Crítica: Boa Noite, Mamãe

Por Enoe Lopes Pontes

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Tenso, profundo e perturbador. Essas três palavras descrevem bem o terror austríaco Boa noite, Mamãe (Ich seh Ich seh, 2015), que surpreende o espectador com sua narrativa intrigante e cuidadosa. O plot central do filme é aparentemente bem simples. Dois irmãos gêmeos recebem a mãe de volta em casa, após uma cirurgia que a deixou com um comportamento diferente do que a dupla estava acostumada. Além disso, ela retorna com o rosto coberto por ataduras, aumentando o pavor para com aquela figura que a mulher se tornou.

A partir disso, o clima de medo e terror é instalado. Lukas (Lukas Schwars) e Elias (Elias Schwarz) passam a temer sua progenitora, com direito à pesadelos macabros e brigas intensas com a mesma. Durante a projeção algumas dúvidas começam a surgir. Estariam as crianças imaginando algo que não existe ou a figura materna presente na residência passou por alguma experiência que a modificou a ponto dela se tornar outra pessoa?

O clima de conflito vai aumentando e Elias e Lukas passam a traçar juntos planos de combate para solucionar o mistério que envolve a mãe dos garotos. Enquanto isso, a moça apresenta mudanças radicais de humor, faz ameaças aos filhos, passa a ter ações violentas e exige uma modificação da rotina dos meninos, deixando o cotidiano mais pesado.

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No trailer do longa é prometido uma reflexão sobre a relação de mãe e filho, porém Boa noite, Mamãe vai além disso. Ele traz uma discussão complexa sobre a relação de irmãos gêmeos, algo que nem sempre é bem explorado pela indústria cinematográfica. No terceiro ato a questão fica ainda mais clara e a trama passa a demonstrar o poder do relacionamento de mabaços, como a união fraterna é singular e até mesmo perigosa.

A película constrói meticulosamente os momentos entre a dupla, mostrando como, principalmente, durante o período da infância a conexão entre gêmeos é fortíssima e talvez inabalável. São muitos elementos que ajudam na dinâmica dos dois. As brincadeiras cotidianas, o altruísmo de um com o outro, os olhares, os pensamentos parecidos, o companheirismo e uma amizade única e especial.

Entre uma pista e outra, o espectador acaba juntando as peças até ser apresentado para o cruel desfecho da história. Dirigido e escrito por Veronika Franz e Severin Fiala, o roteiro do filme demonstra um zelo dos autores, pois não há pressa em revelar os fatos. Ele instala uma ambientação que assusta o público sem ser óbvio e preenche a narrativa de momentos de desconfiança, tanto entre as personagens dentro da ficção, como na plateia. Sem sustos gratuitos ou estratégias mais trashs, o longa pode ser considerado um terror psicológico dos bons, justamente por escapar das estratégias mais comuns do gênero.

Boa Noite, Mamãe também conta com um elenco afiado, tanto os dois garotos quanto Susanne Wuest (a mãe). Na maior parte do tempo, tem-se os três atores em cena, que trabalharam juntos com muita organicidade, com o realismo na medida, sem afetações comuns de filmes de terror ou exagero nos gestos e nas falas. O trio equilibra bem as sensações que precisam ser passadas, trazendo na ambientação da história uma atmosfera de tensão e relaxamento constantes.

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Para a porcentagem do público que possui irmão gêmeo ainda existem questionamentos intrigantes, como: Até onde pode ir uma ligação entre gêmeos? Um consegue sobreviver sem o outro? Quais podem ser as consequências de uma separação? Será que ser gêmeo é tão esquisito assim? Como eu reagiria se fosse eu no lugar de Elias? Essas perguntas grudam na cabeça e não saem facilmente (Eu tenho uma irmã gêmea univitelina).

Outro destaque do filme é a paisagem bucólica que passa uma ideia sufocante de isolamento e provoca um certo desespero nos momentos mais intensos de combate entre mãe e filhos. O lugar, as personagens, a pouca música de fundo, todos estes elementos contribuem para a boa execução do terror em Boa Noite, Mamãe.

Parágrafo extra com Spoilers: Para quem viu o longa, um dado curioso é tradução do título original: Ich seh ich seh, Eu vejo eu vejo, em português. Essa frase dá uma ideia de repetição, devido aos protagonistas gêmeos e traz uma dica sobre seu desfecho.

Direção: Veronika Franz e Severin Fiala. Roteiro: Veronika Franz e Severin Fiala. Elenco: Elias Schwarz, Lukas Schwarz, Susanne Wuest.