Marias, elas não vão com as outras (2015 – )

Por Amanda Aouad *

“Maria vai com as outras” é uma expressão popular carregada de estereótipos e preconceitos que a marca de absorvente Intimus resolveu desconstruir em uma série que buscar falar diretamente ao seu público-alvo.

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“Marias, elas não vão com as outras” teve uma primeira temporada tímida em termos dramatúrgicos, mas já demonstrava extrema força e posicionamento. Tanto que contou com uma campanha de divulgação massiva com direito à mídia exterior em todo o país.

A série exibida na Rede Telecine e no canal do Youtube da marca tinha, como recorte, um dia na vida de seis Marias, cada uma com um segundo nome e uma personalidade própria. Maria Eduarda é cantora e está prestes a realizar seu primeiro show. Maria Luiza acaba de criar atrito com um rapaz na academia. Maria Carol descobriu que está grávida de um namorado de apenas quatro meses. Maria Fernanda é uma produtora que tem que encontrar um novo talento musical. Maria Laura está com problemas com a chefa e sua irmã Maria Paula está com uma nova paquera, mas não quer nada sério.

Cada episódio trazia um ponto de vista de uma das Marias, sempre com três minutos de duração e sempre terminando no show de Maria Eduarda. Era interessante a mudança de percepção do todo a cada nova informação com a aproximação de uma das personagens.

A direção de Vera Egito casava com a proposta da série, até mesmo por retratar tão bem o universo feminino em seus curtas. Percebia-se o cuidado estético com os detalhes de cena, planos que não se repetem, iluminação, ritmo da montagem. Tudo é bem cuidado. E a marca Intimus surge de maneira natural em cena.

Mas, talvez pelo recorte de um dia e a convergência de todas ali naquela boate, a trama acaba sendo superficial, não dá para conhecer muito da personalidade de cada uma ainda. A primeira temporada funciona quase como um teaser, um primeiro contato. E agora, com a segunda temporada, podemos perceber um pouco mais da proposta e desenvolvimento dos temas, o que eleva a série a um case muito mais instigante e envolvente.

Segunda Temporada: Agora sim, Marias.

No dia 22 de março, a Intimus lançou, agora em parceira com a Sony, a segunda temporada da série Marias. Não há mais o recorte de um dia, sem a visão múltipla de um mesmo acontecimento. Os episódios possuem cinco minutos cada e são exibidos na Sony na segunda-feira à noite, antes da série Grey´s Anatomy, indo para o canal do Youtube no dia seguinte.

Cada Maria, agora, tem um arco próprio desenvolvido em quatro episódios podendo tocar em assuntos do universo feminino com um aprofundamento maior, assim como desenvolver melhor as personagens. Elas continuam se mesclando, participando do mesmo universo, mas valorizando o protagonismo de cada uma há seu tempo.

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Os quatro primeiros episódios foram focados em Maria Luiza. O rapaz que ela conheceu (e brigou) na academia na primeira temporada, agora é seu namorado, como já insinuava o final do dia na boate. Mas o foco é no seu perfil na rede social e na exibição de sua vida saudável e repleta de exercícios. O problema é que, sem que ela perceba, acaba postando um vídeo fazendo exercícios menstruada, com o short sujo de sangue, virando piada na internet.

O drama pela vergonha, associada à raiva pelo namorado, que gravou o vídeo, não ter percebido o incidente, tornam Maria Luiza obcecada. É interessante a maneira como o roteiro toca em assuntos como ditadura da aparência, relação com as redes sociais e valores pessoais nesses quatro primeiros episódios. A questão da valorização da vida online em detrimento da vida off-line também tem espaço na trama e é desenvolvida de maneira sensível.

A direção geral continua sendo de Vera Egito, apesar dos episódios já trazerem uma equipe de diretoras. Nessa temporada, já percebemos uma estrutura de série mais tradicional, com abertura e créditos das diretoras ao contrário da primeira temporada onde não havia indicação de autoria, apenas o lettering “Intimus apresenta”, que continua agora.

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A direção de arte e atmosfera da série continua também valorizando esse universo feminino plural com pontos de vista diversos. E o posicionamento dessas diferenças também continua no texto. Em uma cena de café da manhã, por exemplo, Maria Luiza come frutas e granola, criticando Maria Carol por estar comendo “farinha branca”, ao vê-la cortando um pão francês. Mas a amiga não se importa com o comentário e continua seu desjejum tranquilamente.

A marca Intimus também continua surgindo de maneira discreta, no dia a dia das personagens em trocas de absorvente, sem precisar chamar a atenção para eles ou mesmo citar o nome. Isso faz com que o produto esteja ali inserido naturalmente, fazendo parte da rotina, sem quebrar a ilusão dramática.

O que chama a atenção na série são mesmo os temas e o tratamento do universo feminino. Além do cuidado com direção, fotografia, trilha e atuações, conseguindo um bom resultado enquanto produto audiovisual. A temporada está agora no meio da trama de Maria Laura, falando sobre assédio e posicionamento diante de desrespeitos diários que uma mulher pode passar, dando pistas de que ainda há muito a ser explorado. Só nos resta acompanhar.

* Doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Póscom/UFBA) e integrante do GRIM