Crítica Little Fires Everywhere

Por Enoe Lopes Pontes [1]

Little Fires Everywhere, com Reese Witherspoon e Kerry Washington ...

Procurando estabelecer um clima de mistério e se aprofundar nas relações humanas, Little Fires Everywhere é uma adaptação da obra homônima de Celeste Ng. Criada e produzida por Liz Tigellar (Nashville), a série estreou no Brasil em 22 de maio, pelo canal streaming Prime Video. Com algumas modificações em relação ao livro, a produção investe em discussões raciais e sociais. Ambientada no final dos anos 1990, há uma busca por expor a visão deturpada dos privilegiados, ao passo que as personagens consideradas como minorias sociais são claras, diretas e expressivas. Este é o ponto alto do seriado, que não floreia o encaminhamento das tensões e expõe dores e lutas cotidianas de quem convive com típicos opressores.

Além de um roteiro preenchido de diálogos certeiros, uma das chaves para o bom desenvolvimento desta parte da narrativa é a construção da protagonista, interpretada por Kerry Washington (Scandal). É possível perceber, desde os detalhes até os aspectos mais gerais, como a atriz utiliza a tonicidade ao seu favor e jamais demonstra um corpo que descansa. É como se a sua Mia Warren estivesse sempre em alerta! Outro fator que chama atenção são as quebras repentinas que ela traz ao seu papel, principalmente quando deseja esconder seus sentimentos e externalizar uma aparente realidade falseada. Um exemplo são suas sequências ao lado de Elena Richardson (Reese Witherspoon). Sempre que a mesma se despede, realiza inúmeras expressões faciais, mescladas com tons de voz, que fazem o público se questionar incessantemente até onde Mia vai.

Amazon Prime divulga data de 'Little Fires Everywhere'

Contudo, apesar do texto ser afiado e pontual quando se tratam de assuntos mais políticos, os desdobramentos da trama relacionados ao mistério central e ao cruzamento das narrativas vão perdendo a força gradualmente. É como se o fogo que mora no título fosse se apagando. Desta maneira, o foco do enredo passa a se distribuir pelas histórias dos coadjuvantes, deixando de lado a chance de explorar mais extensamente a rivalidade entre Elena e Mia. Este direcionamento não seria necessariamente negativo, a contribuição dos plots do elenco secundário poderia apenas favorecer e fomentar a premissa principal. Mas, o oposto acaba acontecendo.

Algo que colabora para esta queda é a constante planificação de Elena. A sensação é de que a qualquer momento uma camada nova ou diferente surgirá. No entanto, nos primeiros minutos de exibição já é possível ter certeza de quem é aquela figura e como ela irá agir. Talvez, por esta razão, Witherspoon não vá muito além do óbvio em seu trabalho. No começo da temporada fica uma esperança de que ocorrerá um crescimento gradativo, porém o que surge como uma surpresa positiva, com uma atuação preenchida de minúcia, vai se transformando em tédio e previsibilidade, porque o amadurecimento ou a virada dela não chega jamais.

LITTLE FIRES EVERYWHERE EPISODE 4 CLIPS: Mia Warren Battles Elena ...

Esta dinâmica esperável também habita elementos mais técnicos da obra. As repetidas temperaturas azuladas e avermelhadas anunciam melancolia e lembranças, juntamente com embates e discussões, respectivamente. Os símbolos não são dos mais incomuns. Contudo, no princípio, guardam consigo certo valor, pois instauram a atmosfera que será apresentada no enredo. Depois, estes significados vão morrendo e se dispersando, passando um quê de incerteza de suas presenças. Isto se confirma quando as angulações e movimentos de câmera são notados, pois estes são mais diversos em seu start mas, em seguida, vão se transformando em menos criativos.

As escolhas que mais trazem as emoções necessárias para cada momento são as da diretora Lynn Shelton (New Girl). Com travellings e panôramicas, por exemplo, a dimensão dos acontecimentos ganham um novo tom e significado. A iminência de um perigo, que ainda não se sabe o que é, permeia as cenas com maior intensidade. Dentro dessas irregularidades, o mais incômodo é o desperdício do clímax próximo da finale. Todos os esforços de Mia, os 14 anos de mudanças e um segredo escondido tão profundamente têm uma resolução simplista, algo desconexo com a progressão das personagens. Nos dois últimos episódios, o sofrimento, a angústia e as lutas vistas anteriormente, soam como irrisórias ali. Ainda assim, vale a pena acompanhar a minissérie em sua totalidade, principalmente pelo o que ela diz e como o faz discursivamente.

[1] Doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisadora do GRIM.

 

   Crítica The Politician

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Por Enoe Lopes Pontes [1] 

Criada por Ryan Murphy (American Horror Story), a serie The Politician é uma produção da Netflix, que narra a vida de um jovem estudante que sonha em ser presidente dos Estados Unidos. A própria premissa já pode preocupar os espectadores um pouco mais focados em questões sociais. Contudo, ao ver o nome de Murphy como showrunner a sensação de encontrar mais uma trama batida se desfaz e fica certa esperança de que a abordagem dos conteúdos políticos sejam vistos sob um olhar mais crítico.

Contudo, por mais que Ryan Murphy insista em proclamar a sua sensibilidade diante das chamadas minorias sociais, lhe falta alguns traços de lucidez em relação a esta sua vontade.  Com a rara exceção do seriado Pose, o artista peca em seus trabalhos por imprimir estereótipos um tanto machistas, fazendo, por exemplo, figuras femininas acima tom, que se enervam de maneira “aguda”, revelando a visão misógina em relação às mulheres. Outro fator é como ele joga para escanteio personagens negras que são constantemente subaproveitadas no enredo e, em alguns casos, como em The Politician, “esquecidas” na história.

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Estes elementos podem ser vistos não apenas no discurso da obra, mas em elementos técnicos como em enquadramentos, temperaturas e movimentos de câmera. O foco está na maior parte do tempo no menino branco no qual a história é centrada e seu tempo de tela em maior, ainda que em sequências de contracena. Resta, assim, somente uma sensação de que nada mais importa além do protagonista Payton Hobart (Bem Platt) e que, assim como ele mesmo pensa, tudo gira ao seu redor. A noção de egoísmo e individualismo de um homem branco privilegiado poderia ter entrado apenas com uma visão crítica e isto justificaria, talvez, o enviesamento. Porque ao mesmo tempo que o olhar vai para o rapaz, lampejos de força e nó estão em outras pessoas, que ficam à margem. Além disso, Murphy parece reforçar padrões normativos da sociedade.

Quando importa mesmo, Hobart procura se afiliar em um relacionamento heteronormativo, com a Alice (Julia Schlaefer) e fazer alianças com uma jovem branca heterossexual, a Infinity Jackson (Zoey Deutsch). Inclusive, estas duas personagens são extremamente inconstantes na narrativa. Ambas parecem ser o ponto de equilíbrio e desconforto de Payton, mas os conflitos que elas trazem e possuem somem e desvanecem recorrentemente. Os micro plots desviam o olhar da história principal, que também não tem muito para onde ir e poderia ser um filme de 70 minutos. A grande complicação parece ser a de Payton Hobart vencer a disputa eleitoral de seu colégio. Como isto não se sustenta, outras problemáticas são postas, mas elas não fomentam a discussão principal e não movem o protagonista.

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Este fator se confirma quando um pouco antes da temporada terminar, os roteiristas eliminam a importância das peripécias e dores vividas durante a produção e criam uma nova problemática, numa espécie de reset. Esta ausência de vigor da escrita faz com que o ritmo não se estabeleça e nem pode-se dizer que este é fraco, porque a questão aqui é que o fio condutor se quebra, antes que uma dinâmica fluida possa ser elaborada de maneira rítmica.

Para além das questões políticas, alguns elementos provocam incômodo, no geral. O fato do candy color ser utilizado para transmitir um ar de juventude e falhar, pois é difícil de acreditar que os atores na tela estão no ensino médio ou que há leveza juvenil, seja pelos diálogos ou posturas corporais. Além disto, as vontades e motivações das personagens criam um distanciamento com espectador e isto é reforçado nas escolhas da equipe, como um desgaste na utilização de foco/desfoco, que cansa, pois não está ali para ajudar a criar nada para o conteúdo em si, os zoom in/zoom out recorrentes e as pontas soltas do roteiro que procuram criar tensão, mas são negadas insistentemente.

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Um dos destaques positivos, porém, é a presença de Gwyneth Paltrow (Glee), que traz para suas cenas uma tonalidade que quebra a artificialidade da atuação dos outros intérpretes. Paltrow consegue performar o tom sarcástico necessário para o que a obra busca, mas faz isso com delicadeza, trazendo sonoridades e tempos múltiplos, sem entrar numa espécie de “música” ou sendo monocórdica, como acontece com todos os atores com os quais ela contracena. Já Jessica Lange fica apagada diante de toda a quantidade de reviravoltas e situações que fogem do fio narrativo principal. Além disso, ela parece performar uma caricatura de seus outros papeis com Murphy, em American Horror Story. É como se fosse uma Constance Langdon, menos esperta e mais sulista.

O que estas decisões transmitem é uma oportunidade de testar uma estética e estilos, mas que acabam tornando a experiência enfadonha. Desta maneira, The Politician procura evocar cores, jogos cênicos, quadros e sequências intensas, mas causam cansaço e distração.

 

 

[1] Doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisadora do GRIM.

Crítica: Dead to Me

por Enoe Lopes Pontes [1]

A primeira coisa notável em Dead to me, nova série da Netflix, é seu título. É curioso perceber que a cada episódio a frase vai ganhando novos sentidos e direcionando a mente do espectador para a tentativa de ir desvendando os mistérios e as razões das tensões entre certas personagens. O nome em português, Disque Amiga para Matar, está bem relacionado com a obra. No entanto, ele traz menos complexidade para a interpretação da história e entrega muito do que ela será, em alguma medida.

O seriado é um suspense, com pitadas de humor sombrio, que consegue ir revelando cuidadosamente os detalhes sobre as personalidades das personagens e quem elas realmente são. Criado por Liz Feldman (2 Broke Girls), a produção é estrelada por dois nomes relevantes dentro do universo de narrativas seriadas televisivas: Christina Applegate (Um Amor de Família), que vive Jen, uma mulher que perdeu o seu marido, pois ele foi atropelado e deixado sem socorros; e, Linda Cardellini (Freaks and Geeks) que é Judy, uma moça que possui problemas com seu ex-noivo e tenta se recuperar do luto. Pelo menos, esta é a premissa da narrativa.

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Para a criação de atmosfera, o diretor de fotografia Daniel Moder (Olhos da Justiça), juntamente com as diretoras de arte Amelia Brooke (Stuck in the Middle) e Jaclyn Hauser (Silicon Valley) dividem as cores e as temperaturas impressas na tela. Enquanto no presente há a predominância do marrom, amarelo e branco, nos flashbacks – ou em momentos que remetem ao passado – há um azul esverdeado mais forte. A escolha soa como uma busca da criação de um paralelo entre o outrora em que Jen e Judy não se conheciam e passavam por momentos muito difíceis, tristes e assustadores, com este novo start que tem pinceladas de esperança e expectativas, mas que os conflitos parecem queimar suas vidas, por isso as paletas mais quentes.

Essa criação também aparece estampada nas atuações de Applegate e Cardellini. De maneiras distintas – talvez opostas, devido ao fato de Jen ser mais sisuda e amarga e Judy mais doce – as duas escondem seus sentimentos e possuem momentos de explosão e revelação das emoções que procuram não transparecer. Isto, porque não o podem fazer. Ambas têm segredos e acabam evidenciando lentamente a totalidade de suas personalidades. Há, na interpretação dos papéis e no que está escrito no texto que dizem, uma complexidade presente nelas, ao ponto de elementos que determinam quem é quem estarem, pontualmente, na outra. Assim, a identificação e o entendimento profundo entre a dupla é sentido constantemente.

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O roteiro também é bem sucedido na forma como mostra os homens da trama. Sem maniqueísmos, o enredo vai trazendo a discussão sobre a impunidade que figuras masculinas recebem da sociedade e como eles podem ser algozes “disfarçados” de pessoas cotidianas. Este fator é trazido de forma sutil e muito dos créditos deve-se a atuação de James Marsden (Westworld) que mescla o seu carisma e um ar de galã, com frases pesadas presentes no script.

O equilíbrio do peso durante as sequências também é fruto da utilização da música e de sons. Momentos de raiva, por exemplo, são embalados por heavy metal intenso. Situações irônicas vêm com um jazz, anos 1950/1960, fomentando o clima desejado. As lembranças de momentos assustadores para Judy não possuem canções, somente ruídos e a voz de seu companheiro, que dão destaque para o terror vivido por ela.

Ainda que, no geral, o material seja bom, Dead to Me peca quando traz alguns diálogos expositivos demais. Esta característica aparece, principalmente, nos episódios iniciais. A sensação é a de que Feldman e seus colegas de escrita subestimaram quem iria assistir o conteúdo deles e procuraram explicar demasiadamente, quase didaticamente, o que ocorreu anteriormente nas vidas dos indivíduos em cena. Apesar disso, a qualidade da sua totalidade não é comprometida e tem-se um bom thriller, no final das contas. Daqueles que a maratona acaba sendo feita em um dia apenas!

 

 

[1] Doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisadora do GRIM.

Crítica Dancing Queen

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Por Enoe Lopes Pontes [1]

Coreografias elaboradas, cores, luzes, figurinos de todos os tipos, música e muito drama! Estas palavras poderiam resumir perfeitamente o clima e o visual de Dancing Queen, novo reality show da Netflix. Estrelado por Alyssa Edwards, a série mostra a vida dupla da artista, que se divide em treinar um grupo de jovens dançarinas de dia e fazer seus shows performáticos à noite.

Alyssa ficou conhecida mundialmente após as suas participações na quinta temporada do seriado Rupaul’s Drag Race e na terceira de seu spin-off All Stars. Apesar de não ter vencido as competições, a fama da drag se alastrou e ela começou a fazer apresentações pelo mundo inteiro. Contudo, além da vida corrida de shows, Alyssa Edwards comanda uma escola de dança, chamada Beyond Belief (BBDC), onde trabalha como o super requisitado professor de dança Justin Johnson. Estas duas carreiras e sua conturbada relação com a família são os focos centrais do seriado.

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O que se observa, a partir da proposta de múltiplos núcleos, é a tentativa de equilibrar o tempo entre os depoimentos e os acontecimentos da rotina de Justin e da de Alyssa. Este objetivo é alcançado e cada parte da vida da protagonista sempre é mostrada. Dentro da correria que é o cotidiano da artista, a equipe de criação consegue imprimir ritmo em cada episódio. Quando o espectador está ansioso por conta das brigas entre Justin e as mães das dançarinas mirins da BBDC, o foco passa para algo mais sentimental do passado de Alyssa/Justin, com detalhes sobre sua infância ou a de sua amizade com as irmãs. Mas, se as lágrimas e os assuntos entre eles ficam pesados demais, o público é levado para as noites de performances de Alyssa, com muita música e dança.

Inclusive, este é um dos pontos altos do seriado: os inserts musicais colocados para narrar as vitórias e celebrações da vida de Justin como Alyssa Edwards, seja quando ela casa os dois amigos ou na primeira vez que ela joga boliche. São nestes clipes que as cores das luzes e figurinos são mais fortes e cintilantes. Eles são os respiros mais óbvios do reality, quando a mente de quem assiste pode relaxar e focar apenas nos passos dançantes, na dublagem de Alyssa e na música alegre. Este momento de canção é melancólico apenas no 1×03, quando a artista conta como duas irmãs já foram viciadas em drogas e a saudade que sentia do tempo em que conseguia se relacionar bem com elas.

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Outro destaque positivo é como a produção consegue criar empatia com todas as personagens. Mostrando qualidades e defeitos intensos, não existem vilões, são figuras palpáveis. Tanto nas discussões, no trabalho ou nos instantes de felicidade, partidos não são tomados. Os vários lado de uma situação são mostrados e fica possível compreender as motivações, tristezas e forças daqueles indivíduos. Contudo, apesar de todos serem bem retratados e o tempo para cada parte da vida de Alyssa ser justo, é a relação de Justin com as mães das dançarinas o ponto alto de Dancing Queen. Os plot twists, os maiores dramas e as cenas mais engraçadas são as que estas mulheres entram em embate com Justin, ajudam ele ou compartilham um momento alegre.

Ainda que a série seja sobre arte, com muita música e danças, Dancing Queen consegue extrair o traço mais forte da personalidade de Alyssa e transformar isto no tema central do reality show: sua capacidade de formar uma família onde quer que vá. Ela lidera diversas linhagens, sejam seus parentes biológicos, os amigos da carreira como drag ou as mães e dançarinas da BBDC, Alyssa une as pessoas. A série captura isto com destreza, pois tem ritmo, diverte e traz discussões relevantes como aceitação da sexualidade, superação e reconciliação com entes queridos em todos os aspectos possíveis dentro da trajetória de Alyssa Edwards.

 

[1] Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisadora do GRIM.

Crítica Collateral

Sutileza e discurso potente marcam nova minissérie britânica policial

por Enoe Lopes Pontes [1] 

Créditos iniciais. Uma música bem animada e não diegética é tocada. Aos poucos, o espectador vê um veículo em movimento e a canção entra na diegese. Assim, começa cada um dos quatro episódios da minissérie Collateral. Escrita e criada por David Hare (As Horas), a produção se enquadra no gênero policial e é uma parceria da BBC com a Netflix. O seu enredo ganha força por trazer questões políticas e sociais importantes para o Reino Unido e para a Europa com sutileza e clima de tensão.

O start da história é o assassinato de um entregador de pizza sírio. Devido ao fato do rapaz ser um refugiado, paira no ar a dúvida se aquele foi ou não um crime de ódio e xenofobia. Através deste plot, Hare coloca na voz das personagens inquietações sobre os privilégios dos britânicos e como estes lidam com a vinda dos estrangeiros árabes. Além disso, o roteirista traz uma sensibilidade para com as relações e emoções femininas.  Juntamente com o olhar da diretora S.J. Clarkson (Jessica Jones), eles constroem uma boa dinâmica sobre a luta e os sofrimentos cotidianos do gênero.

Desde meados dos anos 1980, com Sombras do Passado, David Hare traz em seus trabalhos uma visão um tanto acertada sobre como as mulheres pensam e interagem. Collateral é o ápice desta característica do artista. As conversas entre as moças da série fluem diferentemente quando estão sozinhas. Elas se olham com um entendimento profundo, como se conversassem desta maneira.

Nestas horas, a direção e a fotografia trabalham em favor  deste diálogo silencioso, que parece ser muito relevante para Hare. Algo que mostra este cuidado da direção são as escolhas de enquadramento. Quando estas conversas mudas ocorrem, o quadro fica mais fechado – num close ou primeiríssimo plano que revela apenas a metade do rosto das intérpretes. É como se o público visse a cena por uma fresta – em um momento, o cabelo de uma das atrizes funciona como uma cortina que faz com que o foco vá diretamente para o rosto da investigadora do caso.

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Ainda nesta lógica de planos, há uma estratégia da minissérie para dar dinâmicas diferentes entre os momentos mais intimistas e os focados no crime. Enquanto no primeiro a câmera fica parada, com cortes mais curtos e com planos médios, na segunda há quadros mais longos ou sequenciais, nos quais o espectador acompanha as personagens, dando fluidez as ações narradas e deixando que assiste com a sensação de que está desvendando o mistério do crime junto com os detetives.

O movimento contínuo da câmera quase sempre está associado a detetive, Kip Glaspie (Carey Mulligan). Protagonista da história, ela é quem comada a investigação. Ela é também quem mais demonstra o sentimento de empatia e entendimento com as pessoas do mesmo gênero que o seu. Mulligan consegue passar esta sensação de entendimento da outra suavemente, com poucos gestos e olhares. Inclusive, toda sua atuação é sutil. Contudo, deixando detalhes perceptíveis que trazem complexidade para a sua Kip. Um exemplo é o sorrisinho de canto de boca que ela faz quando alguém lembra seu passado como atleta olímpica ou a sua postura corporal retilínea, com passos firmes e base plantada no chão, traços de seus dias de esportista e de seu presente como policial.

A minúcia da minissérie também aparece em detalhes de figurino que revelam transformações das personagens ou traços de suas emoções. Um bom exemplo disso é a árabe Fatima Assif (Ahd) que, aos poucos, vai deixando de lado pequenos elementos de sua cultura e ficando mais “britânica”. Essas modificações não são feitas de maneira gritante, são suaves e gradativas, deixando as figuras dramáticas ainda mais interessantes. Esta caraterística da indumentária pode fazer com que o espectador vá descobrindo estes discretos componentes impressos em Collateral, enquanto “investiga” o mistério mais evidente no enredo.

Apesar de muitas qualidades dentro da obra, ela peca em alguns momentos quando exibe diálogos expositivos e até mesmo redundantes. Algumas situações são inteligíveis de pronto, mas o texto reforça as ações com explicações repetitivas. Este recurso enfraquece algumas sutilezas – ponto forte do seriado. Quando esta profusão acontece, a qualidade da produção cai, mas nada que comprometa a sua totalidade. Collateral vale suas quatro horas de duração. Ela tem elementos técnicos bem realizados – tanto individualmente falando, como na convergência de seu conjunto – e um discurso claro, forte, que é transmitido de forma equilibrada com o tom investigativo.

 

 

[1] Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisadora do GRIM.

Supermax (2016)

Apesar de problemas em sua estrutura, Supermax é um avanço da Rede Globo em séries do gênero. supermax2

por Amanda Aouad *

A Rede Globo está investindo cada vez mais no formato de série. Parece que ainda não há coragem para ousar pensar em temporadas, mas não deixa de ser um avanço ver obras como Justiça e a série de terror Supermax. A própria estratégia de divulgação dessa última chama a atenção.

Quase todos os episódios estão disponíveis para assinantes da Globo no GloboPlay. Digo quase porque eles seguraram o último episódio para ser visto apenas em dezembro, quando for ao ar na televisão. Com isso, criaram uma espécie de vlog dentro do aplicativo para discutir teorias sobre os mistérios da trama em uma tentativa de manter os assinantes entretidos.

Essa quase estratégia “Netflix” (que sempre lança toda a temporada de suas séries de uma só vez) parece fundamental para a obra que só começa a esquentar mesmo a partir do terceiro episódio, tendo, talvez, um dos piores pilotos de série já vistos. Mas quando o reality show deixa de ser um reality, tudo começa a ficar interessante.

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O formato do primeiro episódio tenta simular um reality show, a direção não usa apenas câmeras escondidas, mas nos apresenta as personagens em vídeos, tem vinheta e até a apresentação de Pedro Bial. Esse é um dos grandes erros de escalação, já que o jornalista e apresentador não é ator e fica artificial em cena.

Os atores também não parecem muito à vontade em seus papéis. Os diálogos não são naturais, a estrutura não parece crível e mesmo as disputas que começam a surgir soam falsas. Tem inclusive um estranho erro de escalação, já que nas cenas abertas do grupo, vemos o ator Harildo Deda no lugar do ator Mário César Camargo, que interpreta o médico Timóteo.

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Ou seja, nada parece funcionar em Supermax. Pode ser que seja um clima proposital para o que está por vir, mas o fato é que o episódio piloto não fisga o espectador. Não nos deixa curiosos para continuar a investir na obra. E o pior, não faz jus ao que será desenvolvido adiante.

Um piloto é uma carta de apresentação, precisa trazer o tom da série e demonstrar aquilo que o espectador irá acompanhar por toda a jornada. Tudo deve ser implantado ali, ainda que melhor desenvolvido adiante. Ao se basear apenas pelo piloto, diríamos que Supermax é uma série sobre um reality show. O que não é verdade.

Então, por que continuar?

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Aos que persistem, há, no entanto, algumas recompensas. Como já foi dito, a série começa a esquentar no terceiro episódio. O gancho cria uma reviravolta que nos deixa intrigados e faz embarcar naquela aventura, apesar de ainda algum estranhamento.

Aos poucos, as personagens vão se tornando mais críveis, sendo aprofundadas e algumas revelações são bem conduzidas, como a cena em que Luisão e Janette ficam presos na área de alimentação. Os mistérios também vão sendo mais bem trabalhados e as explicações apresentadas são coerentes.

Talvez o mais intrigante em Supermax seja a possibilidade real dos acontecimentos. Nada é fantasioso em excesso, em determinado momento tudo fica palpável, o que ajuda no efeito do horror. E mesmo quando alguns elementos fantásticos são introduzidos, é possível comprar a verossimilhança aquele universo. A própria construção de efeitos é conduzida com poucos recursos, um som, um movimento de câmera, penumbras. Há efeitos especiais, mas a série não se baseia neles.

Há uma verdadeira mistura de referências. A começar pela série inglesa Dead Set, talvez a referência mais forte, com pitadas do filme espanhol REC. Mas é possível pincelar referências de formatos e temáticas de obras como Lost, OZ, Supernatural, Heroes e até algo de The Walking Dead.

Ainda que não tenhamos visto o episódio final, já é possível ver um avanço na Rede Globo no gênero. A série, de fato, funciona, pelo menos até o episódio 11. Só nos resta agora aguardar o episódio final para ver se a boa sensação se confirma. Afinal, tudo pode cair por terra com uma resolução mal planejada. Vamos torcer.

 

* Doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Póscom/UFBA) e integrante do GRIM

Top of the Lake – Primeira Temporada

Indicada a 8 Emmys em 2013, série policial de Jane Campion aborda temas como a pedofilia e o estupro

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Por Wanderley Teixeira [1] 

Na Nova Zelândia, em um lago envolto por montanhas, uma jovem de 12 anos chamada Tui tenta o suicídio após descobrir que está grávida. Depois de ser impedida do ato, a menina desaparece e logo a polícia local começa a empreender esforços para encontrá-la e chegar ao nome do responsável pela tragédia. Assim tem início a então minissérie Top of the Lake, criada pela cineasta Jane Campion (O Piano) e pelo roteirista Gerard Lee (parceiro da mesma em seu segundo longa-metragen Sweetie) no ano de 2013.

Esse retorno de Campion a TV foi assistido pelo grande público através BBC, mas só foi disponibilizado no Brasil esse ano pelo catálogo da Netflix. Ao longo dos seus seis episódios, a trama policial de Top of the Lake apresenta ao espectador um “novelo” a ser desembaraçado pelo mesmo e pela detetive Robin, papel de Elisabeth Moss (de Mad Men), que assume como pessoal a caçada ao estuprador da adolescente. Entre os principais suspeitos está o próprio pai da garota, conhecido na região por seus vários filhos bastardos e pela sua natureza extremamente perigosa.

A descida ao inferno que representa o que está no entorno de temas sérios e caros a série, como a pedofilia e o estupro, confere a Top of the Lake uma atmosfera pesada de cansaço e exaustão, o que, somado ao drama pessoal da policial australiana vivida por Moss, torna a história uma espécie de desencanto com o próprio mundo e com o ser humano. Ainda que aqui e ali tenhamos um vislumbre de esperança depositado no caráter de algumas personagens e no destino que eles vão trilhar após o sexto e último episódio, a perspectiva majoritária deixada por Campion não é das melhores e funciona como crítica.

O espectador é apresentado a um universo misógino que, a todo momento, interpela a detetive Robin no povoado marcado por um histórico severo de crimes desse tipo praticado por grupos de homens asquerosos. Robin também se depara com o machismo no próprio departamento de polícia, afinal, alguns dos seus colegas tratam com desdém casos como os de Tui e não dão muita abertura aos esforços empreendidos pela protagonista. Os personagens centrais da trama são marcados por laços de parentesco que entregam suas origens em relações abusivas, parte desses sujeitos possuem meios-irmãos e alguns deles têm como imprecisa a identidade do pai.

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Assim, em Top of the Lake, figuras como Robin parecem incomodar esse establishment do machismo, cutucam a ferida no âmago da questão. Um grupo de mulheres liderado pela misteriosa GT de Holly Hunter também parece cumprir essa função e é ameaçado verbal e fisicamente pelo principal suspeito da gravidez de Tui,  inconformado pela ocupação empreendida por elas em uma propriedade que sempre fora objeto de sua cobiça.

O intento de Top of the Lake é coerente com a própria trajetória de Campion como cineasta, afinal a diretora sempre apresentou como preocupação a ambiência das suas personagens femininas em espaços marcados por abusos e ações arbitrárias de homens, basta lembrarmos da via crucis percorrida por Isabel Archer, personagem de Nicole Kidman, durante o seu casamento com o vigarista Gilbert Osmond de John Malkovich em Retratos de uma Mulher, ou mesmo da punição da Ada de Holly Hunter em O Piano. Em Top of the Lake, as coisas não são diferentes e tudo ocorre de uma forma que somente as personagens femininas conseguem estar na mesma voltagem de alerta e pavor, seja nos insistentes esforços de investigação de Robin, seja no isolamento do acampamento de GT.

A série é marcada por episódios dirigidos por Campion e pelo novato Garth Davis, que estreou esse ano na direção de um longa-metragem com Lion. Em todos, as ações possuem um  tempo próprio que dão lugar a naturalidade da dinâmica das suas personagens e à contemplação dos silêncios e da beleza das paisagens do lago, algo que, na verdade, destoa de toda a miséria e secura humana presente no local.

Os episódios não possuem reviravoltas barulhentas e ganchos a cada milésimo de segundos. Na verdade, os twists de Top of the Lake são bastante previsíveis. Contudo, fica claro desde o primeiro momento que o enfoque de Campion e seus parceiros não é no desenlace da trama investigativa propriamente dita, o que capta a atenção do espectador são todas as temáticas delicadamente exploradas nos episódios. Também é interessante como o tom da série faz com que a gente consiga ter mais intimidade com Robin, personagem defendida por Elisabeth Moss com delicadeza e integridade irretocáveis.

Em 2017, Top of the Lake ganhará uma nova temporada com o retorno da sua protagonista e a adição de Gwendoline Christie (Game of Thrones) e Nicole Kidman ao elenco principal, o que a transformará em uma série. O desfecho em aberto desses seis episódios de 2013, contudo, são plenamente satisfatórios. Todas as mulheres da história trazem consigo uma cicatriz que lhes dá a fibra e a sensibilidade necessárias para lidar com toda a covardia a sua volta. Difícil saber quais são os novos rumos que Campion pretende dar a história da detetive Robin, a certeza é que essa trama de 2013, apesar de ter um ritmo característico que ocasionalmente depõe contra si, possui muita veemência e dignidade no olhar que lança para as questões que traz à tona.

[1] Doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisador do GRIM.

Dead of Summer – Primeira Temporada

Emissora Freeform aposta no estilo slasher adolescente no novo seriado da dupla criadora de Once Upon a Time

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Por Enoe Lopes Pontes [1]

1980: o Acampamento Stillwater é reaberto e com ele várias mortes começam a acontecer. Esta é a história de Dead of Summer (DOS), nova série da emissora Freeform e uma criação de Adam Horowitz e Edward Kitsis, roteiristas e produtores executivos das famosas Lost (2004-2010) e Once Upon a Time (2011-). Além dos dois artistas já conhecidos pelo público de televisão, Ian Goldeberg (Once Upon a Time) se juntou como showrunner neste projeto.

Numa atmosfera slasher movies à la Sexta-feira 13, durante dez episódios semanais, o espectador já sabe que existe a possibilidade de uma nova personagem ser assassinada. Apesar de possuir a premissa um tanto óbvia, Dead of Summer se segura em dois quesitos. O primeiro é a boa dinâmica do elenco, que constrói de forma segura as relações entre si, até mais do que com os próprios acontecimentos. Além disso, o grande triunfo do programa são os plot twists da trama que são assustadores, bem explicados e não gratuitos.

A narrativa segue um padrão parecido ao de Lost e Once Upon a Time. Com flashbacks sobre o passado dos monitores do acampamento, mesclados aos acontecimentos do presente, o público vai montando as peças do quebra-cabeça para entender quem está matando os colegas, fazendo os rituais satânicos e ameaçando a tranquilidade de uma pacata cidade no meio oeste dos Estados Unidos.

ELIZABETH LAIL, ELIZABETH MITCHELL

Caminhando na direção inversa do seriado Scream (MTV: 2014-), terror similar a DOS por ser um slasher adolescente, o programa consegue ir crescendo conforme a temporada vai avançando e deixando as personagens cada vez mais complexas. Os destaques na interpretação estão com Elizabeth Mitchell (Lost) e Elizabeth Lail (Once Upon a Time). Sem entregar spoilers sobre a série, pode-se dizer que as intérpretes conseguem demonstrar múltiplas emoções e estilos de personalidade em poucos episódios, intrigando e surpreendendo o espectador.

Outro destaque, que parece ser intencional na série, é forma como os criadores escolheram assustar o público. Existem figuras sobrenaturais na história. Demônios e fantasmas habitam Stillwater e isto vai ficando cada vez mais claro. Porém, o que incomoda e assusta de maneira mais intensa são os vilões vivos, estes que carregam machados, correm atrás da mocinha e (SPOILER ALERT) podem ser possuídos por livre e espontânea vontade.

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Por fim, existe mais um elemento positivo em DOS que merece ser destacado. Em produções anteriores, Horowitz e Kitsis foram cobrados por representatividade, principalmente em Once Upon a Time. Agora, em 2016, em Dead of Summer, parece que os dois procuraram se redimir. A trama traz a diversidade de forma bem planejada e realizada. Mulheres fortes, personagens negros importantes e fundamentais para o desenvolvimento da narrativa, casal homoafetivo, um rapaz transexual e uma garota fora do padrão hollywoodiano de magreza são a demonstração de que os produtores estão ficando mais conscientes de que todo o público merece ser representado nas telas.

Não há nenhuma novidade em Dead of Summer e ela poderia ser mais uma história de terror adolescente passada em um acampamento, mas existem coisas que conseguem salvá-la. A forma como o enredo é desenvolvido, as justificativas pelas quais as personagens resolveram ir trabalhar no acampamento, o entrosamento do elenco que faz a cena crescer quando está completo numa cena, a atmosfera de tensão causada pelas descobertas de vilania no programa, o carisma dos protagonistas e a diversidade fazem com que a segunda temporada seja desejada e esperada com uma certa ansiedade.

 

[1] Mestranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA. Pesquisadora do GRIM.

Marias, elas não vão com as outras (2015 – )

Por Amanda Aouad *

“Maria vai com as outras” é uma expressão popular carregada de estereótipos e preconceitos que a marca de absorvente Intimus resolveu desconstruir em uma série que buscar falar diretamente ao seu público-alvo.

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“Marias, elas não vão com as outras” teve uma primeira temporada tímida em termos dramatúrgicos, mas já demonstrava extrema força e posicionamento. Tanto que contou com uma campanha de divulgação massiva com direito à mídia exterior em todo o país.

A série exibida na Rede Telecine e no canal do Youtube da marca tinha, como recorte, um dia na vida de seis Marias, cada uma com um segundo nome e uma personalidade própria. Maria Eduarda é cantora e está prestes a realizar seu primeiro show. Maria Luiza acaba de criar atrito com um rapaz na academia. Maria Carol descobriu que está grávida de um namorado de apenas quatro meses. Maria Fernanda é uma produtora que tem que encontrar um novo talento musical. Maria Laura está com problemas com a chefa e sua irmã Maria Paula está com uma nova paquera, mas não quer nada sério.

Cada episódio trazia um ponto de vista de uma das Marias, sempre com três minutos de duração e sempre terminando no show de Maria Eduarda. Era interessante a mudança de percepção do todo a cada nova informação com a aproximação de uma das personagens.

A direção de Vera Egito casava com a proposta da série, até mesmo por retratar tão bem o universo feminino em seus curtas. Percebia-se o cuidado estético com os detalhes de cena, planos que não se repetem, iluminação, ritmo da montagem. Tudo é bem cuidado. E a marca Intimus surge de maneira natural em cena.

Mas, talvez pelo recorte de um dia e a convergência de todas ali naquela boate, a trama acaba sendo superficial, não dá para conhecer muito da personalidade de cada uma ainda. A primeira temporada funciona quase como um teaser, um primeiro contato. E agora, com a segunda temporada, podemos perceber um pouco mais da proposta e desenvolvimento dos temas, o que eleva a série a um case muito mais instigante e envolvente.

Segunda Temporada: Agora sim, Marias.

No dia 22 de março, a Intimus lançou, agora em parceira com a Sony, a segunda temporada da série Marias. Não há mais o recorte de um dia, sem a visão múltipla de um mesmo acontecimento. Os episódios possuem cinco minutos cada e são exibidos na Sony na segunda-feira à noite, antes da série Grey´s Anatomy, indo para o canal do Youtube no dia seguinte.

Cada Maria, agora, tem um arco próprio desenvolvido em quatro episódios podendo tocar em assuntos do universo feminino com um aprofundamento maior, assim como desenvolver melhor as personagens. Elas continuam se mesclando, participando do mesmo universo, mas valorizando o protagonismo de cada uma há seu tempo.

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Os quatro primeiros episódios foram focados em Maria Luiza. O rapaz que ela conheceu (e brigou) na academia na primeira temporada, agora é seu namorado, como já insinuava o final do dia na boate. Mas o foco é no seu perfil na rede social e na exibição de sua vida saudável e repleta de exercícios. O problema é que, sem que ela perceba, acaba postando um vídeo fazendo exercícios menstruada, com o short sujo de sangue, virando piada na internet.

O drama pela vergonha, associada à raiva pelo namorado, que gravou o vídeo, não ter percebido o incidente, tornam Maria Luiza obcecada. É interessante a maneira como o roteiro toca em assuntos como ditadura da aparência, relação com as redes sociais e valores pessoais nesses quatro primeiros episódios. A questão da valorização da vida online em detrimento da vida off-line também tem espaço na trama e é desenvolvida de maneira sensível.

A direção geral continua sendo de Vera Egito, apesar dos episódios já trazerem uma equipe de diretoras. Nessa temporada, já percebemos uma estrutura de série mais tradicional, com abertura e créditos das diretoras ao contrário da primeira temporada onde não havia indicação de autoria, apenas o lettering “Intimus apresenta”, que continua agora.

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A direção de arte e atmosfera da série continua também valorizando esse universo feminino plural com pontos de vista diversos. E o posicionamento dessas diferenças também continua no texto. Em uma cena de café da manhã, por exemplo, Maria Luiza come frutas e granola, criticando Maria Carol por estar comendo “farinha branca”, ao vê-la cortando um pão francês. Mas a amiga não se importa com o comentário e continua seu desjejum tranquilamente.

A marca Intimus também continua surgindo de maneira discreta, no dia a dia das personagens em trocas de absorvente, sem precisar chamar a atenção para eles ou mesmo citar o nome. Isso faz com que o produto esteja ali inserido naturalmente, fazendo parte da rotina, sem quebrar a ilusão dramática.

O que chama a atenção na série são mesmo os temas e o tratamento do universo feminino. Além do cuidado com direção, fotografia, trilha e atuações, conseguindo um bom resultado enquanto produto audiovisual. A temporada está agora no meio da trama de Maria Laura, falando sobre assédio e posicionamento diante de desrespeitos diários que uma mulher pode passar, dando pistas de que ainda há muito a ser explorado. Só nos resta acompanhar.

* Doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Póscom/UFBA) e integrante do GRIM

Crítica: Sense 8 (Netflix, 2015 – )

Por Amanda Aouad

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Oito pessoas, em oito países diferentes, mas uma ligação psíquica que as fazem compartilhar sentimentos, sensações, habilidades e pensamentos. Assim é Sense 8, a nova série da Netflix, produzida pelos irmãos Wachowski e J. Michael Straczynski.

A primeira temporada, composta por doze episódios, foi disponibilizada na íntegra no início do mês de junho, como tem acontecido com a maioria das produções próprias no Canal VOD. Isso torna a própria experiência da série diferente daquela narrativa em que precisávamos esperar uma semana para o próximo episódio, o que também se reflete na mesma. Não que Sense 8 seja feito para ser vista em uma maratona insana de quase doze horas, mas é preciso contar com essa possibilidade também. E nisso há problemas e acertos na obra que traz boas reflexões sobre as relações humanas no mundo em que vivemos.

A trama mistura realidade e fantasia em um mundo onde existem pessoas sensitivas capazes de se conectar em grupos. Componentes de grupos distintos, no entanto, podem se conectar também, caso haja um contato visual entre eles. Assim, um policial em Chicago, uma DJ em Londres, a filha de um poderoso empresário em Seul, um motorista de ônibus em Nairobi, um ator no México, uma farmacêutica em Dubai, uma hacker em São Francisco e um ladrão em Berlim começam a compartilhar suas vidas, enquanto três componentes de outros grupos se ligam a eles de alguma maneira. Angélica, que uniu os oito, dando-os à luz. Jonas, seu amante, que parece querer ajudá-los. E Sussuros, um ser misterioso que se demonstra o vilão da trama.

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A construção narrativa nos leva a perceber que Sense8, apesar de ter aventura, suspense, comédia e fantasia, é um melodrama sobre pessoas comuns. Personagens espalhados pelo mundo em estereótipos aparentes que vão se desnudando para nós à medida que os episódios vão sendo apresentados. E aí, a forma como você escolhe assistir aos episódios pode trazer diferenças na experiência. Vendo os episódios na sequência, pode-se ter uma sensação de reforço exagerado de algumas informações, assim como um excesso de clipes musicais que mostra o grupo interligado. Porém, também há a possibilidade de aprofundar os personagens mais rapidamente, o que a apreciação com intervalos dilatados, pode dar a sensação de que está demorando muito para acontecer.

Não que, em algum momento, a obra chegue a ficar cansativa. A montagem mesclando os oito mundos dos protagonistas dá dinâmica à série e algumas inserções musicais chegam ao primor artístico, como a inteligente inserção da música What’s up, de 4 Non Blondes, que traduz de maneira bastante eficaz tudo o que aqueles personagens sentem. Ou ainda um concerto musical inusitado que traz uma revelação profunda não apenas da ligação daqueles seres como o momento mais importante de suas existências em um raccord visual que vai cadenciadamente nos levando ao clímax da temporada. A diferença da apreciação é apenas na compreensão do sentido principal da série, que é nos envolver e emocionar com aquelas pessoas para que nos importemos com elas.

A mitologia dos sensitivos criada pelos Wachowski e Straczynski, então, é apenas o elemento diferenciador da narrativa que possibilita que acompanhemos todos juntos e atiça a nossa curiosidade para irmos aprofundando o tema. É impossível entender os pormenores dela em apenas uma temporada. E nem a série se presta a isso, já que foi pensada para uma jornada mais longa que essa. Ainda assim, é possível tirar aqui alguns simbolismos com o nosso mundo, já que os criadores de Matrix sempre estão em busca de uma crítica social em suas obras.

A conexão dos sensitivos pode ser uma metáfora das próprias comunicações humanas, que interligaram o mundo após o advento da internet. Comunicamo-nos em grupos, seja em comunidades virtuais, fóruns onlines ou redes sociais. Essa parece uma comparação óbvia. Mas, quando observamos que essas pessoas comuns representam a diversidade de uma sociedade que ainda está aprendendo a lidar com as diferenças, a comparação ganha força, principalmente, porque eles estão sendo perseguidos.

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Há homossexuais, transexuais, mulheres reprimidas em sociedades machistas, homens ricos e pobres, negros, brancos, amarelos. Seres humanos em busca de seu lugar no mundo. Mas, que começam a ser ameaçados por um inimigo em comum que quer encontrá-los e operar os seus cérebros para dominá-los. Assim, podemos supor que Sussuros, o vilão, seja uma representação do lado ruim da sociedade, sempre tentando controlar a vida alheia a partir de seus preconceitos e jogos de interesse.

De qualquer maneira, esses são apenas detalhes que enriquecem a experiência. Como já foi dito, o que importa são essas pessoas e suas vidas extraordinariamente comuns. Para quem está em busca de uma nova série de ficção científica isso não deixa de ser uma decepção. Mas, para quem gosta e embarca na vida destas oito pessoas, a mágica acontece. Começamos a nos prender a eles, como se fizéssemos parte também daquele grupo e isso torna a experiência ainda mais bela nos dando vontade de, junto com eles, gritar “hey” e perguntar “o que está acontecendo” enquanto rezamos por esta “revolução” da diversidade.