Histórias em Quadrinhos e Recepção – Reflexões Sobre a Interação entre o Público e a Nona Arte

mesa_quadrinhos

O GRIM (Grupo de Pesquisa Recepção e Crítica da Imagem) da FACOM/PÓSCOM – UFBA, através do projeto ROTEIROS DE RECEPÇÃO,  o convida para a evento Histórias em Quadrinhos e Recepção – Reflexões Sobre a Interação entre o Público e a Nona Arte, no qual discutiremos a produção, edição e análise dos quadrinhos sob a perspectiva das relações com o público.
 
A mesa será composta por três profissionais da área: o professor da UNEB André Luiz Souza, o editor de quadrinhos Lucas Pimenta e a quadrinista Lila Cruz. Haverá espaço para a apresentação da trajetória de cada participante, seguida de debate mediado por Danilo Bittencourt em que questões sobre as interações entre realizadores, editores e analistas dos quadrinhos com o público leitor serão postas em discussão. 
 
O que: Histórias em Quadrinhos e Recepção – Reflexões Sobre a Interação entre o Público e a Nona Arte
Quando: 11/05/2016, 10h da manhã
Onde: Auditório da Facom – UFBA / Ondina
Anúncios

Crítica: La Dansarina

La_Dansarina-731x1024

por Danilo Bittencourt

La Dansarina é um álbum sobre o contato direto com a morte. E mais ainda, sobre a inevitabilidade da mesma. A morte, no trabalho do roteirista Lillo Parra e do desenhista Jefferson Costa, tem como pretexto a fatal epidemia da gripe espanhola, um golpe violento em uma humanidade recém ferida pela Primeira Guerra Mundial. A doença que varreu o mundo no começo do século XX, ceifando cerca de 40 milhões de vidas, nestas páginas, é representada pela bela, sedutora e mortal forma de uma dançarina hispânica. Mas La Dansarina não é um monstro, não é uma vilã; ela é o fio condutor e o fim implacável da história de vida dos personagens, cada um à sua maneira. E, de certa forma, de todos nós.

Acompanhamos o menino Petro em sua penosa jornada para enterrar a mãe recém falecida de gripe. Seus restos mortais permanecem esquecidos devido à superlotação dos cemitérios. Petro então decide a enterrar em uma capela distante, dado importante, haja visto que é recorrente na história a referência à religiosidade, cristã e afro-brasileira, quase sempre como elemento mediador entre os enfermos, o medo e a aceitação da morte. No caminho, o protagonista encontrará fragmentos linguísticos, bem registrados nos balões, daqueles que dariam forma, hoje, aos falares do povo brasileiro. O portunhol de Petro, filho de mãe espanhola, constitui, somado ao italiano, ao sotaque caipira de outros personagens e ao japonês, a variada paisagem linguística do Brasil de 1918. “Nessas terra tem gente de tudo canto do mundo. Mas se veio pará aqui… é pur que não sobrou mais nenhum lugá no mundo prá ficá”. É o que diz o barqueiro Baltazar, negro que transita entre a vida, a morte e os corpos, e que, como um bom Caronte, conhece as minucias e as motivações de cada viagem.

A construção da narrativa através das páginas se dá de maneira concisa, evitando passagens desnecessárias e fornecendo ao leitor rápidas elipses que cadenciam o ritmo das ações. Tudo parece um estranho flamenco no qual enxergamos as idas e vindas de La Dansarina. Todos perecem, ela, ao contrário, é eterna.  Ao mesmo tempo, as vinhetas proporcionam aquilo que Thierry Groensteen, teórico dos quadrinhos, chama de “entrelaçamento”: a construção de sequencias cujas coincidências gráficas proporcionam sua diferenciação em contraste com as demais. Em La Dansarina, a morte pode ser clara e ensolarada, com predominância do dourado sertanejo, salpicado de urubus famintos; ou, pode ser escura e taciturna, presente no sombrio quarto onde reside mais um cadáver, desejado pelas negras aves, em violeta e preto. La Dansarina é, sem dúvidas, um exemplo, entre outros, de que o mercado brasileiro de quadrinhos vive grande fase.

Crítica: LOGICOMIX – uma jornada épica em busca da verdade

Logicomix-capa

Por Danilo Bittencourt

Mais do que uma biografia em quadrinhos, Logicomix é uma amostra das potencialidades da nona arte e de sua capacidade de manusear tempo e espaço, contando, de maneira não muito convencional, a trajetória de um dos maiores pensadores do século XX: Bertrand Russell. Nascido em 1872, Russell foi matemático, lógico e filósofo. Além das suas contribuições acadêmicas, ficou conhecido pelo grande público por sua militância pacifista e pelo Prêmio Nobel de Literatura em 1950. Este álbum, escrito por Apostolos Doxiadis e Christos Papadimitriou, com desenhos de Alecos Papadatos e cores de Annie Di Donna, começa na Grécia, berço de muitas das ideias que influenciaram Russell. Mas, ao contrário do que poderíamos esperar, quem passeia pelas ruas de Atenas não é o filosofo, mas os próprios quadrinístas.

Logo nas primeiras páginas, percebemos que a trajetória de Russell será contada de uma maneira um pouco diferente. Ao invés da simples ordem cronológica, partindo da infância do matemático, no País de Gales, Logicomix apresenta três linhas de tempo e espaço, abordadas em alternância. Na primeira, acompanhamos, com a presença dos autores, os bastidores da produção da HQ. Temos acesso ao processo criativo do grupo, com direito a debates sobre uma “licença quadrinística”, capaz de ignorar o irmão mais velho de Russell. Destacaria, mais ainda, as observações de Papadimitriou. Ele, professor da Universidade da California, funciona como uma espécie de “nota de rodapé incluída na história”, esclarecendo pontos de possível confusão acerca dos conceitos lógicos e matemáticos. Temos então outra linha, a segunda, que dá conta de uma importante palestra conduzida por Russell nos EUA, às vésperas da Segunda Guerra Mundial (1939). Defendendo sua visão pacifista, o Russell maduro faz uma retrospectiva de sua trajetória, o que nos dará uma terceira linha de acontecimentos. Enfim acompanhamos os caminhos percorridos pelo pensador, da infância à idade adulta.

Russell0002resized

Mas, como não se confundir neste emaranhado temporal? Logicomix apresenta uma eficiente estratégia baseada em assinaturas gráficas, que definem com clareza, de que linha trata cada vinheta (figura acima). Além das diferenças de cenário, objetos e figurino, que demarcam muito bem as diferentes épocas – décadas de 2000 e 1930, além de boa parte do fim do século XIX e inicio do XX – ainda temos, por exemplo, requadros de vértices arredondados nos momentos da palestra, além da presença de legendas em que Russell narra seu passado, indexando suas memórias.

logicomix1

Logicomix pode parecer, à primeira vista, uma banda desenhada tão complicada quanto certas formulas matemáticas. Porém, além do bom uso dos recursos visuais, é muito fácil se deixar cativar pela figura de Bertrand Russell. De origem nobre e orfão aos quatro anos, o lógico foi criado por sua avó, uma mulher extremamente religiosa. Perseguido, durante toda sua vida pela grande recorrência dos problemas mentais na família, Russell temia ficar louco. Para sua avó, a esperança estava na religião. Para ele, na razão. Até mesmo nos piores momentos:

“Eu teria dado fim à minha vida ali mesmo… se não fosse a esperança trazida pela razão… a visão de um mundo totalmente lógico que eu tinha vislumbrado através da matemática”.

Ler Logicomix é também acompanhar as transformações que marcam o período vivido pelo lógico. Não faltam, nas suas 352 páginas, referências ao teatro (Ibsen), à poesia (Shelley) e à literatura (Turgueniev), entre outros. E as artes não aparecem apenas como marcações de determinados momentos históricos. Elas interferem diretamente no pensador, reverberando em suas ações. O traço de Papadatos é firme e dá precisão às formas. Como o desenho não tem hachuras, o sombreado fica à cargo das cores de Donna. Os personagens são representados em um ponto, entre o icônico e o realista, que os coloca em uma atmosfera mais descontraída, em contraste com o tema. Sua aparência de “desenho animado para crianças” retira o peso da “biografia de um matemático”, seduzindo o leitor, que muitas vezes tem uma relação traumática com os cálculos, levando-o para um mundo novo a ser explorado.

Segue, logo abaixo, o Making Of de Logicomix: