Crítica: Jackie Brown

Por Mariana Amoedo Amorimjb1

Escrito e dirigido por Quentin Tarantino,  Jackie Brown (1997) é uma adaptação cinematográfica do livro Rum Punch, de Elmore Leonard, que inclusive foi produtor executivo do filme. É também uma homenagem aos filmes do gênero blaxploitation da década de 70, a começar pela escolha da atriz principal: Pam Grier ficou conhecida por estrelar filmes de blaxploitation, a exemplo de Coffy e Foxy Brown. Este último serve inúmeras vezes de referência para Jackie Brown, que usa de certos recursos estéticos para fazer essa conexão.  A própria fonte de ambos os títulos é a mesma.

jb2O filme conta a história de Jackie Brown, uma aeromoça de 44 anos que trabalha para uma pequena companhia aérea mexicana. Ela fatura um pouco mais contrabandeando dinheiro do México para os Estados Unidos, para Ordell Robbie (Samuel L. Jackson), um traficante de armas, que está sendo investigado pela ATF (Bureau of Alcohol Tobacco Firearms and Explosives).

No retorno de uma dessas viagens, Jackie é parada por dois agentes da ATF. Na revista de sua sacola, são encontrados 50 mil dólares e um pequeno pacote contendo cocaína. Ela é então presa sob acusação de intenção de venda da droga. Para não ter que cumprir a pena estipulada e ver sua carreira afundar de vez, ela decide ajudar a pegar Ordell em flagrante. Para isso, conta com a ajuda de Max Cherry (Robert Forster), um agente de fianças.

jb3Jackie tem noção de sua condição. Pelo fato de ser negra e já ter 44 anos, além da mancha em seu passado, ela sabe que tem usar as oportunidades em seu favor,  e se revela bastante sagaz ao bolar uma complicada operação para garantir sua aposentadoria tranquila. Ela sabe o que quer, e não está para brincadeira. O filme questiona o ato de envelhecer, e nos leva a refletir sobre o que queremos para o nosso futuro.

O filme também conta com a participação de grande elenco:  Robert De Niro como o atrapalhado Louis (funcionário de Ordell e ex-companheiro de cela), Bridget Fonda como Melanie (uma das garotas de Ordell) e Michael Keaton, como o agente da ATF Ray Nicolette.

Jackie Brown é apresentada ao público logo nos créditos de abertura. Com um traveling, a câmera acompanha-a em uma esteira rolante enquanto os nomes vão passando. Essa sequência foi baseada numa outra de A Primeira Noite de um Homem, na qual Dustin Hoffman atravessa o mesmo local.

jb4A música acompanha o ritmo do andar de Jackie, que vai aumentando a velocidade conforme se aproxima do balcão da companhia aérea. Por falar nisso, a trilha sonora (como em todos os filmes de Tarantino) é espetacular, e dá o tom perfeito à ocasião. Um destes momentos memorávies é quando o Max Cherry vai buscar Jackie na prisão. Aqui, uma cena bem clichê: ao vê-la atravessando o pátio em direção ao portão, Max fica deslumbrado. Uma balada romântica acompanha a alternância entre a chegada de Jackie e a câmera que lentamente se aproxima do rosto de Max. Em Jackie Brown, são ainda utilizadas várias músicas originalmente presentes em filmes blaxploitation.

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Diferente de outros filmes de Tarantino, a narrativa não é tão episódica e fragmentada. O filme segue uma ordem cronológica, com exceção de um recurso de flashback aqui e ali. Um dos pontos altos da narrativa é a recriação de um acontecimento em 3 pontos de vista diferentes. O tempo diegético é informado na tela a fim de situar o espectador. Apesar de relativamente longo, 154min, não há nenhuma cena descartável. Com Sally Menke na equipe seria difícil isso acontecer. O filme tem um bom ritmo, e essa duração permite que os personagens sejam explorados mais profundamente. De Niro se sai muito bem num papel bastante improvável. Sua expressão ao assistir o showzinho de Simone é algo.

O filme também não é violento como os outros de Tarantino, tanto implícita quanto explicitamente. O diretor foi muito competente ao se enveredar por outros caminhos. A única cena em que se vê sangue sendo espirrado é a morte de Louis no carro, e isso me remeteu imediatamente à cena do carro em Pulp Fiction. Os diálogos são bastante espirituosos. A discussão do porta-malas, a discussão do agente x empresário traz um humor à tona. Parte desse humor vem também de referências à cor da pele, com negro fazendo graça com a etnia. Samuel L. Jackson brilha como Ordell Robbie, e repete inúmeras vezes the  ‘N’ word.

As duas únicas coisas que me incomodam no filme são dois erros de continuidade: um de maquiagem, e outro de posição em que certo objeto foi deixado. Sim, eu sou chata com essas coisas.

Ficha Técnica:
Jackie Brown
1997 – cor – 154 min
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Pam Grier, Robert Forster, Samuel L. Jackson, Robert De Niro, Bridget Fonda e Michael Keaton.

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