Crítica: Mamãezinha Querida

por Wanderley Teixeira [1]

Mamaezinha Querida

Lançado com um certo alvoroço como uma cinebiografia póstuma da atriz Joan Crawford, Mamãezinha Querida foi rechaçado e tratado como ofensivo quando estreou nos cinemas em 1981. O filme dirigido pelo estadunidense Frank Perry (O último verão) contava parte da história de vida de uma lenda do cinema pelos olhos da sua filha adotiva Christina Crawford a partir de um livro de memórias de sua autoria, uma obra criticada até mesmo pela maior rival da atriz em Hollywood, Bette Davis, algo visto inclusive na série Feud: Bette e Joan.

Quando pequena, Christina relata ter sofrido inúmeros abusos da mãe, descrita pela jovem como uma estrela temperamental que descontava todas as suas frustrações com a indústria cinematográfica nela e no irmão Christopher através de agressões físicas e humilhações em público. A Joan Crawford de Mamãezinha Querida era um monstro, uma mulher implacável sobretudo com Christina, apresentando um comportamento bipolar que oscilava entre a amabilidade quando os elogios da filha massageavam seu ego com um comportamento agressivo e extremamente perigoso.

Estreando nos cinemas quatro anos depois da morte de Crawford, Mamãezinha Querida não foi um material de fácil digestão para o público. Os críticos repudiaram o filme de Frank Perry, sobretudo a atuação carregada da atriz Faye Dunaway como a lendária estrela de cinema. Na ocasião, o premiado crítico Roger Ebert escreveu “Não consigo imaginar um ser humano que deseje voluntariamente se submeter à experiência de assistir a esse filme”, enquanto Janet Maslin do The New Times analisava “Não há nada que una os episódios contidos nesse filme num drama coerente”. A repercussão foi tão negativa que, até hoje, sempre que concede entrevistas sobre sua carreira, a atriz Faye Dunaway impõe como condição que nenhum jornalista mencione o longa.

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Com o passar dos anos, o cenário de recepção se transformou. Mamãezinha Querida foi abraçado sobretudo pela comunidade gay, como relata o diretor John Waters em entrevista contida na recente versão em DVD do filme lançada pela distribuidora Obras-Primas.

Cada cena e fala da Joan Crawford interpretada por Faye Dunaway passou a ser celebrada num movimento ressignificação do longa, reconhecendo seu valor pelo caráter camp do próprio material. Entre as linhas mais marcantes do filme está aquela proferida pela personagem numa reunião de executivos na qual Crawford se impõe numa mesa predominantemente masculina (“Don’t fuck with me, fellas. This ain’t my first time at the rodeo”) ou um momento em que, tomada pela fúria, a protagonista pede um machado para podar a vegetação do jardim da sua própria casa (“Tina! Bring me the axe!”). Há ainda a imagem marcante da personagem com o rosto coberto por creme, vestindo um roupão e segurando um cabide pronto para desferir golpes contra a sua filha como punição por algo que Crawford atribui a Christina (“No wire hangers”).

Os momentos em questão adentraram, inclusive, na cultura do meme de nossos tempos, com fãs de Mamãezinha Querida reproduzindo-os em fotos no Tumblr e Instagram e até paródias para o YouTube. Além disso, não é incomum ver  de tempos em tempos admiradores do filme de todas as partes do mundo se reunirem em reexibições do longa em clubes de cinefilia e festivais.

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No fundo, Mamãezinha Querida é tudo aquilo que se diz dele, uma grande extravagância e um palco para a vaidade de uma diva (a atriz Faye Dunaway). O longa de Frank Perry é uma cinebiografia carregada por excessos que vão da interpretação exibicionista de Dunaway à maneira como a relação entre mãe e filha é melodramaticamente conduzida pelo diretor. Tê-lo em alta estima, portanto, acaba sendo mais uma questão de como o espectador se posiciona sobre os  caminhos “tortos” que o filme escolhe percorrer.

Os deslizes do longa quando existem estão menos na chave do drama quase caricatural que Perry adota do que na maneira como seu roteiro amarra os eventos da história dos Crawford. Em determinado momento, o prazer pelo número incontável de momentos singulares protagonizados pela criação de Faye Dunaway é substituído por uma sensação de esvaziamento, um sentimento de que a trama se arrasta.

Perry é honesto com o espectador no relato que faz sobre a vida privada dos Crawford. Do início ao fim, fica claro que Mamãezinha Querida parte de um ponto de vista sobre o tema e o olhar que ele adota é o de Christina Crawford, não o de Joan. Ainda que, no fim das contas, Crawford se transforme num tipo sedutor de vilã. Em alguns momentos, o diretor também se mostra consciente da própria canastrice do projeto.

O cineasta assume a extravagância do seu filme transformando o drama familiar dos Crawford num longa que parece dialogar com um tipo de produção pelo qual a atriz ficou conhecida na sua maturidade, longas de terror trash como Almas Mortas que ficaram notórios por trazer em seu cast atrizes veteranas como suas vilãs (algo que Feud: Bette e Joan também explorou muito bem).

Em Mamãezinha Querida, Frank Perry transforma Crawford em algumas das personagens interpretadas pela própria estrela de Hollywood, não à toa a referência à cena do machado que nos remete à imagem da atriz como Lucy Harbin em Almas Mortas, assim como também não é por acaso que Dunaway tenha optado em sua interpretação por traços do trabalho da própria estrela de cinema. Talvez seja um grande prazer culposo coletivamente endossado, o fato é que Mamãezinha Querida proporciona esse tipo de reconhecimento pelo espectador que detecta na Crawford interpretada por Faye Dunaway uma espécie de extensão de parte da mítica criada em torno da atriz, fomentada por ela e pela própria indústria. No século XXI, inevitavelmente, esse mito na forma de um filme hiperbólico como Mamãezinha Querida se transmuta em reapropriações de um culto que em 1981 sequer poderia ser cogitado. Coisas que só o tempo é capaz de proporcionar a uma obra.

Trailer do filme:

[1] Wanderley Teixeira é doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisador do GRIM.

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Crítica: Cinemagia – A História das videolocadoras de São Paulo

por Wanderley Teixeira [1]

Cinemagia-A-História-das-Videolocadoras-de-São-Paulo

Lançado em 2017 no circuito de festivais brasileiros, o documentário Cinemagia: A História das videolocadoras de São Paulo do diretor Alan Oliveira se reveste de uma aura que é parte do fascínio de toda uma geração cinéfila pelas videolocadoras, espaço de exercício da socialização do hábito de consumir filmes que dominou o Brasil nas décadas de 1980, 1990 e início dos anos 2000. O longa narra de forma cronológica a presença das videolocadoras no país tendo como enfoque geográfico a cidade de São Paulo, onde o vídeo clube inspirou o empresário Adelino dos Santos Abreu, conhecido no ramo pelo apelido de Ghaba, a fundar a primeira videolocadora do país, a Omni Vídeo. É também o cenário onde Oliveira e sua equipe acompanha o “fechar” de portas de nomes tradicionais do setor, como a 2001 e a Cinemagia, que dá título ao filme.

Bem diferente da rotina de funcionamento de uma videolocadora padrão como a conhecemos, em sua relação com as distribuidoras e sistema de locação, a Omni Vídeo e outras pioneiras do setor tinham uma lógica de funcionamento por demanda. No caso da Omni, o cliente ligava para a empresa procurando a fita de um filme X e o próprio Ghaba providenciava fora do país a VHS da obra em questão, sendo que, na maioria das vezes, eram cópias que não possuíam legendas ou tinham selos de distribuidoras. Numa época em que nem existia mercado de VHS e, portanto, nenhuma legislação para o ramo, o “pirata” era o próprio produto em circulação.

Além dos primeiros anos da Omni, Cinemagia traz outras histórias sobre as videolocadoras como o surgimento das primeiras locadoras de bairro, os primeiros grandes lançamentos na década de 1980, a entrada das distribuidoras no país com o boom do mercado e o surgimento de empresas especializadas na produção de Home Video como a CIC e a Look, a criação de associações e normas de conduta para o setor, a chegada da Blockbuster no país, a transição do VHS para o DVD (o momento de maior efervescência do nicho), a queda com a pirataria de DVDs e as facilitações dos serviços de streaming como a Netflix e a promessa ainda não cumprida de reativação do setor com o Blu-ray.

Cinemagia-Divulgação

Tudo é narrado por Oliveira com intuito algum de propor uma estrutura inovadora para o documentário, nem precisaria também. Cinemagia é moldado pelos depoimentos dos entrevistados por Oliveira, a maioria, donos dessas locadoras. O esforço do cineasta de catalogar as lojas e pessoas merece ser reconhecido como um ponto alto do filme, além da clareza com que ele constrói sua teia de informações sobre o tema para o espectador. O documentário tem algumas ingenuidades típicas de primeiro filme a partir de algumas escolhas que simplificam algumas ideias do diretor, como sua abertura na qual indaga a jovens de doze ou treze anos sobre videolocadoras – me parece óbvio que tais locais nunca fizeram parte da vivência deles quando o filme parece tratar a informação como algo surpreendente. No entanto, são pequenos problemas que significam muito pouco diante do volume de informações que Oliveira traz no seu filme.

Prioritariamente, Cinemagia acaba sendo uma história das videolocadoras como negócio, deixando um pouco de lado a mítica romântica do espaço como celebração da cinefilia que, possivelmente, inspirou todos esses personagens a fazer de um hobby seu principal meio de subsistência por tantos anos. No entanto, isso não tira o valor do filme, sobretudo porque no seu desfecho, ele encontra no gradual declínio das lojas uma maneira de se reaproximar da dimensão afetiva desse lugar para uma outra gama de personagens, como críticos que formaram parte dos seus repertórios em videolocadoras e cinéfilos de diferentes gerações que preservam o hábito de ver e ter o filme em mídia física. Talvez um equilíbrio maior nos olhares sobre as videolocadoras durante todo Cinemagia fizesse um bem maior a um filme que já tem um saldo bastante positivo com o espectador.

Trailer do documentário: 

[1] Doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisador do GRIM.