica do elenco, que constrói de forma segura as relações entre si, até mais do que com os próprios acontecimentos. Além disso, o grande triunfo do programa são os plot twists da trama que são assustadores, bem explicados e não gratuitos.

A narrativa segue um padrão parecido ao de Lost e Once Upon a Time. Com flashbacks sobre o passado dos monitores do acampamento, mesclados aos acontecimentos do presente, o público vai montando as peças do quebra-cabeça para entender quem está matando os colegas, fazendo os rituais satânicos e ameaçando a tranquilidade de uma pacata cidade no meio oeste dos Estados Unidos.

ELIZABETH LAIL, ELIZABETH MITCHELL

Caminhando na direção inversa do seriado Scream (MTV: 2014-), terror similar a DOS por ser um slasher adolescente, o programa consegue ir crescendo conforme a temporada vai avançando e deixando as personagens cada vez mais complexas. Os destaques na interpretação estão com Elizabeth Mitchell (Lost) e Elizabeth Lail (Once Upon a Time). Sem entregar spoilers sobre a série, pode-se dizer que as intérpretes conseguem demonstrar múltiplas emoções e estilos de personalidade em poucos episódios, intrigando e surpreendendo o espectador.

Outro destaque, que parece ser intencional na série, é forma como os criadores escolheram assustar o público. Existem figuras sobrenaturais na história. Demônios e fantasmas habitam Stillwater e isto vai ficando cada vez mais claro. Porém, o que incomoda e assusta de maneira mais intensa são os vilões vivos, estes que carregam machados, correm atrás da mocinha e (SPOILER ALERT) podem ser possuídos por livre e espontânea vontade.

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Por fim, existe mais um elemento positivo em DOS que merece ser destacado. Em produções anteriores, Horowitz e Kitsis foram cobrados por representatividade, principalmente em Once Upon a Time. Agora, em 2016, em Dead of Summer, parece que os dois procuraram se redimir. A trama traz a diversidade de forma bem planejada e realizada. Mulheres fortes, personagens negros importantes e fundamentais para o desenvolvimento da narrativa, casal homoafetivo, um rapaz transexual e uma garota fora do padrão hollywoodiano de magreza são a demonstração de que os produtores estão ficando mais conscientes de que todo o público merece ser representado nas telas.

Não há nenhuma novidade em Dead of Summer e ela poderia ser mais uma história de terror adolescente passada em um acampamento, mas existem coisas que conseguem salvá-la. A forma como o enredo é desenvolvido, as justificativas pelas quais as personagens resolveram ir trabalhar no acampamento, o entrosamento do elenco que faz a cena crescer quando está completo numa cena, a atmosfera de tensão causada pelas descobertas de vilania no programa, o carisma dos protagonistas e a diversidade fazem com que a segunda temporada seja desejada e esperada com uma certa ansiedade.

 

[1] Mestranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisadora do GRIM.

Crítica: Boa Noite, Mamãe

Por Enoe Lopes Pontes

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Tenso, profundo e perturbador. Essas três palavras descrevem bem o terror austríaco Boa noite, Mamãe (Ich seh Ich seh, 2015), que surpreende o espectador com sua narrativa intrigante e cuidadosa. O plot central do filme é aparentemente bem simples. Dois irmãos gêmeos recebem a mãe de volta em casa, após uma cirurgia que a deixou com um comportamento diferente do que a dupla estava acostumada. Além disso, ela retorna com o rosto coberto por ataduras, aumentando o pavor para com aquela figura que a mulher se tornou.

A partir disso, o clima de medo e terror é instalado. Lukas (Lukas Schwars) e Elias (Elias Schwarz) passam a temer sua progenitora, com direito à pesadelos macabros e brigas intensas com a mesma. Durante a projeção algumas dúvidas começam a surgir. Estariam as crianças imaginando algo que não existe ou a figura materna presente na residência passou por alguma experiência que a modificou a ponto dela se tornar outra pessoa?

O clima de conflito vai aumentando e Elias e Lukas passam a traçar juntos planos de combate para solucionar o mistério que envolve a mãe dos garotos. Enquanto isso, a moça apresenta mudanças radicais de humor, faz ameaças aos filhos, passa a ter ações violentas e exige uma modificação da rotina dos meninos, deixando o cotidiano mais pesado.

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No trailer do longa é prometido uma reflexão sobre a relação de mãe e filho, porém Boa noite, Mamãe vai além disso. Ele traz uma discussão complexa sobre a relação de irmãos gêmeos, algo que nem sempre é bem explorado pela indústria cinematográfica. No terceiro ato a questão fica ainda mais clara e a trama passa a demonstrar o poder do relacionamento de mabaços, como a união fraterna é singular e até mesmo perigosa.

A película constrói meticulosamente os momentos entre a dupla, mostrando como, principalmente, durante o período da infância a conexão entre gêmeos é fortíssima e talvez inabalável. São muitos elementos que ajudam na dinâmica dos dois. As brincadeiras cotidianas, o altruísmo de um com o outro, os olhares, os pensamentos parecidos, o companheirismo e uma amizade única e especial.

Entre uma pista e outra, o espectador acaba juntando as peças até ser apresentado para o cruel desfecho da história. Dirigido e escrito por Veronika Franz e Severin Fiala, o roteiro do filme demonstra um zelo dos autores, pois não há pressa em revelar os fatos. Ele instala uma ambientação que assusta o público sem ser óbvio e preenche a narrativa de momentos de desconfiança, tanto entre as personagens dentro da ficção, como na plateia. Sem sustos gratuitos ou estratégias mais trashs, o longa pode ser considerado um terror psicológico dos bons, justamente por escapar das estratégias mais comuns do gênero.

Boa Noite, Mamãe também conta com um elenco afiado, tanto os dois garotos quanto Susanne Wuest (a mãe). Na maior parte do tempo, tem-se os três atores em cena, que trabalharam juntos com muita organicidade, com o realismo na medida, sem afetações comuns de filmes de terror ou exagero nos gestos e nas falas. O trio equilibra bem as sensações que precisam ser passadas, trazendo na ambientação da história uma atmosfera de tensão e relaxamento constantes.

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Para a porcentagem do público que possui irmão gêmeo ainda existem questionamentos intrigantes, como: Até onde pode ir uma ligação entre gêmeos? Um consegue sobreviver sem o outro? Quais podem ser as consequências de uma separação? Será que ser gêmeo é tão esquisito assim? Como eu reagiria se fosse eu no lugar de Elias? Essas perguntas grudam na cabeça e não saem facilmente (Eu tenho uma irmã gêmea univitelina).

Outro destaque do filme é a paisagem bucólica que passa uma ideia sufocante de isolamento e provoca um certo desespero nos momentos mais intensos de combate entre mãe e filhos. O lugar, as personagens, a pouca música de fundo, todos estes elementos contribuem para a boa execução do terror em Boa Noite, Mamãe.

Parágrafo extra com Spoilers: Para quem viu o longa, um dado curioso é tradução do título original: Ich seh ich seh, Eu vejo eu vejo, em português. Essa frase dá uma ideia de repetição, devido aos protagonistas gêmeos e traz uma dica sobre seu desfecho.

Direção: Veronika Franz e Severin Fiala. Roteiro: Veronika Franz e Severin Fiala. Elenco: Elias Schwarz, Lukas Schwarz, Susanne Wuest.