Sobre Grupo Grim

Grupo de Pesquisa Recepção e Crítica da Imagem - Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas / UFBA

“Cléo das 5 às 7” e o cinema vanguardista de Agnès Varda

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Corinne Marchand (dir.) e Agnès Varda no set de Cléo das 5 às 7

Por: Letícia Moreira

No cerne das diversas irrupções feministas nos estudos de cinema, está a reforma de matrizes teóricas e metodológicas, aplicáveis a todas as áreas de reflexão, e que transcendem a questão básica da(s) mulher(res) na sétima arte. Entre críticas e denúncias aos paradigmas epistemologicamente dominantes, um movimento interessante merece destaque. A propósito de fixar na história do cinema as mulheres profissionais cujos nomes estejam cobertos sob os mantos masculinistas, muitas pesquisadoras, críticas e ativistas, por meio de um “resgate arqueológico”*, encontram formas de recuperar suas obras e contribuições para devolver-lhes os holofotes. Assim aconteceu com Alice Guy Blaché, pioneira no cinema ficcional (dos primeiros tempos), Adélia Sampaio, no Brasil e, mais recentemente também, com Agnès Varda.

Uma das maiores vozes do cinema moderno/vanguardista francês, a diretora Agnès Varda completou 90 primaveras em maio de 2018. Com mais de 60 anos de carreira, esteve por muitos esquecida em meio aos nomes ovacionados dos colegas diretores (no masculino), ainda que tenha sido precursora do movimento da Nouvelle Vague. Sempre ligada ao feminismo e às experimentações, Varda transparece em seus filmes uma sensibilidade à realidade moderna, com seus dramas existencialistas, o ritmo das grandes cidades, tendências documentaristas para referir-se ao real. Em 2017, recebeu um Oscar honorário pelo conjunto da sua obra.

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O que mais, além da iminência da morte, (re)colocaria o sujeito em sua existência? A espera do fim, confrontada com um tempo que resta, remodela os sentidos mais escondidos. O(a) espectador(a) está à espera daquilo que lhe reserva o espetáculo. Em Cléo das 5 às 7, Varda combina a “espera espectatorial” à espera dos resultados do exame que definirá o destino da protagonista, brincando com as potências fruitivas do dispositivo cinematográfico.

Estética e narrativamente, o filme é um convite íntimo a testemunhar duas horas de drama na vida de Cléo Victoire (ou Florence, seu nome verdadeiro). Lançado em 1962, é nitidamente uma obra fundamental para compreender o espírito radical do cinema da época. Com inovações que transcendem à forma, a ficção é contada praticamente em tempo real e convoca temas como solidão, vaidade, amor e a voz potente do feminismo em seus diálogos, em uma narrativa sensível e rica.

Somos convidados à história através de um jogo de tarô. A câmera posiciona o olhar perpendicularmente à mesa de cartas, na única sequência em cores do filme, como um deus que tudo vê e tudo sabe, mas que em nada interfere na sorte da personagem. Eis aqui a revelação do enredo: a moça carrega “a” doença, com grande risco de morte. Cléo (Corinne Marchand), uma famosa cantora de rádio, rodeada de mimos e boa vida, vê então a angústia da espera pelos resultados da biópsia transformada pela certeza da revelação. Mergulhada no medo da morte, a jovem regressa ao cotidiano com um novo olhar sobre o que a cerca e um impulso de questionar sua existência.

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Em suas caminhadas pelas ruas de uma Paris moderna, tudo é audível. Dos passos mais distantes às conversas íntimas vizinhas, nada parece, na maior parte da película, escapar à protagonista. É como se tudo sempre estivesse ali, ao alcance e à espera. É no tratamento do som que o cotidiano ganha força. Em certas sequências, o silêncio total que acompanha as imagens em movimento convida à contemplação (visual) dos entornos, mas, principalmente, à consciência e sensações da personagem, por vezes acompanhado da voz de seus próprios pensamentos.

A câmera-testemunha guia as ações do cotidiano, que acontecem em tempo real. Nos caminhos de carro ou a pé, detalhes comuns da cidade entram em cena, descobertas iminentes que se tornam também protagonistas. A cada encontro com as pessoas próximas, questiona os sentimentos e intenções. “Todos os homens são egoístas”. A personagem parece dar-se conta de que as ausências de seu amante em sua rotina são indícios da ausência de amor. A curta aparição do romance no filme já sugere que a exclusiva relação com o outro não é um tema central aqui, mas parte da viagem interna da protagonista. Ela com ela.

A presença feminina (e feminista) é substancial. Desde figurantes nas ruas, são muitas mulheres na tela. Um momento ímpar é a sequência em que Cléo e Àngele (sua assistente pessoal) tomam um táxi cuja motorista é uma mulher. Três mulheres no carro e mais de três minutos de conversas sobre músicas, perigos, cidade etc, sem recorrer ao tema “homens” (o que já garante aprovação no Teste de Bechedel**). A situação se repete em outro momento, quando na carona com uma amiga, o foco do diálogo é suas vidas e a possível doença.

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O drama da mulher moderna encontra aqui uma expressão cuidadosa: a busca pela admiração e independência profissional (em um contexto de revoluções sociais) junto à preocupação em sentir-se amada, em não estar só. A recorrência de espelhos e superfícies refletoras expõem não somente a beleza física da personagem ou a sua auto análise, mas aponta uma visão geral das mulheres sobre elas mesmas.

Vivemos o drama (bastante humano) de Cléo não somente porque o roteiro nos coloca ali (com a escolha, inclusive, de indicar a hora exata na tela), mas especialmente porque o próprio dispositivo nos insere em seu íntimo. Ao ser o foco de olhares pelas pessoas nas ruas, Cléo sente a sua intimidade roubada. As pessoas, com os olhos fixos à câmera (em uma usual quebra da quarta parede), têm suas intimidades acessadas por nós (os olhares ausentes). Em sua relação com a câmera, porém, a protagonista parece consentir-nos a vigiá-la e, mais além, contar com nosso compromisso em segui-la. Essa interpelação colabora com o sentimento de aproximação e piedade.

Chegando a tempo para um curta – Há espaço para a problematização metalinguística das lentes e mediações que recorremos em nossas leituras de mundo, sabiamente metaforizada nos óculos pretos de Godard em um curta mudo que Cléo acompanha com a amiga.

Com referências ao contexto (empírico) que a conforma, como a guerra de independência da Argélia, a obra representa um espírito vanguardista histórico, como já explicitado. Ainda que seja essencialmente feminista, a questão de gênero não é definidor único para a experiência que o filme oferece. Com uma protagonista cuja história é, de fato, cercada em si mesma (e não em função de algum outro personagem), temos um retrato humano atemporal, com suas narrativas sobre vida e morte, ser e estar no mundo.

 

*STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. Campinas, SP: Papirus, 2003

** Teste de Bechdel – Criado em 1985 pela quadrinista Alison Bechdel, com ajuda de sua amiga Liz Wallace, o teste consiste, basicamente, na observação de três critérios básicos em um filme: (1) tem que ter pelo menos duas mulheres nele, que (2) conversam entre si 3) algo além de um homem. Ele consegue fornecer dados interessantes ao ilustrar a representação das personagens femininas nos filmes a partir da aprovação ou não desses filmes segundo seus critérios. Para mais, ver http://bechdeltest.com/
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Crítica Collateral

Sutileza e discurso potente marcam nova minissérie britânica policial

por Enoe Lopes Pontes  

Créditos iniciais. Uma música bem animada e não diegética é tocada. Aos poucos, o espectador vê um veículo em movimento e a canção entra na diegese. Assim, começa cada um dos quatro episódios da minissérie Collateral. Escrita e criada por David Hare (As Horas), a produção se enquadra no gênero policial e é uma parceria da BBC com a Netflix. O seu enredo ganha força por trazer questões políticas e sociais importantes para o Reino Unido e para a Europa com sutileza e clima de tensão.

O start da história é o assassinato de um entregador de pizza sírio. Devido ao fato do rapaz ser um refugiado, paira no ar a dúvida se aquele foi ou não um crime de ódio e xenofobia. Através deste plot, Hare coloca na voz das personagens inquietações sobre os privilégios dos britânicos e como estes lidam com a vinda dos estrangeiros árabes. Além disso, o roteirista traz uma sensibilidade para com as relações e emoções femininas.  Juntamente com o olhar da diretora S.J. Clarkson (Jessica Jones), eles constroem uma boa dinâmica sobre a luta e os sofrimentos cotidianos do gênero.

Desde meados dos anos 1980, com Sombras do Passado, David Hare traz em seus trabalhos uma visão um tanto acertada sobre como as mulheres pensam e interagem. Collateral é o ápice desta característica do artista. As conversas entre as moças da série fluem diferentemente quando estão sozinhas. Elas se olham com um entendimento profundo, como se conversassem desta maneira.

Nestas horas, a direção e a fotografia trabalham em favor  deste diálogo silencioso, que parece ser muito relevante para Hare. Algo que mostra este cuidado da direção são as escolhas de enquadramento. Quando estas conversas mudas ocorrem, o quadro fica mais fechado – num close ou primeiríssimo plano que revela apenas a metade do rosto das intérpretes. É como se o público visse a cena por uma fresta – em um momento, o cabelo de uma das atrizes funciona como uma cortina que faz com que o foco vá diretamente para o rosto da investigadora do caso.

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Ainda nesta lógica de planos, há uma estratégia da minissérie para dar dinâmicas diferentes entre os momentos mais intimistas e os focados no crime. Enquanto no primeiro a câmera fica parada, com cortes mais curtos e com planos médios, na segunda há quadros mais longos ou sequenciais, nos quais o espectador acompanha as personagens, dando fluidez as ações narradas e deixando que assiste com a sensação de que está desvendando o mistério do crime junto com os detetives.

O movimento contínuo da câmera quase sempre está associado a detetive, Kip Glaspie (Carey Mulligan). Protagonista da história, ela é quem comada a investigação. Ela é também quem mais demonstra o sentimento de empatia e entendimento com as pessoas do mesmo gênero que o seu. Mulligan consegue passar esta sensação de entendimento da outra suavemente, com poucos gestos e olhares. Inclusive, toda sua atuação é sutil. Contudo, deixando detalhes perceptíveis que trazem complexidade para a sua Kip. Um exemplo é o sorrisinho de canto de boca que ela faz quando alguém lembra seu passado como atleta olímpica ou a sua postura corporal retilínea, com passos firmes e base plantada no chão, traços de seus dias de esportista e de seu presente como policial.

A minúcia da minissérie também aparece em detalhes de figurino que revelam transformações das personagens ou traços de suas emoções. Um bom exemplo disso é a árabe Fatima Assif (Ahd) que, aos poucos, vai deixando de lado pequenos elementos de sua cultura e ficando mais “britânica”. Essas modificações não são feitas de maneira gritante, são suaves e gradativas, deixando as figuras dramáticas ainda mais interessantes. Esta caraterística da indumentária pode fazer com que o espectador vá descobrindo estes discretos componentes impressos em Collateral, enquanto “investiga” o mistério mais evidente no enredo.

Apesar de muitas qualidades dentro da obra, ela peca em alguns momentos quando exibe diálogos expositivos e até mesmo redundantes. Algumas situações são inteligíveis de pronto, mas o texto reforça as ações com explicações repetitivas. Este recurso enfraquece algumas sutilezas – ponto forte do seriado. Quando esta profusão acontece, a qualidade da produção cai, mas nada que comprometa a sua totalidade. Collateral vale suas quatro horas de duração. Ela tem elementos técnicos bem realizados – tanto individualmente falando, como na convergência de seu conjunto – e um discurso claro, forte, que é transmitido de forma equilibrada com o tom investigativo.

 

Exibição de Jonas e o Circo sem Lona levanta debate sobre os rumos do documentário

O Grupo GRIM realizou na última seta-feira, 14, o terceiro encontro do projeto Roteiros de Recepção. Foi a primeira vez que se exibiu um filme para discussão, e o escolhido foi o longa-metragem baiano Jonas e o Circo sem Lona, da diretora Paula Gomes, produzido pela Plano 3. Além da presença da diretora, de parte da equipe do filme e de uma das personagens, o evento contou com a participação dos debatedores Bruno Saphira e Amanda Aouad para discutir e lançar questões sobre a obra.

 

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Terceira edição do Roteiros de Recepção leva ‘Jonas e o Circo sem Lona’ para a Facom

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Acontece no auditório da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, sexta-feira, dia 14 de julho, às 14 horas, a terceira edição do evento Roteiros de Recepção, que será marcada pela exibição do longa-metragem baiano Jonas e o Circo sem Lona com a presença da diretora Paula Gomes e outros membros da equipe. A sessão será seguida de uma mesa de debate sobre a obra com a participação da diretora, do pesquisador Bruno Saphira e da crítica de cinema Amanda Aouad com o objetivo de discutir a obra e seus temas, estabelecendo uma troca de pontos de vista entre o público presente, a realizadora e a academia. A entrada é franca e não é necessária inscrição, basta comparecer (no entanto, está sujeita à capacidade do auditório).

Sobre o filme:

O filme é um documentário que narra a trajetória de Jonas, garoto de 13 anos que vem de uma família circense. Por iniciativa própria, Jonas cria seu próprio circo com uma lona improvisada no quintal de sua casa na periferia de Salvador. Entre os temas que o longa procura discutir está a situação da educação no país já que o seu protagonista vive um intenso conflito entre a dedicação a sua vida no circo e a necessidade dos estudos, mesmo diante da precariedade da escola pública.

Jonas e o Circo sem Lona entrou em cartaz no circuito comercial brasileiro em março desse ano e foi premiado nos diversos festivais dos quais integrou a programação. O filme esteve no Festival de Documentário de Amsterdã , sendo a única produção latino-americana na seleção. Além disso, venceu o Austin International Film Festival of the Americas como melhor documentário e o MiradasDoc International Documentary Film Festival. O documentário também foi escolhido como melhor longa pelo júri especial do Panorama Coisa de Cinema de 2016 e recebeu uma menção honrosa do júri no CachoeiraDoc do mesmo ano.

Assista ao trailer do filme:

ENTRANDO NO “PORÃO” DA WEB

Em Reading the comments, Joseph Reagle explora o ignorado e polêmico mundo dos comentários on-line

André Bomfim

Amanda Brennan, blogueira responsável pelo site Know Your Meme, uma importante fonte para entender a genealogia dos memes, ostenta em seu pescoço uma corrente com a mensagem “Never read the comments” (“Nunca leia os comentários”). Para ela, os comentários terminam sempre revelando como as pessoas podem usar a web para os fins mais obscuros, como bullying e assédio moral. O jovem professor estadunidense Joseph Reagle resolveu investir seus esforços de pesquisa exatamente nessa porção da web comumente ignorada, polêmica e mal vista. Reading the comments (ainda sem tradução e disponível na Amazon) é um passeio pelos aspectos sociais, culturais e tecnológicos do mundo dos comentários, apelidado pelo autor de “o porão da web” (livre tradução de “the bottom of the web”). “Este livro é sobre aquilo que está nas margens, o que pessoas comuns encontram no cotidiano”, avisa Reagle (p. 16).

comments2.jpgA principal característica da web 2.0, a internet das plataformas sociais, é o seu caráter interativo e reativo. Fomentado em grande parte pelos espaços de conversação, incluindo os fóruns, chats e sistemas de comentários. Desde que ganhamos visibilidade e “voz” nessas plataformas, revelamos o que temos de melhor, mas também de pior. Reagle define um comentário como mensagens reativas, curtas, assíncronas e contextualizadas. Seu conteúdo pode ser um texto, um like ou um voto, por exemplo. Um comentário pode nos ajudar de várias formas, como numa decisão de compra. Mas também é capaz de desencadear dramas pessoais e até crises políticas, a depender do seu teor e contexto.Entre o bem e o mal, o autor desenha as principais funções dos comentários: informar, manipular, aprimorar, depreciar, moldar e confundir (um capítulo reservado para cada uma delas).

De modo irônico, Reagle destaca o fato de que a maioria de nossas decisões hoje em dia dependem dos comentários dos outros. E produzir comentários é também uma das principais atividades de qualquer usuário da web. A Amazon e outros sites de comércio eletrônico, por exemplo, têm nos comentários um importante sistema classificador de produtos. No Goodreads, Rotten Tomatoes e Metacritic avaliamos filmes e livros de acordo com comentários dos outros usuários. Dessa forma, o comentário se tornou uma poderosa ferramenta econômica, capaz de alavancar ou prejudicar produtos e ideias. Nas redes sociais, os comentários e atualizações de status são uma importante ferramenta para moldarmos nossas identidades. Porém, não podemos ignorar o crescente uso desse poderoso recurso para fins de depreciação do próximo, como nas ondas de ataques racistas, xenófobos e misóginos. Haters, trolls e lolz são alguns dos comportamentos listados por Reagle em casos dramáticos como o do jovem Jamey Rodemeyer, que se suicidou aos 14 anos em 2011, após ser vitimado pelo cyberbullying homofóbico.

Diante da inépcia de organizações, veículos de comunicação, celebridades e pessoas comuns em lidar com os comentários, Reagle lembra que a web é simplesmente um espelho da raça humana (o que é “tão Black Mirror”). Ignorar os comentários pode ser o caminho mais simples para se livrar de um problema. Mas asua compreensão pode ser um próspero campo de pesquisa e desenvolvimento de novos negócios. E, sem dúvidas, um valioso caminho para compreender as dinâmicas sociais e culturais dos ambientes digitais.

 

ALGUMAS NOTAS IMPORTANTES

– VALOR ECONÔMICO: Amazon, Goodreads, Expedia e Trip Advisor são exemplos de alguns modelos de negócios milionários baseados no imenso valor dos comentários on-line, incluindo reviews e ratings (p. 43).

-NICHOS: ratings e reviews são particularmente importantes para produtos de nicho ou desconhecidos (p. 46).

CONCRIT: contração de constructive criticism, termo usado nas comunidades de fanfiction para o feedback endereçado ao autor, com sugestões específicas de aprimoramento da obra (p. 79).

FLAMING: comentário nocivo e não producente (p. 79).

– ANONIMATO:  o anonimato está positivamente relacionado à incidência de comportamento hostil. “On-line, as pessoas exibem um comportamento mais informal e igualitário (como entre aluno e professor) e uma desinibição (em forma de flaming, por exemplo)” (p. 94).

TROLL: a linguista Susan Herring define o troll como o sujeito que envia mensagens aparentemente sinceras, criadas para gerar determinadas respostas ou rompantes, capazes de perder tempo somente para provocar discussões fúteis (p. 96).

– ÓDIO: troll, hater ou bully são termos comumente usados para classificar as pessoas que discordam das nossas próprias opiniões. O discurso de ódio pode se alastrar também por imagens, vídeos e gifs perturbadores (p. 99-100).

BASHTAGS: apropriações subversivas da hashtag de um oponente. Reagle cita o exemplo da briga entre machistas e feministas através da apropriação de hashtags como #INeedMasculismBecause e #tellafeministThankyou (p. 116).

– GERAÇÃO Y, NADA!: a pesquisadora Siva Vaidhyanathan contesta a noção de que os jovens são experts digitais. Basta observar que a maioria não é capaz de criar uma página HTML. Além disso, a prática de multitarefas midiáticas está minando a capacidade de concentração e foco das novas gerações (p. 134). Em uma experiência com seus alunos, Reagle adotou um exercício em que os estudantes definiam um objetivo antes de acessar a internet. Após 20 minutos, o professor perguntava aos alunos o que estavam fazendo. Muitos perambulavam como sonâmbulos on-line, sem lembrar-se do objetivo inicial (p. 185).

– LÓGICA DA QUANTIFICAÇÃO: compradores e vendedores são avaliados e classificados (Mercado Livre), motoristas e passageiros também (Uber). Estas medidas de classificação são sujeitas à manipulação e podem reforçar preconceitos sociais (p. 141).

– RUSH AND SLASH EFFECT: os comentários mais imediatos após uma publicação tendem a atrair um maior número de respostas e votos. Além disso, influenciam os comentários seguintes. Um estudo de 2013 mostrou que  entre comentários avaliados positivamente, negativamente ou neutros, os que receberam votos iniciais positivos se tornaram em média 32% mais bem avaliados. O que explica em parte a dinâmica de TRENDING.

 

Crítica: Elle

                                                         O jogo da perversão

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Por Rafael Carvalho*

Paul Verhoeven resistiu a Hollywood, com seu cinema atroz, aguerrido, irônico, desestabilizador. Para quem acreditava que ele tivesse aplacado os ânimos criativos, eis que retorna com mais uma pedrada em forma de filme: ninguém parece sair incólume de uma sessão de Elle, produção francesa que chegou recentemente aos cinemas comerciais brasileiros, depois de ter competido no último Festival de Cannes.

É justo dizer que a força do filme seja Isabelle Huppert e sua arrebatadora personagem – para dizer o mínimo dela sem entregar muito, também pela dificuldade de adjetivá-la –, essa mulher ímpar na sua relação com o mundo – e por isso seja tão forte seu “embate” com o espectador. Isso porque nada nos prepara para descobrirmos a mulher fria e arredia logo após ela ser violentada sexualmente em sua própria casa no exato início do filme.

A personagem poderia se abalar tremendamente, sentir medo, raiva, nojo, desespero. Não, ela quer ser maior que isso. Sua reação é de frieza e certa apatia. Ela é Michèle Leblanc, a diretora de uma empresa de desenvolvimento de jogos para videogames. Tem personalidade forte, dona de si e independente, rica e não deve nada a ninguém. Aos poucos vai revelando atitudes rudes e impositivas, dura como uma rocha.

O que se segue é a continuidade de sua rotina ao lidar, sempre com imposição, com pessoas próximas: sua viúva mãe apaixonada por um jovem garoto de programa, o filho ingênuo que vai se casar com a namorada grávida e controladora, o ex-marido carente, os amigos mais próximos do trabalho, alguns desafetos ali no ambiente profissional, os novos vizinhos. Num misto de prepotência e autocontrole, Michèle não demonstra compaixão alguma por qualquer um dessas pessoas que perfazem seu círculo íntimo e, nesse processo, abdica mesmo de certo amor-próprio.

As mulheres dos filmes de Verhoeven nunca se sujeitaram e sempre enlouqueceram os homens, desde a psicopata de Sharon Stone em Instinto Selvagem, passando pelas dançarinas irascíveis de Showgirls, até a misteriosa protagonista de O Quarto Homem que já enviuvou três vezes. Verhoeven parece dominar muito bem esse universo de fêmeas senhoras de si, com todos os perigos reais que elas representam. Porém aqui vai um pouco além: Michèle não se contrapõe ao seu algoz por ele ser um homem, mas simplesmente um sujeito que arrisca lhe tirar certa autonomia.

Se há alguma inquietação que a personagem sofre após ter sido estuprada, esta não advém da sua condição de mulher, mas sim da majestade que ela criou sobre si mesma – e esse é um bom passo para se entender que Elle não é um filme machista, muito menos misógino, nem sobre a cultura do estupro, quiçá sobre emponderamento feminino, apesar de essas questões estarem ali de algum modo (podemos mesmo dizer que certas atitudes de Michèle são brutalmente machistas, como na sua relação com a própria mãe). Elle abstém-se de julgamentos dessa ordem pelo simples fato de que essas questões não são questões para o filme e muito menos para sua protagonista – eis aí o maior fator de choque para o espectador: como uma mulher é capaz de lidar de tal modo indiferente com algo tão grave e devastador quanto um estupro? A inquietação surge em Michèle por ela ser controladora e possessiva a ponto de se sentir senhora dos destinos daqueles que estão à sua volta. A partir do momento em que esse sujeito penetra sua vida e intimidade, as rédeas que ela segura ameaçam cair de sua mão.

elleÉ a partir de uma perturbação muito particular e íntima que Michèle decide participar do jogo perverso para atrair e desmascarar a identidadedo seu algoz, esse homem desconhecido que continua a assediá-la com ameaças – e não é à toa que ela trabalhe desenvolvendo games. Michèle não está assustada, muito menos teme pela sua integridade física. Quer antes manter a majestade soberana de ter o domínio de sua própria vida, e a dos outros também. Sua atitude lembra outra personagem icônica que ela mesma protagonizou em A Professora de Piano, de Michael Haneke. O mesmo espírito doentio e (sado)masoquista repete-se aqui, numa personagem talvez mais elegante, sarcástica, mas não menos ameaçadora. O que nos faz indagar se há, de fato, indiferença na postura de Michèle diante da violência que sofreu ou se tudo não passa de um desejo mórbido de dor e violência, o que eleva o filme a uma discussão moral mais intensa ainda.

O corpo aparentemente frágil da francesa – e o cinema de Verhoeven é sobretudo um estudo sobre as potências (e violências) do/sobre o corpo – esconde a mulher que não quer ser vítima, que se nega a assumir a postura de quem se sujeita à violência ou se afeta estruturalmente por ela, apesar da violência rondar por ali, presente a todo instante. E em se negar a ser vítima (mesmo sendo), Michèle acaba se tornando também algoz, violadora, no entanto a partir de uma outra lógica, mais íntima e psicológica, e certamente não por consequência da violação que ela sofreu. Faz parte de sua natureza, e o filme ainda revela um episódio traumático de sua infância que dá pistas do porquê dela ter se tornado o que é. “A mais perigosa ainda é você”, atesta o ex-marido em uma conversa.

É incrível que, com personagem tão dura em situação de tal violência, Verhoeven consiga mesmo extrair humor de várias situações, especialmente na maneira da protagonista brincar com a dor dos outros personagens, sendo eles tão próximos dela. Cenas como as da revelação do bebê na maternidade ou a risada histérica à mesa de jantar, na noite de Natal, após a mãe fazer um anúncio, seguida de palavras tão duras de Michèle, expõem o absurdo que compõem aquele núcleo familiar.

Bom ver também como o diretor holandês ainda é capazde manter em alta o interesse pelo filme a todo instante, com ritmo não tão pungente quanto ele costuma imprimir em seus melhores trabalhos, mas ainda assim sustentando o ritmo. Algo está sempre prestes a acontecer de modo a levar a narrativa adiante, mudando mesmo a percepção que temos sobre os personagens, ou apenas reforçando seu caráter.  É com essa força de encenação, ao mesmo tempo sem precisar chamar atençãopara si, e tramando uma complexa rede de atitudes e comportamentos provocadores de sua protagonista, que Elle salta aos olhos como cinema de energia e inquietação.

Elle (Idem, França/Alemanha/Bélgica, 2016)
Direção: Paul Verhoeven
Roteiro: David Birke, baseado em romance de Philippe Djian

* Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas (PósCom/UFBA) e pesquisador membro do GRIM.

Supermax (2016)

Apesar de problemas em sua estrutura, Supermax é um avanço da Rede Globo em séries do gênero. supermax2

por Amanda Aouad *

A Rede Globo está investindo cada vez mais no formato de série. Parece que ainda não há coragem para ousar pensar em temporadas, mas não deixa de ser um avanço ver obras como Justiça e a série de terror Supermax. A própria estratégia de divulgação dessa última chama a atenção.

Quase todos os episódios estão disponíveis para assinantes da Globo no GloboPlay. Digo quase porque eles seguraram o último episódio para ser visto apenas em dezembro, quando for ao ar na televisão. Com isso, criaram uma espécie de vlog dentro do aplicativo para discutir teorias sobre os mistérios da trama em uma tentativa de manter os assinantes entretidos.

Essa quase estratégia “Netflix” (que sempre lança toda a temporada de suas séries de uma só vez) parece fundamental para a obra que só começa a esquentar mesmo a partir do terceiro episódio, tendo, talvez, um dos piores pilotos de série já vistos. Mas quando o reality show deixa de ser um reality, tudo começa a ficar interessante.

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O formato do primeiro episódio tenta simular um reality show, a direção não usa apenas câmeras escondidas, mas nos apresenta as personagens em vídeos, tem vinheta e até a apresentação de Pedro Bial. Esse é um dos grandes erros de escalação, já que o jornalista e apresentador não é ator e fica artificial em cena.

Os atores também não parecem muito à vontade em seus papéis. Os diálogos não são naturais, a estrutura não parece crível e mesmo as disputas que começam a surgir soam falsas. Tem inclusive um estranho erro de escalação, já que nas cenas abertas do grupo, vemos o ator Harildo Deda no lugar do ator Mário César Camargo, que interpreta o médico Timóteo.

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Ou seja, nada parece funcionar em Supermax. Pode ser que seja um clima proposital para o que está por vir, mas o fato é que o episódio piloto não fisga o espectador. Não nos deixa curiosos para continuar a investir na obra. E o pior, não faz jus ao que será desenvolvido adiante.

Um piloto é uma carta de apresentação, precisa trazer o tom da série e demonstrar aquilo que o espectador irá acompanhar por toda a jornada. Tudo deve ser implantado ali, ainda que melhor desenvolvido adiante. Ao se basear apenas pelo piloto, diríamos que Supermax é uma série sobre um reality show. O que não é verdade.

Então, por que continuar?

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Aos que persistem, há, no entanto, algumas recompensas. Como já foi dito, a série começa a esquentar no terceiro episódio. O gancho cria uma reviravolta que nos deixa intrigados e faz embarcar naquela aventura, apesar de ainda algum estranhamento.

Aos poucos, as personagens vão se tornando mais críveis, sendo aprofundadas e algumas revelações são bem conduzidas, como a cena em que Luisão e Janette ficam presos na área de alimentação. Os mistérios também vão sendo mais bem trabalhados e as explicações apresentadas são coerentes.

Talvez o mais intrigante em Supermax seja a possibilidade real dos acontecimentos. Nada é fantasioso em excesso, em determinado momento tudo fica palpável, o que ajuda no efeito do horror. E mesmo quando alguns elementos fantásticos são introduzidos, é possível comprar a verossimilhança aquele universo. A própria construção de efeitos é conduzida com poucos recursos, um som, um movimento de câmera, penumbras. Há efeitos especiais, mas a série não se baseia neles.

Há uma verdadeira mistura de referências. A começar pela série inglesa Dead Set, talvez a referência mais forte, com pitadas do filme espanhol REC. Mas é possível pincelar referências de formatos e temáticas de obras como Lost, OZ, Supernatural, Heroes e até algo de The Walking Dead.

Ainda que não tenhamos visto o episódio final, já é possível ver um avanço na Rede Globo no gênero. A série, de fato, funciona, pelo menos até o episódio 11. Só nos resta agora aguardar o episódio final para ver se a boa sensação se confirma. Afinal, tudo pode cair por terra com uma resolução mal planejada. Vamos torcer.

 

* Doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Póscom/UFBA) e integrante do GRIM

Orphan Black – Quarta Temporada

Vencedora do Emmy (2016) de Melhor Atriz em série dramática, para Tatiana Maslany, Orphan Black chegou à quarta e penúltima temporada com uma trama mais madura e envolvente.

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Por: Letícia Moreira*

O Clone Club está de volta com mais suspense, revelações e desafios na quarta temporada de Orphan Black, a mais instigante e bem elaborada até então. E os fãs mais fiéis com certeza não se decepcionaram com a sequência, que conseguiu desenvolver bem a trama, trazendo um equilíbrio, à sua maneira, ao enredo, logrando prender o espectador sem a necessidade de saturá-lo com informações e referências, hábito típico das temporadas anteriores.

Agora, a ânsia de acompanhar o desenrolar da história (que envolve clones humanos e experiências biológicas) vem com uma viagem ao passado, o surgimento de uma nova personagem chave e com a volta do mundo dos mortos de figuras centrais, fazendo desta uma temporada que resgata elementos fundamentais das anteriores, renascendo e resolvendo arcos que até então clamavam por esclarecimentos.

A quarta temporada já inicia ressuscitando Beth Childs (Tatiana Maslany), que vinha sendo apresentada através de flashbacks e memórias de outros. Voltamos para os momentos pré-morte de Beth, pela ótica daquela que foi a clone líder nas investigações antes do aparecimento de Sarah Manning, que vem assumir o papel central da série.

Esse retorno temporal foi uma estratégia inteligente que funcionou muito bem para a narrativa, tanto para um resgate do público, que consegue entender o porquê do suicídio (o gatilho inicial no piloto), bem como para reaver e esclarecer conceitos indispensáveis, como a Neolution, organização que comanda os experimentos com genoma humano, como dos Projetos LEDA e Castor (clones femininos e masculinos, respectivamente), que se torna central tanto na retomada ao passado, quanto nos acontecimentos presentes.

As ações do passado e do presente são trazidas intercaladas, gerando um bom aproveitamento das personagens, em especial da nova clone, MK, uma hacker desconhecida por Sarah, mas que foi figura importante no passado do clube, ajudando Beth a conseguir informações sobre Neolution, DYAD e a rede de pessoas envolvidas nessa teia, como a doutora Duncan, que aparece mais intensamente agora. O público é convidado a permanecer fiel a série pelo modo como esses elementos vão sendo trazidos e interligados nessa temporada.

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Além de MK, a ingênua clone Krystal volta como uma figura mais constante, criando no público expectativas de se e como ela vai descobrir a história que a envolve e se tornar uma sestra. E os roteiristas não a trouxeram como refúgio cômico (como na temporada anterior), colocando-a aqui como fonte e testemunha mais importante sobre o desfecho de Delphine (Evelyne Brochu), trazendo uma luz de esperança para o público cativo.

As outras sestras, Alison Hendrix e Cosima Niehaus, são bem construídas e mais bem aproveitadas. O relacionamento de Alison e Donnie (Kristian Brunn), que vem se desenvolvendo e recebendo destaque ao longo das temporadas, consegue aqui atingir um momento interessante, com um desenrolar mais maduro e sensível, sendo um dos pontos de destaque na temporada.

A atuação incansável de Tatiana Maslany se mantém como um dos trunfos da série, sendo, talvez, a mais sensível e bem desempenhada até então. Ela conseguiu, com muita destreza e sensibilidade, criar uma identidade forte e particular para cada clone, chegado agora ao ponto de que é totalmente dispensável a presença de elementos outros para o espectador identificar qual sestra está em cena, bastando a captura do olhar da atriz.

Os elementos mitológicos se mantém na narrativa, de uma maneira forte, exigindo (para uma leitura mais profunda) uma bagagem informativa daquele que assiste. A série adquire um tom que mescla o surreal, mitológico com um futurismo real, é como se quase parecesse ser de uma dimensão mítica, mas com bases que são totalmente possíveis no nosso amável mundo real e atual.

A quarta temporada não peca em praticamente nenhum ponto com a construção do enredo, cumprindo o que promete, em especial aos fãs mais fiéis. Pouco ou talvez não muito claro foi o surgimento da irmã biológica de Félix, que aparece sem muitas contextualizações. Esperemos o desenrolar dessa história na próxima (e última) temporada.

Sobre a série:

Orphan Black é uma série canadense de ficção científica que conseguiu atrair um público não tão cativo ao gênero. A trama é centrada na personagem Sarah Manning (Tatiana Maslany) que se descobre resultado de uma experiência de clonagem humana após deparar-se com o suicídio da sua clone Beth Childs. Sarah e suas irmãs Alison Hendrix, Cosima Niehaus e Helena, unidas na busca de descobrir suas origens, lidam com uma série de grupos e institutos que se revezam entre destruir, capturar e proteger as clones, e daí todo enredo vai se desenrolando. A série foi renovada para sua quinta e última temporada!

*Graduanda em Comunicação Social com habilitação em Produção em Comunicação e Cultura, na Universidade Federal da Bahia. É pesquisadora do GRIM.