CHÁ COM VERDADES

O documentário chileno La Once ou Tea Time (disponível na Netflix) transforma uma mesa de chá em lição sobre o que temos de mais humano

laonce_web-530x340
Por André Bomfim [1]

A cineasta chilena Maite Alberdi documentou durante 5 anos os encontros mensais de sua avó com um grupo de amigas, que assim o faziam há mais de 60 anos seguidos, desde que saíram do colégio. “La once” é como os chilenos chamam o lanche do fim de tarde, semelhante ao costume londrino. Batizado de Tea Time em inglês, o documentário de Alberdi é uma lição de como do mais simples cotidiano, pode-se extrair profundas revelações sobre amor, amizade, regras sociais, vida, morte e tudo o que temos de mais humano. À mesa alegre das senhoras são servidos afetos, memórias e generosas porções de verdade.

14335100571622_breaking

Alberdi conta em entrevistas que, durante os encontros, o equipamento de filmagem era ligado e a partir daí não havia nenhum contato da equipe com as personagens. Foi preciso mais de um ano para que elas começassem a ignorar as câmeras e expor as revelações mais íntimas. Alegres e dotadas de certo requinte aristocrático, as nove senhoras (apenas 4, após cinco anos), são carismáticas o suficiente para ganhar o espectador já nos primeiros takes. Em que pese também o apuro estético da diretora na captação caprichosa de detalhes, em particular os culinários. Aos poucos nos tornamos um décimo elemento da mesa, degustando imaginariamente guloseimas e divertidas memórias, como fazíamos com nossas próprias avós. Num dos saborosos diálogos, María Teresa (a avó de Alberdi) conta que encontrou um admirador secreto em suas sessões de hemodiálise e este lhe disse que era uma moça muito formosa. “Ele deve ter catarata”, retruca rapidamente Ximena, a mais divertida do grupo, levando a mesa aos risos.

Mas que ninguém se engane que o olhar lançado por Maite sobre o grupo de senhoras tem apenas a candura da neta. Em sua maioria viúvas de militares, as avós de Tea Time deixam, por instantes, vir à tona uma visão de mundo conservadora o bastante para azedar o patê. O grupo é capaz de atribuir a depressão de uma das amigas ao fato desta nunca ter se casado, quando esse seria o destino natural de toda mulher. Ou o aumento do número de lésbicas e gays à queda da instituição matrimonial. A única com posicionamento político de esquerda, María Teresa evita a todo custo tocar em assuntos polêmicos à mesa, com receio da dura repreensão das amigas. Lances que o bom espectador compreende como um reflexo da formação social dos países latinos, forjada em sua maioria, em extensos períodos de domínio militar.

Talheres, tortas, risos, ironias, desabafos… Tudo é captado pela olhar sensível de Maite. A cineasta fortalece com louvor o time dos adeptos do cinema direto, estilo de documentário que preza pelo menor grau de interferência na performance das personas, e que foi consagrado nos anos 70 pelos irmãos Mayles, autores de Grey Gardens (crítica aqui), outra pérola do gênero. Mas, ao contrário dos antecessores, Maite Alberdi não abre mão de um apuro estético singular, com destaque para a fotografia requintada e expressiva. Não por acaso, o preparo do chá em plano detalhe é o leitmotif que pontua toda a narrativa. As flores mergulham na água, que logo fica escura, densa e amarelada. “Não viva de fotos amarelas”, alerta uma das amigas a María Teresa, referindo-se à dor que pode vir à tona junto com as memórias e o passar dos anos.

Entre goles e garfadas, chistes e risos, surgem também os fantasmas da vida em sua fase crepuscular. O mais impactante é a morte, que solapa a cada ano o tamanho do grupo. E o mais cruel, o Alzheimer, que se manifesta de forma sorrateira, a cada reunião, em Inés. Mas nada que as doces senhoras não possam encarar com um alegre desembaraço. Juntas, elas provam que a amizade sincera ainda é o melhor remédio, e talvez o único, contra os efeitos colaterais dos males físicos, mentais e espirituais. Mais um gole dessa saborosa lição, por favor.

[1] Doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisador do GRIM.