Crítica: A Verdade sobre Marlon Brando (2015)

por Wanderley Teixeira*

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O ano de 2015 foi marcado por que conferir destaque significativo a documentários biográficos. Todos eles tiveram como propósito despir a personalidade criativa e a vida pessoal de artistas icônicos. Esta foi a proposta, por exemplo, de Amy, do diretor Asif Kapadia sobre a cantora Amy Winehouse, ou ainda de What happened, Miss Simone?, de Liz Garbus, sobre a lenda do soul  Nina Simone.

Nenhuma desses títulos consegue, entretanto, ser mais impactante do que A Verdade sobre Marlon Brando (no original, Listen to me Marlon), dirigido por Stevan Riley. Nele, as “honras da casa” são feitas pelo próprio biografado através de depoimentos gravados em fita cassete nunca antes revelada ao público e produzidas pelo ator ao longo de toda a sua vida como uma espécie de diário em sessões chamadas pelo próprio artista de “autohipnose”. Nos depoimentos presentes em A Verdade sobre Marlon Brando temos uma história de vida que se impõe pelo gênio do artista, pela maneira passional como conduziu suas relações e por suas contradições.

Marlon foi uma referência no seu campo, um profissional responsável pela mudança na maneira como a arte de interpretar personagens era feita até então pelos atores diante das câmeras. O trabalho de Brando tem uma herança presente na performance de figuras celebradas do nosso tempo, como Daniel Day-Lewis e até mesmo recém chegados (o Mad Max Tom Hardy). Marlon encabeçou em Hollywood a era do method acting, defendido pela atriz Stella Adler, sua mentora, como um movimento que buscava o realismo com inspiração no dramaturgo Stanislavski se contrapondo às atuações características das décadas de 1930 e 1940 no cinema.

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A Verdade sobre Marlon Brando não trata apenas dessa passagem na biografia de Marlon e, por esse mesmo motivo, acaba apresentando-se ao público como um filme tão especial. Através de uma edição dos inúmeros arquivos em áudio, fotos e vídeo conseguidos logo após a morte do ator em 2004, o público consegue ter uma dimensão da lenda do cinema, do gênio na sua arte, mas também do homem Marlon Brando. Através de um processo de auto-análise sobre a sua condição mítica e todas as implicações que essa imagem trouxe para a sua relações pessoais e para a forma como o ator passou enxergar o próprio ofício em determinado estágio da sua vida. Marlon saiu da excitação dos seus primeiros anos para desaguar num cinismo e desencanto com a indústria cinematográfica, algo que o transformou num burocrata da sua própria profissão, aceitando papéis pelo retorno financeiro fácil que muitos deles lhe davam. É nesse momento que, sem o menor pudor, Brando afirma em seu audio diário que aceitou viver Jor-El em Superman: O Filme, uma produção que na descrição inescapavelmente preconceituosa (e até rasa) do artista era “boba” mas que valia o “sacrifício”, afinal receberia um dos seus maiores cachês por apenas 12 dias de filmagem.

O mérito de A Verdade sobre Marlon Brando é esse: destrinchar seu protagonista a partir de um esforço de autorreflexão em tom de relato íntimo que por isso mesmo é extremamente revelador. Brando é sincero a respeito do seu próprio talento, mas também sobre o seu lado mais obscuro. O documentário revela ao público um sujeito sedutor pela sua segurança, bom humor e inteligência, mas também alguém por vezes não tão admirável por suas ranhuras de personalidade. Na maturidade, Marlon se tornou um homem isolado, melancólico e frustrado pelos caminhos inescapáveis com o advento da fama e por não ter conseguido poupar os seus dois únicos filhos do escrutínio midiático que se formou em torno da sua persona.

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Mesmo que siga a lógica temporal de uma biografia, A Verdade sobre Marlon Brando segue a estrutura  dispersa de um pensamento no movimento de auto-análise do ator. Pensamentos transversais irrompem subitamente nas imagens de arquivo. Nas palavras do realizador Stevan Riley, o filme é uma visita freudiano à alma Brando. A ordem cronológica traz uma história repleta de picos profissionais, seguidas de declínios, decepções e fúria com o cinema, sucedidos por reinvenções profissionais e amadurecimento pessoal.

Tudo é marcado pela sombra da infância complicada num lar administrado por uma mãe alcoólatra e um pai repressor. O documentário tem início com a chegada de Marlon a Nova York, seu encantamento pelo método de interpretação lapidado por Stella Adler, acompanha o auge dos primeiros anos da sua carreira sob a batuta do diretor Elia Kazan com Uma Rua chamada Pecado Sindicato de Ladrões, seu desencanto com o engessamento da sua própria arte a partir da percepção cada vez mais latente de que o cinema virara um negócio, o nascimento dos filhos Christian e Cheyenne, sua paixão pelo Taiti durante as filmagens de O Grande Motim, a reinvenção como ator para uma nova geração de cinéfilos nas performances de O Poderoso Chefão O Último Tango em Paris, seu envolvimento com questões de ordem política e social, como a luta pela igualdade racial e a causa indígena nos EUA, o segundo estágio de declínio profissional, quando foi taxado publicamente como um ator temperamental por diretores e estúdios após desentendimentos com Francis Ford Coppola em Apocalypse Now e sua tragédia pessoal quando o filho foi condenado a prisão por assassinar o cunhado e a filha, logo em seguida, cometeu suicídio. Marlon recorre à sua infância complicada para dar algum sentido a tudo que lhe acontecera, sobretudo para compreender as razões pelas quais teve um fim de vida tão solitário.

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Intercalando os depoimentos com imagens pessoais e trechos dos filmes que Brando protagonizou, A Verdade sobre Marlon Brando tenta ainda trazer uma presença do ator por meio da digitalização do rosto do ator que, aos poucos, ganha forma aos olhos do público. O recurso materializa tudo aquilo que sentimos ao longo das falas do ator, estamos em contato com um Brando à deriva em meio aos seus próprios pensamentos, reflexões e obsessões. No entanto, ele ganha uma forma mais completa, estruturada e visualmente definitiva na medida em que o artista amadurece e tem uma consciência mais firme sobre si.

Ao final de A Verdade sobre Marlon Brando o público tem uma percepção completa sobre uma personagem contraditória e, por esse mesmo motivo fascinante, tão apaixonante quanto todos aqueles que viveu no cinema. Como confessa em certa passagem do filme, Marlon gostava de preservar a sua vida pessoal, mas pontualmente parecia  disposto a se expor em “carne viva” com interpretações viscerais que inevitavelmente traziam um pouco das suas inquietações mais íntimas.

Ao longo do documentário é recorrente uma reflexão do próprio ator na qual entende que todos somos atores e que, de certa maneira, ele sempre teve que atuar mesmo fora dos sets dos seus filmes. Para Brando, atuar é mentir e, por instinto de sobrevivência social, estamos sempre mentindo. Mentimos sempre que dizemos ou fazemos coisas que realmente não queremos para sobreviver. Isso é atuação, fazemos isso para nos manter numa selva, é necessário. Em determinada passagem da vida de Marlon, seu ofício de fato foi isso: uma necessidade, uma sobrevivência, não mais uma paixão ou vocação. Um trabalho, uma urgência, um protocolo.

O ator encantado pela paixão e pela descoberta da vocação dos primeiros anos da sua carreira foi cedendo espaço para um profissional que passou a compreender da maneira mais seca e menos romântica seu ofício como uma forma de sobreviver. Marlon passou a  funcionar em Hollywood pela seguinte lógica: ganhar dinheiro para que no futuro não fosse mais necessário trabalhar por ele. No entanto, como o homem contraditório que evidencia ser ao longo de todo o documentário, o ator retorna ao seus momentos profissionais criativamente mais inspirado a partir de O Poderoso Chefão, sendo sabotado por seu próprio temperamento e pela dificuldade de lidar com a autoridade dos diretores, mesmo que eles lhe fossem tão generosos como Francis Ford Coppola.

Ao fim, o trabalho do documentarista Stevan Riley nos mostra que Marlon era um homem em busca de si, da sua identidade artística e pessoal, do seu legado. Nos encontramos diante de um homem atormentado pela sua condição humana e que nunca chegava a uma resposta definitiva para as suas próprias indagações. A Verdade sobre Marlon Brando nos mostra o mito, mas nos aproxima dele, nos faz perceber o quanto ele pode ser fascinante e apaixonante quanto a própria fantasia que criamos em torno dele.

*Doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Póscom/UFBA) e integrante do GRIM

A Verdade sobre Marlon Brando (Listen to me Marlon, 2015). País: Inglaterra/EUA. Direção: Stevan Riley. Documentário. Distribuição: Universal (disponível em DVD e serviços de streaming). 103 min.