Crítica: Mal do Século (Safe, 1995)

Por Wanderley Teixeira safe_julianne moore ! Em meados dos anos 80, a epidemia da Aids atinge índices de mortalidade preocupantes e vive o auge da sua popularidade nos noticiários de todo o mundo. Na mesma década, mais precisamente em 1984, a chamada febre purpúrica leva crianças entre 3 meses e 8 anos de idade a estágios clínicos preocupantes no interior de São Paulo.

Malária, febre amarela, sarampo, cólera, leishimaniose, dengue… Ciclos de epidemia surgem com muita frequência alarmando a população, as autoridades públicas de saúde e criando  neuroses urbanas. Mobilizado por esta percepção, o diretor Todd Haynes estreia Mal do Século (Safe), seu segundo longa-metragem, em 1995.

Mal do Século se passa em 1987 e traz Julianne Moore como Carol White, uma dona de casa que mora com seu marido e enteado num subúrbio californiano. White é surpreendida por tosses, crises de asma, sangramentos nasais e outros sintomas que ela acredita que são reações alérgicas a produtos químicos indiscriminados. Os médicos consultados não conseguem fazer um diagnóstico preciso sobre as causas da suposta doença e suspeitam que tudo seja fruto de ansiedade ou estresse. Em dado estágio da narrativa, o estado da personagem se agrava, ela busca fontes de terapia alternativa, se isola no campo e o público questiona se aquilo que Carol está passando é mesmo real ou se tudo não passa de uma paranoia potencializada pela vida urbana e por todos os seus  estímulos.

Trailer de Mal do Século:

Todd Haynes traz para Mal do Século a perspectiva paranóica que sua protagonista Carol White tem de tudo a sua volta. É constante no longa a sensação de risco iminente diante de qualquer experiência banal da protagonista. Temos sensações incômodas com um trivial copo de leite tomado pela personagem, quando ela passa produtos químicos no cabelo ou quando visualizamos a fumaça de um caminhão no agitado trânsito da cidade grande. Há um medo crescente gerado por ações rotineiras reforçado por uma trilha que sugere a tensão como estado emocional  e por uma câmera que acompanha lentamente esses pequenos eventos na vida de Carol, colocando-a como presa indefesa da sua própria obsessão ou dos agentes imperceptivelmente nocivos do cotidiano.

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O sentimento de paranoia que também é reforçado pela recorrência de enquadramentos nos quais a protagonista surge sozinha em ambientes amplos que evocam uma calma e um silêncio perturbadores e desconcertantes, como sua casa ou o estacionamento de um prédio. Nesses instantes, Haynes sinaliza o quanto somos pequenos e indefesos diante daquilo que nos é fisicamente menor, como os vírus e as bactérias, imperceptíveis aos olhos humanos, e que por esta mesma razão acabamos muito vulneráveis a eles, sendo eles reais ou não.

1406482515011.jpg-620x349 20140428-mac Mal do Século pode não ser um dos títulos plasticamente mais refinados de Todd Haynes. Acostumados à exuberância visual de Longe do Paraíso (2002) ou ao anseio vanguardista da narrativa de Não Estou Lá (2007), nos deparamos com um exemplar diferente na carreira do diretor com o seu longa de 1995. Aqui, vemos um Haynes mais seco.

O que torna Mal do Século um filme instigante e cada vez mais atual é que ele não faz questão de responder a sua dúvida central: Carol é ou não vítima de uma alergia generalizada àquilo que é químico?  Assim, o filme nos apresenta uma sociedade com riscos por toda parte. Estamos vulneráveis com aquilo que ingerimos e passamos nos nossos corpos, somos expostos à violência, estamos vulneráveis nas relações sexuais, as informações da mídia são conflitantes e tendem a um sensacionalismo…

Quando se isola da sociedade no rancho e fica um tempo sem apresentar os sintomas da sua doença, Carol tem a sensação de que seus ataques de asma podem retornar assim que fica sabendo da morte de uma das pessoas alojadas no local. Além disso, toda a terapia do rancho é baseada não apenas no isolamento físico, mas também no cultivo de pensamentos positivos e isto, até certo ponto, parece surtir efeitos em Carol.

Estamos cada vez mais ansiosos, nervosos, com baixa auto-estima, propensos a depressão e tudo isso passa a ser sinalizado fisicamente.

Independente da conclusão que o espectador tenha –  e é possível que ele não chegue a conclusão alguma – , o que importa em Mal do Século é que no mundo ou na sociedade que vivemos não estamos imunes a nada, nem a nós mesmos. Nessas circunstâncias, se estamos no mundo, não estamos protegidos de nada

Notas:

Mal do Século foi o segundo longa-metragem da carreira de Todd Haynes. Anos mais tarde o cineasta se popularizaria com os filmes Velvet Goldmine (1998), Longe do Paraíso (2002) e Não estou lá (2007), além da minissérie da HBO Mildred Pierce (2011), protagonizada por Kate Winslet e Guy Pearce. Antes de Mal do Século, Haynes só havia dirigido um longa-metragem, Veneno (1991).

O filme também foi responsável por dar ainda mais fôlego à carreira cinematográfica da atriz Julianne Moore. Localizando Mal do Século na sua filmografia, o longa estreou após Short Cuts – Cenas da Vida (1993) e antes de títulos como Boogie Nights (1997), Magnólia (1999), o próprio Longe do Paraíso de Haynes e os recentes Para sempre Alice (2014) e Mapas para as Estrelas (2014). Mal do Século foi indicado a alguns prêmios, entre eles o Independent Spirit Awards nas categorias filme, direção, roteiro e atriz. O longa foi exibido no Brasil somente em alguns festivais e sequer teve o seu lançamento em DVD. Recentemente, a Criterion Collection lançou uma edição comemorativa de 20 anos do filme em Blu-Ray e  o jornal The Guardian promoveu um encontro entre o diretor Todd Haynes e a atriz Julianne Moore para falar sobre suas parcerias em Mal do Século Longe do Paraíso.

Trecho da conversa entre Haynes e Moore para o The Guardian:

Ficha Técnica:

Safe 1995 – cor – 119 min

Direção: Todd Haynes. Roteiro: Todd Haynes. Elenco: Julianne Moore, Xander Berkeley, Steven Gilborn, Dean Morris, Chauncey Leopardi, Ronnie Farer, Jodie Markell.

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