Crítica: Sense 8 (Netflix, 2015 – )

Por Amanda Aouad

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Oito pessoas, em oito países diferentes, mas uma ligação psíquica que as fazem compartilhar sentimentos, sensações, habilidades e pensamentos. Assim é Sense 8, a nova série da Netflix, produzida pelos irmãos Wachowski e J. Michael Straczynski.

A primeira temporada, composta por doze episódios, foi disponibilizada na íntegra no início do mês de junho, como tem acontecido com a maioria das produções próprias no Canal VOD. Isso torna a própria experiência da série diferente daquela narrativa em que precisávamos esperar uma semana para o próximo episódio, o que também se reflete na mesma. Não que Sense 8 seja feito para ser vista em uma maratona insana de quase doze horas, mas é preciso contar com essa possibilidade também. E nisso há problemas e acertos na obra que traz boas reflexões sobre as relações humanas no mundo em que vivemos.

A trama mistura realidade e fantasia em um mundo onde existem pessoas sensitivas capazes de se conectar em grupos. Componentes de grupos distintos, no entanto, podem se conectar também, caso haja um contato visual entre eles. Assim, um policial em Chicago, uma DJ em Londres, a filha de um poderoso empresário em Seul, um motorista de ônibus em Nairobi, um ator no México, uma farmacêutica em Dubai, uma hacker em São Francisco e um ladrão em Berlim começam a compartilhar suas vidas, enquanto três componentes de outros grupos se ligam a eles de alguma maneira. Angélica, que uniu os oito, dando-os à luz. Jonas, seu amante, que parece querer ajudá-los. E Sussuros, um ser misterioso que se demonstra o vilão da trama.

Sense8

A construção narrativa nos leva a perceber que Sense8, apesar de ter aventura, suspense, comédia e fantasia, é um melodrama sobre pessoas comuns. Personagens espalhados pelo mundo em estereótipos aparentes que vão se desnudando para nós à medida que os episódios vão sendo apresentados. E aí, a forma como você escolhe assistir aos episódios pode trazer diferenças na experiência. Vendo os episódios na sequência, pode-se ter uma sensação de reforço exagerado de algumas informações, assim como um excesso de clipes musicais que mostra o grupo interligado. Porém, também há a possibilidade de aprofundar os personagens mais rapidamente, o que a apreciação com intervalos dilatados, pode dar a sensação de que está demorando muito para acontecer.

Não que, em algum momento, a obra chegue a ficar cansativa. A montagem mesclando os oito mundos dos protagonistas dá dinâmica à série e algumas inserções musicais chegam ao primor artístico, como a inteligente inserção da música What’s up, de 4 Non Blondes, que traduz de maneira bastante eficaz tudo o que aqueles personagens sentem. Ou ainda um concerto musical inusitado que traz uma revelação profunda não apenas da ligação daqueles seres como o momento mais importante de suas existências em um raccord visual que vai cadenciadamente nos levando ao clímax da temporada. A diferença da apreciação é apenas na compreensão do sentido principal da série, que é nos envolver e emocionar com aquelas pessoas para que nos importemos com elas.

A mitologia dos sensitivos criada pelos Wachowski e Straczynski, então, é apenas o elemento diferenciador da narrativa que possibilita que acompanhemos todos juntos e atiça a nossa curiosidade para irmos aprofundando o tema. É impossível entender os pormenores dela em apenas uma temporada. E nem a série se presta a isso, já que foi pensada para uma jornada mais longa que essa. Ainda assim, é possível tirar aqui alguns simbolismos com o nosso mundo, já que os criadores de Matrix sempre estão em busca de uma crítica social em suas obras.

A conexão dos sensitivos pode ser uma metáfora das próprias comunicações humanas, que interligaram o mundo após o advento da internet. Comunicamo-nos em grupos, seja em comunidades virtuais, fóruns onlines ou redes sociais. Essa parece uma comparação óbvia. Mas, quando observamos que essas pessoas comuns representam a diversidade de uma sociedade que ainda está aprendendo a lidar com as diferenças, a comparação ganha força, principalmente, porque eles estão sendo perseguidos.

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Há homossexuais, transexuais, mulheres reprimidas em sociedades machistas, homens ricos e pobres, negros, brancos, amarelos. Seres humanos em busca de seu lugar no mundo. Mas, que começam a ser ameaçados por um inimigo em comum que quer encontrá-los e operar os seus cérebros para dominá-los. Assim, podemos supor que Sussuros, o vilão, seja uma representação do lado ruim da sociedade, sempre tentando controlar a vida alheia a partir de seus preconceitos e jogos de interesse.

De qualquer maneira, esses são apenas detalhes que enriquecem a experiência. Como já foi dito, o que importa são essas pessoas e suas vidas extraordinariamente comuns. Para quem está em busca de uma nova série de ficção científica isso não deixa de ser uma decepção. Mas, para quem gosta e embarca na vida destas oito pessoas, a mágica acontece. Começamos a nos prender a eles, como se fizéssemos parte também daquele grupo e isso torna a experiência ainda mais bela nos dando vontade de, junto com eles, gritar “hey” e perguntar “o que está acontecendo” enquanto rezamos por esta “revolução” da diversidade.

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